GARGALHADA

Gargalhada filosófica

Alguns séculos antes da era cristã, o pré-socrático Demócrito já alertava que somente os tolos vivem sem alegria, e que o melhor remédio para levar uma vida saudável é aderir ao bom humor. Ele próprio entrou para a história da filosofia como o filósofo ridente, pois ria sem pudores de tudo e de todos. A risada do grego ecoou em Roma e os satíricos do império também não pouparam as tolices de seus compatriotas.

Apesar de banido da República de Platão, o humor encontrou abrigo nas mentes mais arejadas e seguiu uma trilha, às vezes meio clandestina, até os dias de hoje. Pois quem quiser seguir as pegadas deixadas pelos zombeteiros filósofos, basta ler o livro Do que riem as pessoas inteligentes? de Manfred Geier, editado no Brasil pela Record. Como subtítulo, a obra se apresenta como “uma pequena filosofia do humor”. Trata-se de uma investigação sobre o lugar que a disposição ao riso ocupou nos grandes sistemas filosóficos do Ocidente. E é com sincera alegria que lemos a declaração de que o seríssimo Kant, por exemplo, gostava de contar piadas, e dedicou boas páginas de sua obra à reflexão sobre o humor. E até mesmo o sisudo Freud não desperdiçava uma oportunidade de alegrar seus convivas com uma anedota, tanto que também ocupou parte de seus estudos ao chiste, num texto intitulado O Chiste e sua relação com o inconsciente.

A lição mais importante desse livro é de que o humor também é uma forma de aprendizado, e o riso, mais do que um momento de descontração inconsequente, é também uma maneira de encarar uma situação. Ao encontrar um objeto desconhecido, uma nova realidade, um fenômeno inusitado, deve-se observá-lo sob todos os ângulos possíveis, colocá-lo sob todas as nuances de luz existentes, para ver se não há um único detalhe que mereça ser alvo de deboche. Esse é o princípio básico do teste do ridículo, que aguça a curiosidade de qualquer trocista. Na cultura ocidental, fortemente influenciada pelo Cristianismo, há uma crença de que a leveza é superficial e que as coisas sérias precisam ser graves e pesadas. Há, portanto, uma identificação de seriedade com inteligência e profundidade intelectual. Sobre assunto sério só se pode falar seriamente. Mas acontece que o lúdico também é instrutivo, e é contra esse autocontrole que os adeptos do escárnio lançam sua gargalhada. Diógenes, o cínico, perseguia Platão por considerar o platonismo muito abstrato; e Voltaire, com seu Cândido, ridicularizou o idealismo filosófico de Leibniz, cujo otimismo excessivo não encontrava fundamento na vida real.

E é justamente no fluxo da vida trivial que os partidários da boa gargalhada vão encontrar a justificação para as suas zombarias. A pretensão de uma vida de valores elevados na esfera do sublime, orientada pela moderação circunspecta, ainda encontra seguidores neste começo de século vinte e um, nestes tempos tão ensandecidos com fanatismos religiosos e políticos, e tão carentes de um olhar mais astuto sobre o mundo. Por isso, é cada vez mais urgente que se solte o espírito galhofeiro de Demócrito e Diógenes para esculhambar com essa falta de originalidade intelectual disfarçada de sensatez, o sectarismo travestido de convicção. As pessoas inteligentes se debruçam sobre a vida prosaica, tão complexa e tão cheia de nuances, e tiram dela o conteúdo com que vão desenvolver suas reflexões. Por isso, essas índoles comedidas, que pretendem solapar a vida com um emaranhado de ideias criadas por uma razão abstrata, limitada por preconceitos e deficiente de informações básicas, só podem provocar desdém ao amante do autêntico conhecimento, e suas diatribes não merecem como resposta mais do que uma estridente gargalhada.

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