show de bola

Show de bola

Em ano de Copa do Mundo eu já começo a me exercitar. Mas este ainda não é um texto sobre o desempenho da Seleção Brasileira de Futebol. Aliás, nem é sobre futebol. O lance aqui é outro. Trata-se de uma mania adquirida pelo povo brasileiro de recorrer ao linguajar futebolístico para expressar opiniões e sentimentos.

Muita gente já deve ter notado que a bola invadiu o campo linguístico do nosso país e jogou pra escanteio as sutilezas retóricas que enfatizam impressões subjetivas mais refinadas.

Estas simples conjecturas, ora delineadas, não nutrem a pretensão de fazer um gol de placa num tema tão embolado, muito menos apitar alguma coisa em termos do esporte mais adorado nesta nossa terra. Mas, não é necessário ser um grande craque nas divagações intelectuais para perceber um fato interessante. O futebol, uma das muitas paixões deste povo tão perdidamente apaixonado, nunca influenciou, ao que parece, o comportamento de um habitante destas plagas, no que diz respeito à organização de sua vida prática. Não se inclui neste comentário, evidentemente, os dias de jogo do timão, nem os da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, pois aí, estamos num intervalo da vida real. Por isso, a evidência de que a linguagem cotidiana dos nossos falantes se apropriou do palavreado corrente nos estádios é um assunto que merece algumas anotações.

O motivo inicial destes questionamentos é essa onipresente sentença “é show de bola…” Pois no Brasil, atualmente, ninguém mais se preocupa em elaborar um parecer mais preciso sobre alguma coisa. Pergunte-se a um brasileiro o que ele achou de um evento, um espetáculo, um programa. Se a impressão é positiva, ele lança logo: show de bola.

É claro que a tendência à simplificação do discurso não é nenhuma novidade. Há muito tempo que o pessoal pisa na bola em assuntos linguísticos, e, na hora de transmitir alguma ideia ou emoção, chuta pra qualquer lado, sem mirar a área. Gíria sempre existiu. São hábitos da fala que servem para facilitar o intercâmbio nos momentos em que não há muito a dizer, e qualquer grunhido satisfaz as necessidades de contato. O que parece uma coisa nova é o uso indiscriminado de um enunciado tão vazio quanto popular. E mais ainda, o emprego dessa fórmula em quase todos os campos, por quase todas as camadas sociais. E isso, justamente, numa época em que as celebridades da bola, que davam espetáculos fenomenais nos gramados, entraram em decadência, e correm a exibir suas barrigas nada elegantes em praias badaladas, mundo afora.

Uma hipótese possível para entender esse placar medíocre nos embates retóricos é a proporção direta entre a fluência verbal e a intensidade da práxis dos viventes. Hoje em dia, em termos de autenticidade de experiências individuais, parece que todo mundo joga no mesmo time. E aquele drible genial de antigamente, que deixava o adversário catando grama, transformou-se numa mera repetição de lances previsíveis, como um videoteipe revisto infinitamente. É que os fatos concretos, que preenchem a vida de uma pessoa, perderam o caráter de ocorrência significativa. O excesso de informações a que o Homem moderno está exposto dispensa qualquer tentativa de percepção individual das contingências existenciais. A perspicácia e a intuição foram substituídas pelo acúmulo de dados acerca das vicissitudes da vida. Não há mais a necessidade de compreensão de casos particulares. O indivíduo apenas se deixa levar pelos eventos sem precisar contextualizá-los em sua trajetória. O resultado disso é o empobrecimento da capacidade de se encantar com alguma coisa. A experiência individual, fruto de uma relação mais subjetiva com a própria história, está lesionada no banco de reservas. Quando alguém é convocado a se manifestar sobre algo que aconteceu, nada mais natural do que recorrer a um discurso pronto, que tenha o mesmo valor impessoal do acontecimento.

Antes de tirar o time de campo, seria necessário dar mais um palpite. A pobreza de frases do tipo “é show de bola”, bem como a planificação de vivências pessoais que elas traduzem, é mais um produto da tal mentalidade globalizada. E “globalizada”, aqui, tem o sentido de planetário, e não de novelas da Globo, ou BBB’s, se bem que essa conotação também seria possível. Comunicação pessoal, de tom mais intimista, virou caipirice. Moderno é falar coisas que o mundo inteiro entenda, mesmo que para isso fique-se a repetir o que já foi dito tantas vezes.  O curioso é que essa frase, na sua forma, milhões de vezes repetida, diz exatamente o contrário do que seu conteúdo poderia indicar. Um show de bola, antigamente, no mundo dos esportes, era um espetáculo glorioso, cheio de lances criativos e originais. E isso não existe mais na capacidade retórica de nossa gente. Espero que este ano Seleção Brasileira de Futebol se dê conta disso.

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