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O BRASIL QUE EU NÃO QUERO

Ano de eleição a gente sempre se põe a pensar no que deveria mudar no país, e a conjeturar quais políticos poderiam promover essas mudanças. Tanto que até a tv Globo se empenhou numa campanha para vislumbrar as expectativas dos brasileiros para o próximo pleito. Durante vários dias, no noticiário do horário nobre, lá está o William Bonner a explicar aos telespectadores as condições de participação. O participante deve mandar um vídeo de quinze segundos, gravado no celular, com o título “o Brasil que eu quero”, falando sobre suas esperanças para o país. E não esquecer que o aparelho deve estar deitado, para que a imagem saia com melhor qualidade.

Parece, no entanto, que a tentativa não deu muito certo. É que o brasileiro é um povo muito mal-agradecido, vive reclamando que se sente excluído das decisões, mas quando é chamado a participar de alguma coisa que pode trazer benefícios a ele próprio, chega fazendo piadas, dizendo desaforos, ou simplesmente ignorando a boa vontade dos outros. Andam dizendo por aí que os poucos que aceitaram o convite mandaram vídeo falando mal da emissora; que ela apoiou o golpe que derrubou a Dilma; que quer a todo custo acabar com a Previdência Social, e depois vem fazendo campanhas bobas. Gente ingrata, essa! Conclusão, a ideia global fracassou.

Mas a intenção era boa. É bem verdade que eu não entendo o que se poderia dizer em quinze segundos que valesse a pena de ser transmitido em horário de maior audiência televisiva. Mas mesmo assim, resolvi apoiar a nobre iniciativa. Só que eu não sei filmar com celular e muito menos ainda postar vídeo num site, então vou recorrer ao único meio de expressão que sei usar, a escrita. Não tenho grandes esperanças de que o Bonner vá ler esta humilde colaboração no Jornal Nacional, mas não custa nada tentar. Então, comecemos pela questão crucial: como é o Brasil que eu quero? Só como especulação inicial, num país digno de se viver, os habitantes não seriam tão teleguiados, como robôs, a ponto de o tempo ser cronometrado pela programação transmitida. Conheço gente que fala assim: no horário da novela eu estou em casa; durante o noticiário eu faço uma comida; e na hora do Corujão eu vou dormir. Também seria interessante que as pessoas não naturalizassem tudo o que ouvem e assistem na tela, pois por trás da matéria supostamente neutra tem um editor que a transforma em fato noticioso ou propaganda ideológica. Veja-se a insistência da própria Globo em realçar o famigerado déficit da previdência e a necessidade da reforma. E a descarada só chama para entrevistar os palpiteiros que dizem o que ela quer que seja dito, ou seja, é necessário fazer a reforma da previdência, o que, na prática, significa acabar com ela. O que os jornalistas sempre esquecem de dizer é que as organizações Globo, que atuam em vários setores do mercado, também administram negócios na área de previdência privada. Então, não é de se duvidar que no Brasil do futuro, a família Marinho receba de presente o monopólio da previdência privada, que hoje é exercido em carácter de benefício social pelo governo federal. Tudo isso como boa recompensa pelos trabalhos prestados de apresentar um discurso político como se fosse uma verdade palpável e comprovável. Por isso, no Brasil que eu quero, haveria um compromisso ético com a notícia por parte das empresas jornalísticas, e uma clara distinção entre informação útil e propaganda ideológica.

Outra característica muito importante de um país ideal seria a humildade dos políticos, para que um candidato que perdesse uma eleição para presidente esperasse civilizadamente o próximo pleito para tentar a sorte novamente. É sabido que em alguns lugares do mundo, o candidato derrotado não aceita esperar e se une em conluio com algum traidor do governo eleito e derrubam aquele que o povo escolheu para governar o país, inclusive com o apoio escancarado de algum grupo detentor de concessões televisivas, que venha a se beneficiar da situação.

Seria importante ainda observar que nesse país de perfeições idealizadas a que me refiro não haveria nenhuma emissora de televisão que ditasse regras de comportamento, hábitos de falar, impusesse decisões políticas e nem os tais políticos trogloditas habituados desde sempre a mandar sem dividir o poder. Mas, isso não passa de fantasia, que não merece atenção de quem vive preocupado com coisas tão sérias, tais como decidir quem vai ser o novo presidente do Brasil.

Então, para responder à questão inicial, cheguei à conclusão de que o Brasil que eu quero não está no Brasil. Quer dizer, é tanta coisa para mudar, que o melhor mesmo é eu me mudar para outro país, já que aceitar tudo calado é impossível. E certamente o meu Brasil desejado não é o mesmo que o Bonner quer. E ele tem mais poder do que eu.

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