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INSEGURANÇA PÚBLICA

A violência é o tema mais premente da vida atual. Ela se instalou na sociedade moderna como uma entidade abstrata, onipresente, invadindo todos os domínios do nosso cotidiano. Não há uma autoridade que, nas suas aparições públicas, não mencione a urgência de medidas na área de segurança pública. Mas, até onde vai a sinceridade desses discursos? Eis um bom exercício para ocupar a mente.

Impossível pensar o drama da violência sem avaliar o papel da mídia na divulgação dos episódios que extrapolam os limites da boa convivência.  A mídia precisa de sensacionalismo para causar impacto e prender por mais tempo a atenção do telespectador, de maneira que, aquilo que se vê diariamente no noticiário, não é o acontecimento violento, mas uma narrativa feita sobre ele. E essa narrativa é sempre bem articulada pela edição das imagens, legendas, a duração, a repetição dos detalhes mais significativos. Tudo isso faz com que o destinatário da notícia se distancie do caso concreto e se concentre na montagem. O resultado disso é conhecido de todos: reações sentimentalistas, imprecações, histeria geral.

A relação do sujeito com um objeto passa pela experiência direta sujeito/objeto, mas também pela experiência indireta, que chega ao indivíduo através de testemunhos e relatos de terceiros. No caso da violência exposta pelos noticiosos televisivos, essa relação indireta passa a prevalecer pela manipulação das informações. A mídia elabora uma distorção dos fatos com a estratégia da sonegação ou excesso de informações, tornando a experiência indireta superior à experiência vivida. Pessoas muito carentes, com pouca bagagem existencial e, portanto, pouca capacidade crítica, precisam de emoções extraordinárias para preencher suas vidas, se deixam facilmente influenciar pelo espetáculo apresentado em forma de jornalismo. A experiência vivida acaba se diluindo na produção extravagante que altera a essência do ocorrido. E as pessoas se tornam cada vez mais manipuláveis.

Eis aí uma hipótese para pensar a dessintonia entre a veemência da fala das autoridades e a eficácia das medidas tomadas por elas no combate à violência. O caos social gerado por esse estado de guerra em que vivemos hoje é um forte aliado dos governantes no controle de seus governados, pois uma pessoa com medo é muito mais obediente. Num país onde reina a mais completa instabilidade constitucional e a Constituição Federal é rasgada diariamente pelas próprias autoridades que deveriam defende-la, fica muito difícil recorrer à proteção da legalidade, pois, no Brasil de hoje, nem mesmo o indivíduo mais ingênuo acredita na aplicação da lei. Então, sobra o recurso de causar pânico geral, ou se aproveitar do que já existe naturalmente.

Outro ponto que merece ressalva para entender a falta de interesse em diminuir o nível de selvageria que tomou conta dos grandes centros urbanos, é que instaurar a paz social não é uma prioridade da elite endinheirada, pois ela não vive sob a ameaça de bandidos. Os ricos moram e trabalham em locais muito bem protegidos, se deslocam em carros blindados, com motorista e seguranças armados. O constante medo de assalto e de perder seu abençoado patrimônio é coisa da classe média que, aliás, é quem paga os maiores tributos para que os ricos desfrutem de todo esse conforto.

É por isso que nenhum candidato a cargo eletivo vai se eleger com a pauta da segurança pública. É ingênuo, se não um caso de má intenção, acreditar nesses fanfarrões que a cada ano eleitoral aparecem para esbravejar estultices sobre medidas de combate à criminalidade. A retórica que eles decoram e repetem como papagaio é um palavrório cheio de ódio, que só emociona algumas fileiras da classe média, aquelas que acreditam que conflitos sociais serão apaziguados com polícia, e que se vai curar as chagas da violência e da corrupção, armando cidadãos, construindo prisões e encerrando marginais e corruptos na cadeia. Mas não afeta os ouvidos daqueles que estão controlando as regras do jogo político e que realmente decidem quem vai governar o país. Para esses, a insegurança é muito mais segura.

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