carolina maria de jesus

A literatura da fome

Não conheço dados concretos para avaliar o poder de efeito da literatura militante, essa feita, em geral, nas periferias das grandes cidades brasileiras. Falta-me o conhecimento específico de características desses ambientes, assim como o impacto que uma obra literária pode causar ao focar o modo de vida singular de determinadas populações. Creio que, em muitos casos, o resultado é muito mais publicitário, ao atender uma demanda de conteúdo social por parte de um público acostumado a tratar o diferente, quando não com desprezo, apenas como uma curiosidade a ser consumida. Esse parece ter sido o fim mais evidente de uma obra como Cidade de Deus, por exemplo, mas não se pode ignorar outros, inclusive o próprio ato de protesto. Creio que, o leitor que lê semelhante relato como a denúncia de uma situação bem próxima a ele, no mínimo passa a entender o seu próprio meio sob uma nova dimensão. É por isso que leio com bastante atenção e igual deleite a prosa de um autor como Ferréz, cujo registro parece estar mais preocupado em fazer o retrato da vida das comunidades marginais do que com o refinamento estético, ou literário, do texto.

Mais prazer ainda me proporcionou a leitura de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, em nova edição da Editora Ática.  Trata-se, como é de conhecimento geral, do diário de uma mulher semialfabetizada, que vivia numa favela de São Paulo, na década de cinquenta. Antes, portanto, do surgimento do crime organizado, que assumiu o controle dos territórios abandonados pelo Estado.

A narrativa é contundente, tanto na forma como no conteúdo. Para se ter a dimensão do drama relatado, basta saber que a autora, muitas vezes, se punha a escrever para disfarçar a fome, em dias em que não havia o que comer. A rotina era miserável e quase automática: acordar de madrugada, ir buscar água numa torneira comunitária, preparar o café, quando havia mantimentos, despachar os filhos para a escola e ir para o lixo catar o que desse para vender e angariar alguns trocados com que pudesse providenciar o almoço; e, sem descansar, voltar ao trabalho em busca de provimentos para a janta. Em dias de chuva não havia o que catar, portanto, quase nunca conseguia com que preparar uma refeição para ela e os três filhos. Então ela escrevia.

Paralelemente, ela se ocupa dos relacionamentos com os outros habitantes da vila: as brigas intermináveis, os escândalos diários, as amizades conquistadas. E no meio de todo esse rebuliço ela encontra tempo e disposição para escrever e ler. Aqui vale uma queixa: a grande lacuna é ela não nos cotar sobre os livros que lê, nem como os adquire, e nem como o hábito da leitura entrou em sua vida. Apenas uma ou outra menção rápida sobre algum poeta, como Castro Alves ou Augusto dos Anjos, mas sem comentar sobre sua relação com a literatura deles. Também há algumas referências à Bíblia, mas nesse caso, apenas sob um ponto de vista religioso.

Quanto à forma, pode-se dizer que é tão seca quanto a vida da autora. Uma linguagem crua, quase primitiva, adornada por uma inegável inspiração poética, com imagens e metáforas retiradas do seu próprio meio para traduzir a miséria de sua existência, não raro se valendo de uma ironia cruel, como no caso da vizinha que morreu e, quando o corpo foi retirado do barraco em direção ao cemitério, a autora comenta “agora finalmente ela terá uma casa própria”.  Miséria, diga-se, puramente material, porque Carolina se mostra uma criatura abonada de grande talento, uma alma sensível, e uma capacidade de compreensão da realidade digna de humilhar muitos escritores autuais formados em academias. A própria atitude de usar a literatura como antídoto da fome já é uma evidência de um prodígio intelectual

Não se trata de santificar uma mulher que teve uma força invejável para superar as restrições impostas por uma condição humilde. Ela própria, certamente, não se candidataria a uma vaga para canonização. Era apenas um ser humano que não aceitava viver como bicho, se revoltou, e lutou contra isso enquanto pode. É nesse contexto que se deve colocar alguns deslizes cometidos e relatados por ela. E não se trata aqui dos erros de gramática e de ortografia, devidamente mantidos assim como grafados no original, como revela a nota dos editores. Esse ponto, aliás, merece até elogios, por demonstrar que uma pessoa com tão poucos benefícios se aventurou e conquistou seu espaço num mundo elitista, onde muitas das figuras já estabelecidas torcem o nariz para ousadias ou deficiências retóricas.  Refiro-me a certos episódios de intolerância e preconceito, aos quais ela se refere de maneira muito natural. Como o da repressão ao filho por ler gibi. Por algum motivo, ela perdeu a paciência com o menino, sacou o livrinho da mão dele, rasgou e jogou no lixo, porque era uma leitura que ela detestava. Outro caso digno de nota é a opinião totalmente estereotipada sobre um acampamento de ciganos que se instalou perto da favela. Um caso típico de oprimido que adere ao discurso do opressor em relação a outra vítima da opressão.

Mas esses aspectos não chegam a comprometer a grandeza do depoimento. Digno de nota é, ainda, um senso de humor surpreendente, considerando-se que a autora vive num estado de mendicidade. Só uma pessoa de rara inteligência e sensibilidade aguçada pode captar um lado cômico em meio a tantas privações. Por vezes ela consegue rir das próprias agruras e anota isso com muita naturalidade. O fato de catar a sobrevivência no lixo serve aqui de metáfora bem expressiva. Do eco dos clamores da penúria ela capta os resquícios de humanidade que lhe dão ânimo para seguir em frente.

Uma das estratégias mais curiosas desses apontamentos, que parece ser usado mais por pudor do que por elaboração de estilo, é a recorrência das elipses. Uma mulher com tanta energia espiritual não poderia deixar de atrair homens carentes de proteção. Embora repita um discurso bem convencional sobre os deveres morais da mulher, ela não se furta aos assédios de dois moradores vizinhos, parece até tirar algum prazer nisso. De um deles, ela menciona, de maneira tímida e cheia de subentendidos, as noites em que dormiram juntos, mas do outro, ela só se refere às investidas, deixando o leitor em suspense quanto ao resultado das tentativas do apaixonado. Isso adquire um grande significado porque, como ela mesma descreve sobre os vizinhos, trata-se de uma convivência em que troca de favores, amizades, e atividade sexual se confundem numa naturalidade espantosa para os padrões moralistas. O exemplo mais enfático desse recurso está na visita do pai da filha dela, um empresário bem sucedido, que mora na cidade, e é poupado da exposição no diário: “ele deu-me 120 cruzeiros e 20 para cada filho. Ele mandou os filhos comprar doce para nós ficarmos sozinhos. Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher. Dei graças a Deus quando ele despediu-se”.

Pelo que se vê nos dias de hoje, a literatura não mudou a vida das periferias, apesar do livro de Carolina ter chamado a atenção do mundo inteiro sobre a condição dos indigentes despejados nas margens da sociedade. Mas com certeza, a literatura foi um alimento bem nutritivo para Carolina na sua ânsia de entender um pouco do mundo em que vivia. E depois, felizmente, com o sucesso que alcançou, libertou-se da fome propriamente dita, aquela que ainda atormenta e aprisiona as almas e os corpos de milhões de brasileiros.

[foto: site Geledés]

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