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Literatura gaúcha e tradicionalismo

Volto mais uma vez ao tema que me desperta grande interesse, as relações entre História e Literatura.

Anoto, antes de tudo, que o termo História aqui é empregado no sentido de ciência que estuda os acontecimentos do passado. Essas duas andam de par desde que nasceram, uma sempre atenta às necessidades da outra, numa eterna complementação que só enriquece a ambas. Os ficcionistas da literatura retiram da história a matéria para suas mais variadas obras, e os historiadores, na exposição dos fatos, recorrem com frequência ao poder da ficção para preencher as lacunas que os documentos deixam abertas. Também é natural que historiadores recorram à literatura para estudar, se não os fatos históricos narrados pelos escritores, pelo menos a representação de algum episódio histórico, como ilustração a interpretações mais objetivas. Nesse caso, o historiador tem a consciência de que não está lidando com um fato e sim com a representação de um determinado acontecimento do passado, na certeza de que a visão apresentada pelo escritor poderia ser compartilhada com demais pessoas daquele período, o que justificaria seu interesse no plano da pesquisa científica.

Quando as duas disciplinas conhecem bem seus limites e suas deficiências mútuas, é que se estabelece essa colaboração recíproca que amplia o potencial das duas.

No entanto, essa relação não é sempre tranquila. Acontece por vezes de um escritor esquecer a natureza íntima da ficção e se limitar a copiar livros de história. Aí a questão da aceitação da obra é apenas de gosto do leitor. O problema surge quando o historiador se apoia na literatura como se ela fosse um documento, e toma a representação do fato pelo próprio fato, e provoca uma inversão entre causa e efeito. Assim, o estado emocional do criador é confundido com as motivações e determinações históricas, sociais ou políticas que condicionaram o contexto onde o artista viveu, e a representação assume o lugar do objeto representado.

Um exemplo bem significativo a ilustrar esse fenômeno teve a cultura gaúcha como alvo. Trata-se de História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902), de Guilhermino Cesar, cuja primeira edição surgiu em 1956. O autor, como é de conhecimento público, foi um intelectual que conquistou grande prestígio no meio acadêmico, e atuou em vários órgãos da cultura nacional. Mas nem os grandes homens acertam em tudo o que fazem, sobretudo aqueles de intensa atividade intelectual, que lançam as luzes de sua inteligência em várias direções, como foi o caso do autor em apreço. E sua falha foi justamente na avaliação que fez do entrelaçamento entre história e literatura do pampa gaúcho.

Algumas afirmações encontradas no livro são bem significativas do equívoco interpretativo do autor: “estudar literatura rio-grandense é, de certa forma, abrir um livro de Sociologia” e justifica essa sentença afirmando que não quis se limitar exclusivamente aos elementos estéticos e procurou as determinantes desses elementos no meio social. E o cenário dessa pesquisa é a região da campanha, origem e motivação desses elementos estéticos, pois, sempre segundo o autor, foi a campanha que contribuiu com a parte mais rica da originalidade da formação da cultura gaúcha.

Nessa abordagem pretensamente sociológica, dois aspectos da formação do estado teriam contribuído, segundo o autor, para impulsionar a criatividade dos primeiros autores e moldado uma estética literária. O primeiro deles, a condição de acampamento militar dos primeiros povoadores das terras do sul. Esses habitantes eram homens que exerciam posições militares na proteção da fronteira, homens, portanto, dotados de forte sentimento guerreiro, espírito que teria se perpetuado pelas seguintes gerações, moldando a índole do povo gaúcho. O segundo fator determinante foi o isolamento geográfico e a pouca importância política do estado em tempos de paz. Somado a isso, a ausência de escolas e a deficiência cultural dos poucos homens letrados, que praticamente desconheciam a literatura clássica.

Com tais condicionamentos sociais, políticos e culturais, como poderia surgir aqui nessa região, espanta-se o erudito estudioso, uma poesia de tão requintado lirismo, como é o caso das obras registradas no período. Fica claro, na conclusão do autor, que tantas dificuldades teriam sido fatais para qualquer povo que não possuísse a coragem, bravura e determinação do gaúcho. E é exatamente isso que explica toda a riqueza cultural desta terra, inclusive sua valiosíssima produção literária.

É na tentativa de responder a essa questão que o autor começa a delirar, e a resposta seria até cômica se não se tratasse de um trabalho acadêmico, que deve manter um certo nível de seriedade. Pois nas páginas seguintes, encontramos que justamente esse isolamento deu ao povo enorme energia interior; o constante perigo temperou a alma com a força e a sagacidade; o exercício na guerra, nos períodos em que era chamado a defender a fronteira, produziu a ousadia e a determinação. O resultado não poderia ser outro: “a épica do povoamento que impulsionou os gaúchos primitivos, e mercê da qual abriram eles a Inteligência a ventos que sopraram de outras paragens, à semente das ideias à fascinação da vida intelectual”.

Com tantas qualificações intelectuais estava pronto o cenário para a atuação dos primeiros romancistas, e eles chegaram em grupo autodenominado Partenon literário. Porém, os jovens que se agruparam com propósitos literários ainda se orientavam pelas musas do Romantismo, apesar de o movimento estar em declínio no resto do país. Um detalhe muito importante as ser registrado é que a maior parte dos escritores que inauguraram as letras gaúchas eram provenientes da região pecuarista, ou seja, filhos de estancieiros, que estudaram no centro do país e lá se iniciaram nas leituras da moda. E para mostrar que aprenderam as lições literárias, os jovens autores se dedicaram a reconstruir o passado da região onde viviam. Submissos aos cânones românticos, transformaram o peão de estância em um cavaleiro medieval dotado de força moral, princípios rígidos e um amor exagerado pela sua terra. A ideologia liberal dos autores foi transmitida ao personagem e o gaúcho primitivo virou um rebelde avesso a qualquer laço que o prendesse a algum lugar ou a alguém. Estava criado, assim, o monarca da coxilha, o centauro do pampa, o mito do gaúcho que perdura até hoje em CTG’s e programas de televisão nas manhãs domingueiras.

Nem de longe se nota nesses autores uma intenção de colocar esse personagem num cenário mais realista, e mostrar que a condição de andarilho do gaudério dos tempos antigos não era exatamente fruto de uma paixão desmedida pela liberdade. Numa economia voltada exclusivamente para a criação de gado em latifúndios, com atividades marcadas por etapas condicionadas pelos períodos de tempo, quem não era criador de gado e dono de terras, precisava se adaptar ao regime de empregos provisórios, em que alugava sua força de trabalho a quem pagasse por ela. Não se trata, portanto, de reviver o passado, mas de fazer uma interpretação que encaixasse nos modismos literários do romantismo. Que os escritores fizessem isso, absolve-lhes a liberdade de criação, mas para um historiador de literatura incorrer no mesmo erro, se limitando a tratar como histórico um argumento puramente ficcional, é uma falha inaceitável, em um trabalho de pretensões acadêmicas.

Como se vê, é muito bom a gente embarcar nas fantasias dos escritores no momento de desfrutar a obra da criação artística. Mas quando a gente se propõe a estudá-la pra entender e explicar suas motivações sociais, psicológicas e até afetivas, é bem mais proveitoso abandonar o deleite da fantasia e se armar de um mínimo de rigor científico para avaliar o contexto histórico em que a obra foi criada, para não correr o risco de tomar o efeito pela causa, ou a representação pelo objeto representado.

[Foto Jornal Opção]

 

chico irmao

A ficção da realidade

As autobiografias são sempre suspeitas. Quem escreve nutre, por princípio, uma paixão natural por inventar histórias. Por isso, quando o escritor se faz personagem de si próprio, é natural que deixe a fantasia correr em trechos onde a realidade não foi tão favorável; ou ainda, se omita em passagens nas quais a vida real foi além do desejado. Tudo muito compreensível. Mas, quando o leitor abe que vai se deparar com uma ficção que tem um dado biográfico apenas como ponto de partida, a leitura fica mais excitante. Ainda mais quando o autor é um ídolo popular em outra área.

Esse é o caso de O irmão alemão, de Chico Buarque. Pelo que foi publicado na imprensa por ocasião do lançamento do livro, trata-se de um fato real na família de Hollanda. O pai, na juventude, antes do casamento no Brasil, viveu na Alemanha, onde deixou um filho, com o qual nunca mais teve contato. Chico, já adulto, empreendeu uma busca pelo meio-irmão, mas só conseguiu encontra-lo em antigas gravações, pois o irmão, que também era cantor, já havia morrido, em 1981.

A história contada no romance é exatamente essa. Até o personagem principal, o narrador em primeira pessoa, tem o apelido de Ciccio, cujo nome é Francisco. E o pai, um intelectual famoso e respeitado não esconde a inspiração no historiador Sérgio Buarque de Hollanda. Mas a narrativa é estruturada de tal maneira que se torna irrelevante saber se os fatos descritos aconteceram ou não.

Na ficção, Ciccio tem um irmão brasileiro, tão distante quanto o outro perdido na Alemanha, e que é o preferido do pai, por quem Ciccio se sente tratado como pouco mais do que um aluno relapso. A tentativa de emular o irmão brasileiro, inclusive na caça das namoradas dele, é mais um elemento na busca desesperada na conquista de atenção do pai. A investigação tão atrapalhada para encontrar o paradeiro do meio-irmão entra num clima de fantasia, onde o procurado é visto nos lugares mais improváveis.  Além disso, durante a narrativa, Ciccio vai construindo uma identidade e uma história para esse irmão desconhecido, transformando-o num verdadeiro filho pródigo, que ele recuperaria e colocaria como prêmio nos braços do pai. Por mais de uma vez o personagem divaga sobre o sentimento de gratidão que o pai lhe dedicaria, caso ele conseguisse trazer de volta o filho perdido.

É nesse aspecto que a narrativa atinge o ponto mais alto. O irmão alemão adquire um status ficcional, com quem o narrador vive toda a afetividade que não consegue fluir com o irmão verdadeiro, nem com o próprio pai. Seu único contato com os homens da família é através da mãe, que assume um papel de protetora e mediadora dentro da própria casa. O Ciccio narrador se forma em letras para imitar o pai, veste as roupas do irmão brasileiro e flerta com as namoradas dele, e pode-se dizer que cria um outro irmão para quem se sente importante. É através do irmão quase fictício, ou da ficção literária, que o personagem vai recuperar a estima do pai.

Chico Buarque foi quase o único ídolo que tive na infância e adolescência. Aprendi a ouvir música ao som de Construção, Cálice e Geni e o zepelin. Por isso, leio a obra literária do meu antigo ídolo com certa reverência nostálgica. Mas, mesmo descontando-se essa predisposição à avaliação positiva da obra, não se pode negar o mérito de um texto fluente, que traz em várias passagens a marca do humor tão característico de algumas canções. É indiferente saber se o homem Francisco viveu os dramas de Ciccio ao descobrir que tinha mais um irmão perdido no mundo. A obra se mantem como uma leitura prazerosa mesmo para quem não conhece essa conexão com a realidade. Não vou dizer que seja um livro indispensável numa biblioteca, mas certamente é uma ótima opção para quem procura apenas uma boa leitura, sem se preocupar com os limites entre ficção e realidade.

GARGALHADA

Gargalhada filosófica

Alguns séculos antes da era cristã, o pré-socrático Demócrito já alertava que somente os tolos vivem sem alegria, e que o melhor remédio para levar uma vida saudável é aderir ao bom humor. Ele próprio entrou para a história da filosofia como o filósofo ridente, pois ria sem pudores de tudo e de todos. A risada do grego ecoou em Roma e os satíricos do império também não pouparam as tolices de seus compatriotas. Continue

ensaio sobre cegueira

A CEGUEIRA DE CADA UM

Um filme não é um livro, isso todo mundo vê. As diversidades nas formas de expressão tornam-se inevitáveis pelas diferenças de suporte, mas não precisam – e não devem – alterar substancialmente o conteúdo, quando o primeiro se apropria do segundo para recontar a mesma história. As variantes interpretativas, quando acontecem, são determinadas por fatores externos à obra, tais como posições ideológicas, ou necessidade de tornar o entendimento mais acessível, com vista a atingir um público maior. Continue

ademir

Um vazio cheio de nada

- Advinha o que foi que me aconteceu.
- Conta, conta. O que foi?
- Topei com o Gaiarsa numa livraria.
- Gaiarsa? Eu conheço?
- Sabe o Gaiarsa? Aquele psiquiatra meio maluco, que tinha um programa de entrevistas na TV?
- Ah, sei. Um velhinho que virou pop star da psiquiatria
- Muito requisitado, aliás, por outros entrevistadores. Ele se apresentava quase sempre de boné, fazia muitas críticas ao moralismo, e principalmente à situação da educação no Brasil. Foi ele que disse, por exemplo, que todo ser humano é um gênio em potencial até por volta dos sete anos, daí em diante a família, a igreja, a escola, e as novelas da Globo transformam o ex-futuro gênio num idiota.
- Ele falou das novelas? Continue

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Pausa para pontuação

Quando assumi a pretensão de me tornar um escritor sério, deparei-me com um imprevisto: a necessidade de retomar lições de gramática lá do primário. Mais ainda ao decidir espalhar minha produção pelo universo virtual, pois não queria cair no vale-tudo gramatical da literatice que pulula na internet. Creio que o suporte usado para publicação de um texto não deve ser desculpa para relaxamentos. Além do mais, o domínio das estruturas de funcionamento da língua é um fator importante para a exploração dos recursos expressivos. Continue