duke corrupção

A corrupção nossa de cada dia

No final de 2014 vivi uma experiência bem significativa. Peguei um ônibus, quando a passagem ainda era R$ 2,95. Larguei três reais na mesa do cobrador e esperei a liberação da roleta. Mas para minha surpresa, o funcionário me devolveu a moeda de 1 real, embolsou a nota de dois, piscou o olho, e falou baixinho, para eu ficar por ali e depois descer pela porta da frente. De início, não entendi direito. Olhei para o motorista, ele, concentrado na condução do veículo, parecia não ter noção do que se passava. Desfeita minha dúvida sobre a intenção do cobrador, eu entreguei novamente a moeda, e disse convicto “Não”. Ele liberou a roleta sem nenhuma alteração de fisionomia, nada que demonstrasse constrangimento. Acomodei-me no primeiro banco vago e fiquei atento ao movimento do rapaz. E ao contrário da minha expectativa, vários passageiros cederam ao propósito fraudulento.

Em uma ocasião dessas, é inevitável que a gente pense na corrupção que corrói o país. Mais que isso, nesse discurso moralista que atribui os males da nação apenas ao mau caráter dos políticos. Não sei o que me deixou mais indignado, se uma proposta de suborno, ou se a naturalidade com que outras pessoas aceitaram a oferta. Porque uma reflexão se faz necessária. Se um indivíduo se deixa corromper na frente do público por apenas 1 real, o que ela não faria se dispusesse de orçamentos do dinheiro público e operasse na privacidade de um gabinete?

É difícil carregar na consciência a ideia de que a corrupção é uma marca do caráter nacional. Seria cansativo fazer uma lista de todas as situações cotidianas em que a norma é o desvio da legalidade. Parece que no Brasil, comportamento condenável é apenas a apropriação indevida dos milhões de reais nas licitações públicas. Esse ponto de vista coloca a corrupção num espaço bem distante de nós, lá onde só os outros estão. Assim, podemos dormir tranquilos, pois são os estranhos os culpados de cavar a fossa ética na qual fomos jogados.

Mas, quando a gente embarca num ônibus e vê um fato desses, não há como manter o mesmo ângulo de visão. E a mente começa a repassar circunstâncias corriqueiras que poderiam muito bem integrar o repertório dos protestos dos defensores da moral. Apenas para citar algumas práticas ao alcance das pessoas comuns, vale lembrar o hábito de deixar o carro em estacionamento gratuito em estabelecimento comercial, mesmo por quem não está fazendo compras; a já normal utilização da vaga para deficientes por quem só sofre de limitação de caráter. São atitudes que denunciam a complexa relação entre público e privado e mostram como o brasileiro se apropria do primeiro como uma extensão do segundo.

Tratando-se de desvios éticos para vantagens econômicas a preferida dos brasileiros é a alteração de valores de despesas para declaração de importo de renda. Essa tem a cândida justificativa de que sonegação não é corrupção, é legítima defesa, slogan usado nas últimas manifestações de rua Brasil afora,

Essas são estratégias que o brasileiro usa conforme seu poder de barganha.  E quando se observa condutas como essa do cobrador de ônibus no dia-a-dia da sociedade, fica-se com a triste certeza de que esse estado de coisas não vai mudar tão cedo. Melhor mesmo é colocar a culpa nos políticos e alimentar a ingênua crença de que na próxima eleição vamos dar um basta nisso tudo

marilena chaui

A classe média nunca foi ao paraiso

 

Um vídeo que circula pela internet há algum tempo provoca a ira de muita gente. Trata-se de uma palestra da filósofa Marilena Chauí, em que a da classe média brasileira é tachada de fascista, reacionária e ignorante. A fúria que se alastrou pelos segmentos mais remediados da população aumentou mais ainda quando algumas instituições divulgaram os salários de seus funcionários, e na lista de uma universidade pública apareceu o nome da palestrante, ostentando uma renda mensal de mais de vinte mil reais. Isso, segundo os iracundos, seria uma contradição, uma manifestação hipócrita da filósofa. A partir desse momento, Marilena, cuja inclinação política é publicamente de esquerda, passou a ser ridicularizada.

Verdade seja dita. É duro, para qualquer vivente, se olhar no espelho quando não está com a cara que ele gostaria. Pior ainda, é quando o sujeito é obrigado a ouvir uma descrição de sua aparência que não combina com aquela imagem idealizada que ele tanto se empenha em alimentar. Nesse caso, a melhor estratégia é desqualificar o intrometido que se aventurou a dar palpite, e ignorar suas opiniões fora de propósito.

Pois os indignados da vez, aqueles que correram para vestir a carapuça, teriam poupado um pouco da bílis se atentassem ao estrato sociológico ao qual a filósofa se referia. Aí entenderiam que o que determina a posição social de uma pessoa não é o salário que ela recebe no fim do mês, e sim a sua capacidade de influenciar nas tomadas de decisões que afetam a vida de todos. E se esses medianos revoltados tivessem o hábito de refletir sobre os problemas nacionais, aprenderiam que o maior dilema de parte da classe média brasileira não é ser explorada e sempre pagar a conta, e sim, a crença de que faz parte da classe dos ricos. Felizmente, essa constatação não deve ser generalizada. Ela se aplica apenas a uma parcela da base de apoio da pirâmide social cujos membros desprezam qualquer atividade que não produza lucro financeiro, como as reflexões filosóficas, por exemplo. Gente que tem no poder de consumo sua única fonte de satisfação pessoal.

Financeiramente dependente da infraestrutura desenvolvida pela classe dominante, a classe média vive na ilusão de que faz parte da elite, quando na verdade, vive apenas pendurada nela. É essa condição de parasita que a torna defensora do status vigente e tão refratária a qualquer mobilidade social vinda de baixo. A certeza de não conseguir subir mais um degrau, somada ao medo de cair nas desgraças da pobreza, gera na mente dessas criaturas uma necessidade premente de se afastar das esferas subalternas. A supervalorização da capacidade de consumo de bens produzidos no primeiro mundo é um mecanismo utilizado para essa conquista. Mas o argumento mais utilizado para se colocar num patamar que julga ser inatingível pelos desfavorecidos da sorte é o arcabouço de valores morais. Carente de qualquer refinamento intelectual, a classe média acredita que as atitudes dos homens são determinadas exclusivamente pelas suas escolhas morais. Um homem seria bom ou mau simplesmente porque assim ele escolheu. E o mundo seria mais ou menos como uma casa, onde cada compartimento é o cenário de atitudes e gestos padronizados. Essa visão de mundo não consegue conceber a política como um jogo de interesses de grupos, onde a ação dos participantes é determinada por pressão externa e não por convicções subjetivas. Nessa idealização da natureza humana, tudo aparece como uma competição de virtudes naturais, e o controle das riquezas produzidas em sociedade, fim último da atividade política, um mero reflexo do caráter moral dos agentes da administração.

A proximidade com as esferas superiores dá à classe média a ilusão de que foi recebida na sala de visitas. Por isso ela precisa escamotear sua condição de servilismo confinado na despensa e aderir ao discurso do livre arbítrio, criando para si uma imagem idealizada de que conquistou um espaço baseada em sua capacidade. Em momento algum ela vai conseguir enxergar que está apenas desempenhando uma função dentro de uma organização que funciona sem o seu controle.

Por isso a classe média se sente a merecedora por natureza de qualquer benefício vindo das camadas de cima, e não hesita em aderir às receitas dos chefes quando o banquete é farto. Mas, nos últimos anos, ela viu, com espanto e terror, que a administração do bolo foi orientada para as eternas demandas dos mais necessitados, que só recebiam atenção em épocas de eleição. Por não atinar que a sociedade é organizada na posição piramidal, ela foi tomada de escândalo quando algumas regalias foram jogadas no andar de baixo, sem que ela pudesse apanhar nem mesmo uma migalha. Incapaz de entender que o fortalecimento das bases da pirâmide trariam benefícios e mais segurança para todo mundo, ela se pôs a praguejar e acusar a governança de demagoga. Acreditando que a classe operária finalmente tinha chegado ao paraíso, a classe média passou a temer pela perda de sua posição de privilegiada serviçal da classe dominante.  Então os chefes da cozinha se transformaram nos carrascos e vilões coligados com as forças do mal.

Com semelhante nível de entendimento, cada vez que se sente prejudicada, não aparece no horizonte da classe média nenhuma solução a não ser trocar os responsáveis pela repartição dos pães e esperar que um novo salvador lhe traga o tão sonhado mundo novo. Afinal de contas, para essa parte da população brasileira, o sonho máximo de redenção é habitar os paraísos fiscais e de consumo.

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Conservadorismo e Ignorância

Ignorância e conservadorismo

Dia desses, li uma matéria sobre a interdependência entre capacidade do intelecto e posições políticas. Por mais que a credibilidade desse tipo de estudo não seja lá muito grande, eu fiquei curioso com o resultado, porque tenho observado o mesmo fenômeno. A pesquisa descobriu que as pessoas com certo grau de dificuldades intelectuais são todas conservadoras e reacionárias.

Desnecessário uma formação de cientista pra chegar a essa conclusão, e também não me detive na objetividade dos critérios do referido trabalho. Bastou a sensação de estar diante de um fato que eu também já tinha percebido.  E como nas horas de ócio eu gosto de me disfarçar de pesquisador diletante e entender os problemas que condicionam a convivência da raça homo sapiens, me pus a divagar por minha própria conta sobre o assunto.

Um dos fatores que determinam a reciprocidade entre estultice e conservadorismo parece bastante óbvio. Pessoas cujo pensamento não atinge dimensões mais profundas do que a superfície visível costumam simplificar a existência a um nível facilmente aceitável. Isso é um efeito dessa necessidade mórbida de controlar tudo o que acontece em volta, para se sentirem seguras nesse imenso universo em constante movimento. A estratégia pra isso é esquadrinhar a vida em compartimentos estanques, onde tudo tem seu lugar definido, tudo funciona de acordo com alguma lei predefinida e imutável.

O problema é que a constante pulsação da realidade não se sujeita a normas estranhas, e acaba sempre atropelando a paz artificial adquirida apenas na dimensão do imaginário. Uma mente aberta, disposta a acompanhar o fluxo da existência, se joga no movimento e tenta aprender as potencialidades do novo ritmo. Um espírito estreito, que prefere a segurança do já conhecido às surpresas da novidade, se apega ao passado e se põe a praguejar contra o presente. Para essa alma pacata, que não enxerga nada além do seu restrito ângulo de visão, onde tudo repousa numa organização confortável, o redemoinho que põe em revoada suas frágeis certezas, será sempre consequência de comportamentos alheios, que ela julga sempre como degradação moral. Jamais conseguirá entender que os novos arranjos, inclusive os novos comportamentos, são apenas a atualização de algo que sempre existiu em estado potencial. O resultado disso é o desespero e a ansiedade pela volta ao estado anterior, que aparecerá sempre como um momento superior da trajetória existencial.

Uma mentalidade que tem a organização como um fator essencial de qualquer domínio, acaba sempre criando uma hierarquia na disposição dos elementos que constituem um ambiente. E como toda estrutura hierarquizada precisa de uma força externa para pôr o mecanismo em funcionamento, surge a necessidade de uma entidade superiora que desempenhe esse papel. A solução mais acessível encontrada pelos primitivos humanos, ainda lá no interior das cavernas, foi a invenção de seres supremos, habitantes das esferas celestiais, dotados de poder descomunal e absoluto sobre homens aqui da terra. Por isso que todo o vivente privado de vigor no entendimento, além de reacionário é extremamente religioso. A religiosidade, como resultado de uma limitada visão de mundo, é até aceitável, visto que ela é a característica básica de um estágio psicologicamente infantilizado. Mas a obstinação dos ignorantes em não tolerar a complexidade da vida real é um fenômeno que merece muitas reflexões, pois afinal de contas, tem coisas que até as crianças entendem.

Arte ilustração: Latuff

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Riqueza de pobre

Foto: Afonso Lima

Lá por meados do ano passado, eu me vi numa situação quase angustiante, por causa dessa mania que todo o ser humano tem de querer melhorar a vida, se dedicar a novos projetos, mudar um pouco de rumo. Normalmente, esses devaneios invadem a cabeça da gente no final do ano, pois o espírito natalino leva os cristãos a acreditar que o ano novo vai trazer a felicidade tão sonhada.
Pois foi o que aconteceu comigo em 2012, quando comecei a rabiscar as minhas metas para os próximos doze meses. E o primeiro item da lista de novas aventuras era uma viagem à Inglaterra. Continue

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A companheira constante

É inútil tentar fugir. Para quem se aventura pelas vias públicas, ela pode espreitar na esquina, no cano do revólver de um marginal. Ao atravessar a rua, é possível que ela se precipite na pessoa de um motorista estressado; ou avance sobre a calçada no rastro de um automóvel sem controle. Para quem fica em casa, ela ainda irrompe através de ondas eletromagnéticas, pela televisão, pelo rádio. Ela, a violência, tornou-se uma entidade, e vigia cada minuto da vida de um brasileiro. Tanto é que a gente fala “A Violência”, como um ser abstrato com existência própria, esquecendo-se que ela é apenas um estado de coisas, consequência da ação de alguém. Continue