romero brito

Sem Deus e sem Musa

Eu queria escrever alguma coisa grandiosa neste começo de ano, tecer algum encômio a essas extraordinárias realizações que ocupam os cidadãos de bem do nosso país. É sabido que quando troca um dígito no calendário anual, as pessoas se nutrem daqueles sentimentos mais nobres e pensam em passar todo o ano novo dedicadas a tarefas importantes para o bom andamento da raça humana, e seria bem gratificante poder retomar minha produção de textos em sintonia com essas sumidades mais destacadas da nossa civilização

Mas acho que não fui tocado por esse espírito numinoso que orienta a vida dos meus contemporâneos e conterrâneos, e as musas, por mais que eu rogasse, não atenderam as minhas súplicas, nem me guiaram no caminho necessário para fazer tanto. Me sinto abandonado pelas divindades neste nosso mundo, tão pródigo de talentos para uns e com tanta parcimônia para outros.

Por vezes me sinto injustiçado. Mesmo tendo nascido numa família católica e sido amamentado sob os ensinamentos da mais autêntica doutrina cristã, e nunca ter me afastado um único centímetro da retidão que nos leva à presença dos Bem-aventurados; e ainda por cima, ter passado os primeiros anos da minha infância num sítio sortido de árvores frutíferas, nunca vivi um único momento de epifania, desses que acontecem às almas escolhidas pela Potestade. Já nem digo que Jesus me aparecesse no pé de alguma das árvores que nos fornecia alimentos para o organismo em épocas de penúria. Nosso Senhor certamente teria gente mais importante para visitar. Mas um simples sinal, como aquela imagem da cruz em chamas que apareceu ao imperador Constantino e o inspirou a abraçar o Cristianismo e impor a fé cristã a todo o império romano, ainda que ele próprio continuasse a cultuar os antigos mitos e deuses pagãos.

Nada disso me foi concedido, e por isso eu vivo preso na jaula desta insignificância, sem aptidão nenhuma que me eleve um pouco acima do comum das criaturas de Deus. É de se pensar que o Todo Poderoso criou os seres todos iguais e mandou que eles conquistassem as alturas espirituais e em seguida também atingissem os picos mais altos da escala social, mas, não sei se por descuido ou por algum desígnio mais misterioso, não forneceu escada nem elevador pra todo mundo, por isso alguns seres de índole mais lenta, no caso eu, foram deixados para trás, e os primeiros postos na pirâmide foram ocupados por grandes homens que, uma vez acomodados nas alturas, não descem nem para fazer suas necessidades mais básicas, o que acaba sendo bom para os aqui de baixo, que muitas vezes, só o que encontram para tocar a vida em frente são as sobras  que despencam, ou são expelidas, lá de cima.

Além dos parcos recursos naturais, a natureza ainda me impôs algumas limitações psicológicas, como as fobias. Com exceção do banho diário no verão, e um ou dois por semana no inverno, eu faço tudo o que posso para evitar a água. Água pura, nem beber eu consigo, o que me impõe a ingestão de outras beberagens mais palatáveis, como a cerveja e vinho, para suprir a necessidade de líquido no organismo. Não fosse isso, poderia me lançar em algumas aventuras dignas de uma narrativa épica para compensar minha falta de habilidade para frequentar os círculos mais altos da sociedade. Por exemplo, estive a ponto de tomar uma grande decisão e embarcar no cruzeiro dos terraplanistas, esses geniais discípulos do grande filósofo Olavo de Carvalho, um exemplar patriota que mora há anos dos Estados Unidos pra enriquecer seus conhecimentos sobre o torrão natal. Pois essas mentes inquietas vão se dedicar a uma das tarefas mais importantes dos últimos milênios para a ciência da navegação, da aviação, da física, da geografia, da astronomia, da filosofia, e com certeza, da psiquiatria: eles vão provar de uma vez por todas que a terra é plana e que o sol é que gira em torno dela. Calem-se Galileu, Copérnico, Newton, Arquimedes, iluministas, escolásticos, metafísicos, homúnculos insignificantes, todos influenciados pelos delírios das superstições marxistas, agora é a vez do sistema solar ser administrado e iluminado pelas luzes superiores de Olavo de Carvalho.

Seria essa uma grande chance para eu galgar alguns degraus nessa escada invisível que nos alça aos píncaros da glória, ao participar desse momento histórico, que derrubará todas as crenças e superstições dos ingênuos cientistas. Já imagino quantas curtidas nas fotos do Facebook, uma selfie mostrando os limites da barreira do plano, que antes se acreditava um globo, de onde não se pode mais avançar, sob o risco de cair no mais profundo dos abismos e no ridículo. Os registros fotográficos, claro, teriam a legenda EU ESTIVE LÁ. Além disso, imagino, que texto maravilhoso eu escreveria, uma autêntica narrativa de viagem desbravadora, que desbancaria Saint-Hilaire, Barlaeus, Nieuhoff, Lindley, Taunay, Staden, só para mencionar apenas os que estiveram nestas plagas abençoadas do Brasil. Então eu poderia dizer a esses escrevinhadores do passado, recolham suas engenhosas marandubas que agora eu trago a única, a maior, a verdadeira descoberta.

Mas não. Eu não nasci para brilhar no palco, meu lugar é a plateia. O que me resta é permanecer na arquibancada do circo e esperar para bater palma e gargalhar quando as performances começarem. Mesmo assim, ainda alimento uma esperança, porque, como todo mundo sabe, o Brasil é um país de muitas possibilidades.

foto: https://www.conversaafiada.com.br