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Lendo Bobbio

Norberto Bobbio morreu em 2004, perto dos cem anos de idade. Atravessou, portanto, todo o século 20, e deixou uma obra extensa de estudos sobre esse período. Além da atividade intelectual, exerceu cargo político no parlamento italiano. E é justamente sobre política um dos últimos textos que publicou. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. Trata-se de uma reflexão para definir os dois polos de uma díade que perpassa as disputas pelos instrumentos de poder, há mais de dois séculos.

Minha intenção com esta resenha é selecionar alguns pontos do trabalho de Bobbio e testar seus reflexos na atual realidade brasileira.

A começar pela alegação do fim das ideologias, e o consequente esvaziamento dos termos Direita e Esquerda, ou de qualquer outra polarização que viesse a demonstrar conflitos extremos na disputa pelo poder. Como resposta a esse disparate, Bobbio afirma, já nas primeiras páginas do livro, que não há nada mais ideológico do que o propagado colapso das ideologias. Trata-se de uma estratégia para convencer os subalternos de que as decisões tomadas pelo grupo que controla o poder têm carácter puramente técnico e administrativo, isentas, portanto, dos interesses próprios desses grupos dominantes, e dos valores que desejam impor como orientadores da vida em sociedade.

Nessa onda da suposta morte das ideologias, surge uma terceira opção, que se apresenta como a superação dos dois extremos e se apropria do que é positivo em ambos. Trata-se mais uma vez, de despolitizar as disputas pelo poder, dando-lhe uma aparência de preocupação com objetivos comuns, ludibriando as suspeitas de ambições particulares.

Esse foi, claramente, o caso da chamada terceira via que se apresentou nas eleições brasileiras em 2014. Uma proposta de superar a já histórica rivalidade entre os dois principais partidos, PT e PSDB, representantes da Esquerda e da Direita, respectivamente, como se a luta não passasse de uma brincadeira inconsequente de crianças birrentas. Nada mais político, diria Bobbio, do que essa tentativa de despolitização. Negar a polarização é escamotear as causas de sua existência. Direita e Esquerda, ensina Bobbio, não são palavras vazias, porque não são apenas palavras. Para além da expressão de um pensamento ideológico, elas indicam o posicionamento dos indivíduos diante de valores essenciais no convívio social. E esse valor por excelência é a igualdade. Citando o mestre: “o critério mais frequentemente adotado para distinguir a Direita da Esquerda é a diversa postura que os homens organizados em sociedade assumem diante do ideal de igualdade”.

Por isso é difícil acreditar na narrativa de ex-esquerdistas arrependidos, fenômeno tão atual no Brasil. Esse suposto abandono do ideal de esquerda é resultado de uma confusão entre os ideais de esquerda e as tentativas históricas de colocar em prática o princípio da igualdade. O comunismo faliu enquanto programa político posto em prática, mas como ideologia continua bem vivo, pois as causas que o geraram, as desigualdades sociais, ainda são a característica mais marcante das sociedades humanas.

A questão da igualdade traz imediatamente o problema da liberdade. E nesse ponto as confusões são muitas, sobretudo na preleção da Direita, que valoriza mais a liberdade do que a igualdade, baseada na crença de que, num regime democrático, todos os indivíduos têm todas as liberdades para conduzirem suas vidas como bem entenderem. Bobbio não se deixa levar por esse palavrório. Ao contrário, ele alerta para a diferença entre liberdade de pensar e de agir. A primeira é um princípio abstrato, mas a segunda implica que o indivíduo tenha acesso a todas as possibilidades de usufruir essa liberdade, o que acaba remetendo à questão da igualdade. Não tem sentido nenhum alardear o valor de um principio abstrato quando nem todos os indivíduos podem vivenciá-lo na prática.

Não sei se algum dia Bobbio se interessou especificamente pelos problemas da sociedade brasileira. Mas, se vivo fosse e andasse por estas terras, provavelmente ele se espantaria muito ao ver os candidatos de Direita vencendo eleições com o ardil da despolitização da política e se apresentarem como não-políticos; ver a classe média, que por não conhecer as próprias necessidades, caiu na conversa da Direita e embarcou no blefe de um país livre do aparato ideológico. Um discurso que preenche os sonhos de consumo da classe média brasileira, que por acreditar que é rica, insiste em negar as causas dos conflitos sociais, e que, por ignorância, não consegue ver que as disputas pelo poder serão sempre ideológicas.

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O direito da esquerda

Este ano voltei ao Fronteiras do Pensamento, atraído, sobretudo, pela lista dos convidados. O primeiro deles, Mario Vargas Llosa, atração no evento de abertura da edição de 2016. O tema da conferência foi sua trajetória política, que começou na juventude, com uma militância comunista, com direito a algumas viagens a Cuba, o deslumbramento com o regime de Fidel Castro, e o posterior desencanto, marcado, principalmente com as denúncias dos crimes praticados pelo regime soviético, até chegar à maturidade, quando aderiu completamente à ideologia liberal, passando também por uma candidatura à presidência da república do Peru.

Todo esse percurso já era conhecido pelos fãs do autor, mas para aquelas pessoas que se interessam por uma dimensão mais ampla do fenômeno literário, suas relações com o contexto sociopolítico dos autores, esperava-se um pouco mais de reflexão e análise das variáveis políticas que condicionam a sociedade nos povos latino-americanos. E justamente nesse ponto é que o grande escritor logrou seus ouvintes mais exigentes. Suas concepções de Esquerda e Direita não avançaram uma única linha além das generalizações do senso comum, difundidas pela mídia ou pela propaganda ideológica. Como qualquer analfabeto político, Vargas Llosa confunde a proposta socialista e o espírito de Esquerda com os regimes políticos que se instalaram historicamente apoiados no discurso de Esquerda, sem perceber que autojustificação não significa exatamente autenticidade na execução. Se os regimes que se instalaram usando o discurso de Esquerda se desvirtuaram pelo caminho, isso só compromete os próprios regimes e não os princípios de Esquerda. Ser de Esquerda é muito mais do que se declarar a favor dos pobres e reivindicar redistribuição de renda.  É uma convicção de que a vida em sociedade não é conduzida exclusivamente pelo mercado, e que as pessoas não são mercadorias postas à venda e expostas para o consumo de quem pode pagar por elas. Esquerdista é um indivíduo que acredita que a prosperidade material é importante para atender demandas da existência humana digna de uma civilização, mas a produção e circulação de valores simbólicos, incluindo bens culturais, também é de vital importância. Portanto, se um regime qualquer, mesmo com um programa que inclua propósitos de Esquerda, não atendeu aos princípios básicos da dignidade humana, ele nunca foi de esquerda, e não passou de enganação. .

Nunca acreditei muito nesse discurso de ex-esquerdista arrependido, como se apresentou o grande astro da literatura-latino americana. No Brasil de hoje, temos um terreno fértil para esse tipo de ladainha, um contingente bem expressivo que arrota ressentimento de quem acreditou nas promessas de Esquerda e se sentiu ludibriado com a concretização. Nada mais falacioso. Trata-se, na verdade, de um segmento da classe média, dependente da economia de mercado, cujos únicos referenciais são o lucro financeiro e o poder de consumo. Essa parte da sociedade, no fim dos anos noventa, se viu num beco sem saída por ter apoiado o projeto neoliberal do PSDB e não teve suas necessidades atendidas, pois o governo de então estava destinado a atender apenas a classe dominante. Foi então que essa parcela migrou em massa para a alternativa petista. Quando o governo Lula apresentou seu programa de atendimento prioritário das demandas populares, a classe média, mais uma vez colocada em segundo plano, como aliás sempre esteve na estrutura social brasileira, saltou enraivecida, aos gritos de desespero e pânico por se ver ameaçada na sua condição de única detentora do poder de consumo de supérfluos. As denúncias de corrupção e a total alienação da dimensão histórica dos problemas brasileiros foram motivos suficientes para esquecer o passado e pedir a volta dos antigos traidores. Para que o retorno não fosse tão humilhante, recorreu-se a um passado de convicções esquerdistas, sustentadas por um equivoco ingênuo, por um romantismo juvenil.

Acontece que quem concebe a ideologia de esquerda como um sentimento de exaltação da dignidade humana e sonha com um sistema social que considere mais as realizações do espirito humano do que a das máquinas da indústria, esse nunca deixou de ser de esquerda. Um esquerdista autêntico, ao ver suas expectativas frustradas, vai fazer uma reavaliação das estratégias de conquista de poder e vai buscar novas alternativas de esquerda, jamais se entregar ao discurso fantasioso do paraíso neoliberal, como fez o grande escritor peruano. As propostas de democracia liberal insinuadas por Vargas Llosa na palestra são tão idealistas quanto o seu socialismo de juventude, pois ignoram, ou escamoteiam, os verdadeiros agentes que controlam o poder, ou seja, o dinheiro e a busca pelo lucro desmedido, e não essas bobagens puramente retóricas de liberdade, bem comum, marcados por uma impessoalidade que só existe nos discursos oficiais.

Enfim, para ser de esquerda e não cair nas armadilhas do discurso direitista e rancoroso é necessário romper as fronteiras do pensamento idealista  e acreditar num projeto político onde o humano seja mais importante que a mercadoria. É, também, construir outra narrativa sem esse complexo de vítima dos que não tiveram convicções fortes o suficiente para continuar. Isso, ao que parece, nem alguns dos grandes escritores conseguem fazer.