Ademir - Diretas Já_era - Cara pintada

Diretas Já… era!

O ano de 1984, no calendário brasileiro, é daqueles que sintetizam uma era. Posso mencionar, pelo lado pessoal, algumas peripécias que definiram o meu futuro. Eram os meus primeiros passos vivendo sozinho, longe da família, tomando minhas próprias decisões, administrando um salário modesto de profissional iniciante na área técnica. Acrescente-se que foi também meu ingresso na faculdade, como discente nas Ciências Sociais, um curso que se destacava, sobretudo, pelos níveis de politização dos alunos e professores. Entre as imagens daquele período, que ainda hoje me trazem saudade da vida estudantil, a mais forte é a dos estudantes circulando pelos corredores do campus com o livro O Capital, de Karl Marx, embaixo do braço. Como se houvesse um acordo tácito para que todos utilizassem a mesma edição, uma que estampava na capa o título da obra e o nome do autor, em letras bem grandes e vermelhas. E, o mais importante, jamais deixar aquele tesouro escondido dentro da pasta, onde não seria visto. A regra era expor a erudição esquerdista bem à vista do público, como um atestado de filiação e preferência políticas.

Mas o mais importante daqueles tempos de inocência juvenil não se reduziu à minha experiência pessoal. O que incitou os brasileiros a uma união jamais vista sob a bandeira auriverde foi a campanha pelas Diretas Já, um dos momentos mais sublimes da história do país, pelo menos dos que eu guardo na lembrança. Por todos os lugares, não só entre os jovens marxistas de vitrine do campus universitário, mas nos bares, no trabalho, em casa, na rua, qualquer assunto sempre recaía na escolha direta e democrática do presidente da República.

A principal característica daquele movimento era a certeza de que lutávamos por uma coisa justa e necessária. Também era notória a unanimidade dos corações que pulsavam na mesma sintonia. Com exceção de alguns membros do poder arcaico dos generais que assaltaram o país duas décadas antes, que partilhavam, por interesses escusos, da cegueira dos militares, a população brasileira cantava em uníssono o refrão das Diretas Já. Lembro do famoso comício em frente à prefeitura, que reuniu as eminências políticas da época, Tancredo, Montoro, Covas, e as presenças inesquecíveis de Brizola e Lula, que, com discursos contundentes, expunham toda a podridão do regime militar, já nos seus últimos estertores.

Aquela refrega, para mim, era como uma formatura no colégio primário: nunca mais se repetiria. O Brasil encerrava uma aventura irresponsável que tinha jogado o povo na maior tragédia social da história recente, cavando um abismo entre as camadas da sociedade, e transformado as estruturas de poder num verdadeiro feudalismo em pleno século XX. Isso seria o suficiente para que uma mentalidade de valores democráticos se formasse e vivíamos na convicção de iniciar uma longa trajetória de reconstrução de uma sociedade justa, civilizada e democrática. Quanta ilusão! As Diretas não vieram quando pedíamos e ainda precisamos esperar mais cinco anos apenas para amargar a grande frustração de ver subir ao poder um aventureiro, que poderia ser colocado lá pelos próprios militares. Era a ressaca da festa.

Pois hoje, mais de três decênios depois, ouve-se algumas vozes chamando para reviver aquele mesmo episódio que, apesar de frustrado, provocou incrível arrebatamento coletivo. Essas gargantas meio estranguladas, que chamam o público para formar um novo coro e entoar o mesmo hino do passado, insistem em fingir que se trata de uma nova montagem daquela saudosa comunhão no êxtase da democracia, a orgia carnavalesca dos bons tempos, para repor o país no caminho da legalidade. Está certo que somos o paraíso do carnaval, mas quem já viveu várias mágoas por festas que deram bem menos do que prometeram anda meio ressabiado com impulsos repentinos, cantorias improvisadas e prefere esperar um pouco mais para seguir o desfile do primeiro bloco que se joga na avenida.

Não que a conjuntura de hoje não justifique o frenesi e a determinação de reivindicar uma saída constitucional para a crise. Temos um presidente ilegítimo, que usurpou o poder através de um golpe de estado, valendo-se da mais covarde das artimanhas: a traição. Só isso já seria suficiente para mobilizar um país inteiro. Mas a questão é que existem, entre os dois ciclos históricos, algumas diferenças que não devem ser ignoradas. No evento original, havia uma clareza de propósitos que era derrubar o regime militar e recuperar a dignidade da vida nacional. O inimigo era declarado e as estratégias conhecidas de todos. Na versão atual, a maior característica do movimento é uma nebulosidade que atrapalha qualquer tentativa de enxergar alguma coisa por trás das aparências dos fatos. Não há nenhum cidadão, fora das esferas do poder, que consiga afirmar com muita certeza quais os interesses que estão em jogo atualmente nesse processo. Outra diferença importante é que, no passado, não havia a previsão de uma eleição direta para breve, tratava-se, antes de tudo, de corrigir um erro constitucional. Hoje, temos a garantia, pela Constituição de 1988, de um novo pleito para daqui a alguns meses.

Mas, é justamente nesse ponto que reside todo o pessimismo. Poucos eleitores acreditam na possibilidade de escolher o novo presidente por voto direto em 2018. É difícil acreditar que, depois de tanta munição gasta para dar um golpe de estado, os coronéis suseranos de um regime tão retrógrado como o que se instalou no Brasil vão permitir a entrega do país de novo nas mãos do Lula. Pois é certo que, dada a total inexistência de provas até agora, uma condenação de Lula só será feita com o recurso de um novo golpe. E esse consistirá em transformar as Diretas Já em Diretas Já… era!

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