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Venial Karnalidade

Vivemos a época da diversidade. E isso é ótimo como reconhecimento do valor de novas propostas, outras predileções no estilo de se conduzir a própria vida, novas maneiras de viver os afetos, enfim, um sem-número de escolhas a contradizer as teses retrógradas da monotonia existencial.

Mas há o outro lado. O senso comum, com a costumeira obsessão de rebaixar tudo ao nível simplório das inteligências medianas, criou uma grande confusão entre variações nos modos de vida e intercâmbio dos posicionamentos ideológicos. Resulta daí a crença de que qualquer tagarelice deve ser levada na conta de legítima manifestação. A justificativa para tais superstições é que o diálogo entre pessoas civilizadas deve se dar em tom de conversa de salão, sempre no limite requerido pelas almas mais sensíveis, aquelas que se ofendem até com brincadeiras inocentes.

Essa semente da concórdia brotou em solo fértil entre os adeptos da polidez social, e a nova árvore do conhecimento cresceu com tanto vigor que as ramagens atingiram os meios acadêmicos brasileiros, onde sempre há um sofomaníaco disposto a atender as demandas do grande público. Conectados aos tempos modernos, em que tudo o que é venal passa pela mídia, esses doutrinários das boas maneiras vendem uma imagem de estoicismo e superioridade de espírito, e arrebanham uma multidão de fieis dispostos a sacrificarem até mesmo a capacidade de reflexão intelectual para consumir o último produto mental em oferta. Bem treinados numa retórica carregada do jargão das ciências sociais, eles engendram uma logorreia saturada das mais comezinhas generalizações do prosaísmo cotidiano, articulam um palavrório sem profundidade intelectual, um fast food do festim filosófico, pronto a ser engolido por paladares rústicos e apressados em sentir o gosto purificador da boa informação e do equilíbrio emocional, imune aos dissabores do extremismo.

Leandro Karnal é hoje o maior representante dessa tendência. Dotado de certo carisma, uma figura elegante, performance realçada com algumas doses de bom humor, ele arranca fervorosos aplausos de uma plateia que parece pronta a aplaudir qualquer tolice que lhe sirva de alimento espiritual, sem maior exigência quanto ao valor nutritivo, desde que o tempero tenha um gosto aprazível. Basta assistir a alguns dos inúmeros vídeos disponíveis na internet, nos quais o famoso professor exibe erudição e charme na sua parolagem, onde propaga uma ladainha boba e singela, que não rompe as camadas mais externas dos problemas que se propõe a discutir. Uma arenga composta de frases feitas e alogias correntes, salpicadas aqui e ali por uma passagem literária, ilustrada com o nome de um personagem da literatura clássica, um escritor ou filósofo do cânone cultural, mas cujo cerne, para quem quiser procurar, revela-se completamente vazio, desprovido de qualquer consistência, seja filosófica, seja sociológica.

Num dos vídeos assistidos, ele lança invectivas contra a intolerância, a falta de recíproca, a dificuldade dos brasileiros de conviverem com quem expressa pensamento diferente dos seus. Seja no futebol, em religião ou política, lamenta ele, não há mais a boa troca pacífica de críticas.

A primeira coisa que surpreende um ouvinte mais atento a esse discurso é o fato de um acadêmico misturar três instâncias tão distintas umas das outras. As preferências no futebol são movidas por uma paixão. Não há o que explicar quanto aos motivos que levam um indivíduo a se bater pelo time A ou B, e creio que ninguém se preocupa muito com isso. A religião é a necessidade de uma pessoa de se agarrar a algo que ela acredita ser superior e que vai dar sustentação a sua existência. Discutir religião é pôr em risco toda a estrutura de conceitos sobre os quais a pessoa organiza sua vida. É por isso que muitos crentes não aceitam o menor vestígio de dúvida sobre suas quimeras. Se essa resposta tem muito de condicionamento emocional, também é certo que se origina de um instinto de sobrevivência, e assemelha-se à busca de um anteparo diante de um perigo ancestral: o medo provocado pela consciência do abandono num universo que não se consegue conhecer integralmente.

Já a política não é uma simples aventura inspirada no alvitre pessoal. Trata-se aqui de um caminho escolhido em função de um processo de aprendizado cultural no que concerne aos assuntos que condicionam a vida em sociedade. Diferente do futebol, onde as escolhas são emocionais, e da religião, onde os motivos são místicos e de natureza espiritual, na política, as opções são baseadas nas afinidades com os projetos políticos que os partidos representam.

Essa postura do professor traz implícito aquele estereótipo de que política não se discute. É uma sentença criada para que as tramas políticas sejam dadas como naturais, coisas de esferas inatingíveis para o cidadão comum, Trata-se, evidentemente, de retirar os temas políticos do debate em lugares públicos, e condicioná-los aos espaços previamente consagrados a esse fim, como as instituições e a academia, pois como se sabe, nesses ambientes só entram os juízos permitidos por quem está no comando.

O segredo do sucesso do Karnal é a habilidade de traduzir os aforismos mais corriqueiros para o jargão acadêmico. Seus ouvintes são aqueles indivíduos que não querem ir além da casca mais exterior dos fatos e buscam uma justificativa para as suas fraquezas intelectuais. Quando uma pessoa não encontra energia para apreender a complexidade da vida, sai à procura de alguém que legitime e valorize a superficialidade e os preconceitos das ideias prontas. Só assim é possível entreter-se em bate-papos descontraídos com os amigos, pois se sabe que todos os provérbios são válidos e merecem ser respeitados. E mais ainda, fica-se com aquela agradável sensação de estar contribuindo para a paz e a harmonia dos costumes.

Naturalmente que não há o que se preocupar com o fenômeno atual das celebridades acadêmicas. A Karnalidade é venial; não passa de uma pregação para convertidos, seres ingênuos que confundem pabulagem com sabedoria, impressão pessoal com raciocínio, e encaram a busca do conhecimento como uma reunião de camaradagem, onde as nuances subjetivas da fala já são suficientes para atrair ouvintes predispostos ao êxtase da cumplicidade.

No entanto, sempre é bom acrescentar que as inferências da razão não se prestam só para entretenimento no happy hour. Elas são a causa do arrebatamento das atitudes e a justificativa das posições que o sujeito vai assumir na vida, assim como o fundamento dos interesses a serem defendidos. Até aí, nada demais. O problema é que entre esses encargos que as pessoas assumem na vida está a função de governar as outras pessoas e reger os destinos de todo mundo. E mesmo no caso de quem se abstém de pleitear altos postos nas instâncias administrativa e legislativa, suas assertivas podem servir de apoio para aqueles que assumem o controle do poder e determinam os rumos de uma sociedade. Conclui-se daí que o busílis não é a diferença das ideias, e sim os interesses que elas legitimam.

Demonstrar apreço por uma pessoa é um ato de civilidade elogiável em qualquer circunstância, mas não se pode cometer mais um equívoco, muito comum nos dias de hoje: considerar uma pessoa não é a mesma coisa que acatar como válido qualquer disparate que ela proferir. Respeita-se a integridade moral e física da pessoa discordante, mas sem a necessidade de levar a sério uma baboseira descabida só para manter a pose de cortesia.

A tolerância é antes de tudo uma estratégia de preservação mútua, mas é bom ter sempre em mente que as interações humanas vão muito além do papo furado de uma mesa de bar.

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Porque me afanam no meu país

Andam falando por aí que já existe uma máquina para ressuscitar mortos. Não sei se ela pode ser usada indiscriminadamente, quero dizer, também em defunto antigo, em estágio avançado da putrefação cadavérica. Seja como for, seria interessante evitar que algumas pessoas que viveram num passado mais distante tivessem a oportunidade de voltar. Não por discriminação temporal, preconceito cronológico ou algo assim, mas por um sentimento de caridade, para evitar que elas venham a sofrer de novo as agruras do mundo. Imagine-se, por exemplo, o conde Afonso Celso, que viveu na virada do século XIX para o XX, acordar do sono que parecia eterno e se deparar com os acontecimentos de hoje. Para quem não lembra, ou não sabe, o referido fidalgo foi uma alma muito pura, de sentimentos tão nobres quanto a sua estirpe, e além do mais, cultivava pendores literários. Foi ele o autor de uma obra, adjetivada humildemente de opúsculo, mas que, na verdade, era um hino de louvor à vida nacional. Publicada no ano de 1900, recebeu o título de Por que me ufano de meu país? Em algumas dezenas de páginas, o diletante literato catalogou e engrandeceu os vários motivos de orgulho que um indivíduo deve possuir por nascer e viver no Brasil. E não poupou qualificativos para enaltecer as qualidades superlativas desta terra tão abençoada.

O primeiro aspecto a ser descrito, com o mais desbragado sentimento de ufanismo, é a dimensão geográfica. Evidentemente, o conde, que tinha uma inteligência compatível com o país onde nasceu, sabia que extensão territorial não é garantia de desenvolvimento, seja econômico, espiritual, intelectual ou qualquer outro. Estava lá a África para justificar essa ressalva. Acontece que ao longo de espaço tão grandioso, encontrava-se uma floresta de dimensões míticas, cujo som é uma verdadeira sinfonia de pássaros das mais variadas espécies, dotados de uma beleza que só atesta o cuidado que teve o criador no momento em que se dedicou a esta parte do planeta. Essa imensa área vegetal é cortada por rios que rivalizavam com os oceanos em mistérios e riqueza de vida marinha.

Pobre conde! Se voltasse à vida hoje e encontrasse a floresta, melhor dizendo, o que resta dela, arrasada por madeireiras clandestinas e extrativismo ilegal. E a rede fluvial, destroçada por usinas hidrelétricas ou entupidas de lixo urbano.

Mas é claro que o Brasil não é apenas solo, árvore, água, pássaro e peixe. Tem também, e principalmente, o seu povo. Aqui, eu me sinto na obrigação de deixar um alerta, caso o insigne escriba se levante do leito sepulcral onde repousa desde 1938. Aquele sentimento de independência, elevada até a indisciplina, transformou-se hoje em falta de civilidade. Tanto ouviu o nosso povo elogios ao seu modo de improvisar a vida, que hoje ele pensa que não precisa seguir nenhuma regra social, e pode fazer e desfazer tudo do jeito que bem entender. Obedecer à lei, só se isso trouxer algum lucro, porque senão não vale a pena, dá muito trabalho, e o brasileiro vive na lei do menor esforço.

Quanto àquela hospitalidade de antanho, que dispensava até a existência de hotéis, as coisas mudaram um pouco. Hoje em dia, muitos brasileiros ainda encontram acesso às moradas alheias sem grande esforço, basta enfiar o pé na porta e entrar, com ou sem o consentimento do dono, que, aliás, quase nunca está presente. E tão agradecido fica o visitante que, ao sair, faz questão de deixar a casa bem limpa para quando o dono chegar, tanto que carrega consigo tudo o que puder.

Difícil alguém conseguir imaginar qual seria a reação do preclaro ufanista ao tentar encontrar aquela honradez no desempenho das funções públicas e particulares, pois naquele tempo, como bem salientou o distinto conde, os homens de estado costumavam deixar o poder mais pobres do que eram quando nele entraram.  Pensando bem, é melhor esquecer essa máquina milagrosa, ou pelo menos fazer uma seleção rigorosa de clientes antes de coloca-la em funcionamento. Seria muito triste uma pessoa     retornar à vida depois de tantos anos para se suicidar em seguida.

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Conservadorismo e Ignorância

Ignorância e conservadorismo

Dia desses, li uma matéria sobre a interdependência entre capacidade do intelecto e posições políticas. Por mais que a credibilidade desse tipo de estudo não seja lá muito grande, eu fiquei curioso com o resultado, porque tenho observado o mesmo fenômeno. A pesquisa descobriu que as pessoas com certo grau de dificuldades intelectuais são todas conservadoras e reacionárias.

Desnecessário uma formação de cientista pra chegar a essa conclusão, e também não me detive na objetividade dos critérios do referido trabalho. Bastou a sensação de estar diante de um fato que eu também já tinha percebido.  E como nas horas de ócio eu gosto de me disfarçar de pesquisador diletante e entender os problemas que condicionam a convivência da raça homo sapiens, me pus a divagar por minha própria conta sobre o assunto.

Um dos fatores que determinam a reciprocidade entre estultice e conservadorismo parece bastante óbvio. Pessoas cujo pensamento não atinge dimensões mais profundas do que a superfície visível costumam simplificar a existência a um nível facilmente aceitável. Isso é um efeito dessa necessidade mórbida de controlar tudo o que acontece em volta, para se sentirem seguras nesse imenso universo em constante movimento. A estratégia pra isso é esquadrinhar a vida em compartimentos estanques, onde tudo tem seu lugar definido, tudo funciona de acordo com alguma lei predefinida e imutável.

O problema é que a constante pulsação da realidade não se sujeita a normas estranhas, e acaba sempre atropelando a paz artificial adquirida apenas na dimensão do imaginário. Uma mente aberta, disposta a acompanhar o fluxo da existência, se joga no movimento e tenta aprender as potencialidades do novo ritmo. Um espírito estreito, que prefere a segurança do já conhecido às surpresas da novidade, se apega ao passado e se põe a praguejar contra o presente. Para essa alma pacata, que não enxerga nada além do seu restrito ângulo de visão, onde tudo repousa numa organização confortável, o redemoinho que põe em revoada suas frágeis certezas, será sempre consequência de comportamentos alheios, que ela julga sempre como degradação moral. Jamais conseguirá entender que os novos arranjos, inclusive os novos comportamentos, são apenas a atualização de algo que sempre existiu em estado potencial. O resultado disso é o desespero e a ansiedade pela volta ao estado anterior, que aparecerá sempre como um momento superior da trajetória existencial.

Uma mentalidade que tem a organização como um fator essencial de qualquer domínio, acaba sempre criando uma hierarquia na disposição dos elementos que constituem um ambiente. E como toda estrutura hierarquizada precisa de uma força externa para pôr o mecanismo em funcionamento, surge a necessidade de uma entidade superiora que desempenhe esse papel. A solução mais acessível encontrada pelos primitivos humanos, ainda lá no interior das cavernas, foi a invenção de seres supremos, habitantes das esferas celestiais, dotados de poder descomunal e absoluto sobre homens aqui da terra. Por isso que todo o vivente privado de vigor no entendimento, além de reacionário é extremamente religioso. A religiosidade, como resultado de uma limitada visão de mundo, é até aceitável, visto que ela é a característica básica de um estágio psicologicamente infantilizado. Mas a obstinação dos ignorantes em não tolerar a complexidade da vida real é um fenômeno que merece muitas reflexões, pois afinal de contas, tem coisas que até as crianças entendem.

Arte ilustração: Latuff