carolina maria de jesus

A literatura da fome

Não conheço dados concretos para avaliar o poder de efeito da literatura militante, essa feita, em geral, nas periferias das grandes cidades brasileiras. Falta-me o conhecimento específico de características desses ambientes, assim como o impacto que uma obra literária pode causar ao focar o modo de vida singular de determinadas populações. Creio que, em muitos casos, o resultado é muito mais publicitário, ao atender uma demanda de conteúdo social por parte de um público acostumado a tratar o diferente, quando não com desprezo, apenas como uma curiosidade a ser consumida. Esse parece ter sido o fim mais evidente de uma obra como Cidade de Deus, por exemplo, mas não se pode ignorar outros, inclusive o próprio ato de protesto. Creio que, o leitor que lê semelhante relato como a denúncia de uma situação bem próxima a ele, no mínimo passa a entender o seu próprio meio sob uma nova dimensão. É por isso que leio com bastante atenção e igual deleite a prosa de um autor como Ferréz, cujo registro parece estar mais preocupado em fazer o retrato da vida das comunidades marginais do que com o refinamento estético, ou literário, do texto.

Mais prazer ainda me proporcionou a leitura de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, em nova edição da Editora Ática.  Trata-se, como é de conhecimento geral, do diário de uma mulher semialfabetizada, que vivia numa favela de São Paulo, na década de cinquenta. Antes, portanto, do surgimento do crime organizado, que assumiu o controle dos territórios abandonados pelo Estado.

A narrativa é contundente, tanto na forma como no conteúdo. Para se ter a dimensão do drama relatado, basta saber que a autora, muitas vezes, se punha a escrever para disfarçar a fome, em dias em que não havia o que comer. A rotina era miserável e quase automática: acordar de madrugada, ir buscar água numa torneira comunitária, preparar o café, quando havia mantimentos, despachar os filhos para a escola e ir para o lixo catar o que desse para vender e angariar alguns trocados com que pudesse providenciar o almoço; e, sem descansar, voltar ao trabalho em busca de provimentos para a janta. Em dias de chuva não havia o que catar, portanto, quase nunca conseguia com que preparar uma refeição para ela e os três filhos. Então ela escrevia.

Paralelemente, ela se ocupa dos relacionamentos com os outros habitantes da vila: as brigas intermináveis, os escândalos diários, as amizades conquistadas. E no meio de todo esse rebuliço ela encontra tempo e disposição para escrever e ler. Aqui vale uma queixa: a grande lacuna é ela não nos cotar sobre os livros que lê, nem como os adquire, e nem como o hábito da leitura entrou em sua vida. Apenas uma ou outra menção rápida sobre algum poeta, como Castro Alves ou Augusto dos Anjos, mas sem comentar sobre sua relação com a literatura deles. Também há algumas referências à Bíblia, mas nesse caso, apenas sob um ponto de vista religioso.

Quanto à forma, pode-se dizer que é tão seca quanto a vida da autora. Uma linguagem crua, quase primitiva, adornada por uma inegável inspiração poética, com imagens e metáforas retiradas do seu próprio meio para traduzir a miséria de sua existência, não raro se valendo de uma ironia cruel, como no caso da vizinha que morreu e, quando o corpo foi retirado do barraco em direção ao cemitério, a autora comenta “agora finalmente ela terá uma casa própria”.  Miséria, diga-se, puramente material, porque Carolina se mostra uma criatura abonada de grande talento, uma alma sensível, e uma capacidade de compreensão da realidade digna de humilhar muitos escritores autuais formados em academias. A própria atitude de usar a literatura como antídoto da fome já é uma evidência de um prodígio intelectual

Não se trata de santificar uma mulher que teve uma força invejável para superar as restrições impostas por uma condição humilde. Ela própria, certamente, não se candidataria a uma vaga para canonização. Era apenas um ser humano que não aceitava viver como bicho, se revoltou, e lutou contra isso enquanto pode. É nesse contexto que se deve colocar alguns deslizes cometidos e relatados por ela. E não se trata aqui dos erros de gramática e de ortografia, devidamente mantidos assim como grafados no original, como revela a nota dos editores. Esse ponto, aliás, merece até elogios, por demonstrar que uma pessoa com tão poucos benefícios se aventurou e conquistou seu espaço num mundo elitista, onde muitas das figuras já estabelecidas torcem o nariz para ousadias ou deficiências retóricas.  Refiro-me a certos episódios de intolerância e preconceito, aos quais ela se refere de maneira muito natural. Como o da repressão ao filho por ler gibi. Por algum motivo, ela perdeu a paciência com o menino, sacou o livrinho da mão dele, rasgou e jogou no lixo, porque era uma leitura que ela detestava. Outro caso digno de nota é a opinião totalmente estereotipada sobre um acampamento de ciganos que se instalou perto da favela. Um caso típico de oprimido que adere ao discurso do opressor em relação a outra vítima da opressão.

Mas esses aspectos não chegam a comprometer a grandeza do depoimento. Digno de nota é, ainda, um senso de humor surpreendente, considerando-se que a autora vive num estado de mendicidade. Só uma pessoa de rara inteligência e sensibilidade aguçada pode captar um lado cômico em meio a tantas privações. Por vezes ela consegue rir das próprias agruras e anota isso com muita naturalidade. O fato de catar a sobrevivência no lixo serve aqui de metáfora bem expressiva. Do eco dos clamores da penúria ela capta os resquícios de humanidade que lhe dão ânimo para seguir em frente.

Uma das estratégias mais curiosas desses apontamentos, que parece ser usado mais por pudor do que por elaboração de estilo, é a recorrência das elipses. Uma mulher com tanta energia espiritual não poderia deixar de atrair homens carentes de proteção. Embora repita um discurso bem convencional sobre os deveres morais da mulher, ela não se furta aos assédios de dois moradores vizinhos, parece até tirar algum prazer nisso. De um deles, ela menciona, de maneira tímida e cheia de subentendidos, as noites em que dormiram juntos, mas do outro, ela só se refere às investidas, deixando o leitor em suspense quanto ao resultado das tentativas do apaixonado. Isso adquire um grande significado porque, como ela mesma descreve sobre os vizinhos, trata-se de uma convivência em que troca de favores, amizades, e atividade sexual se confundem numa naturalidade espantosa para os padrões moralistas. O exemplo mais enfático desse recurso está na visita do pai da filha dela, um empresário bem sucedido, que mora na cidade, e é poupado da exposição no diário: “ele deu-me 120 cruzeiros e 20 para cada filho. Ele mandou os filhos comprar doce para nós ficarmos sozinhos. Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher. Dei graças a Deus quando ele despediu-se”.

Pelo que se vê nos dias de hoje, a literatura não mudou a vida das periferias, apesar do livro de Carolina ter chamado a atenção do mundo inteiro sobre a condição dos indigentes despejados nas margens da sociedade. Mas com certeza, a literatura foi um alimento bem nutritivo para Carolina na sua ânsia de entender um pouco do mundo em que vivia. E depois, felizmente, com o sucesso que alcançou, libertou-se da fome propriamente dita, aquela que ainda atormenta e aprisiona as almas e os corpos de milhões de brasileiros.

[foto: site Geledés]

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Lendo #Bobbio

Lendo Bobbio

Norberto Bobbio morreu em 2004, perto dos cem anos de idade. Atravessou, portanto, todo o século 20, e deixou uma obra extensa de estudos sobre esse período. Além da atividade intelectual, exerceu cargo político no parlamento italiano. E é justamente sobre política um dos últimos textos que publicou. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. Trata-se de uma reflexão para definir os dois polos de uma díade que perpassa as disputas pelos instrumentos de poder, há mais de dois séculos.

Minha intenção com esta resenha é selecionar alguns pontos do trabalho de Bobbio e testar seus reflexos na atual realidade brasileira.

A começar pela alegação do fim das ideologias, e o consequente esvaziamento dos termos Direita e Esquerda, ou de qualquer outra polarização que viesse a demonstrar conflitos extremos na disputa pelo poder. Como resposta a esse disparate, Bobbio afirma, já nas primeiras páginas do livro, que não há nada mais ideológico do que o propagado colapso das ideologias. Trata-se de uma estratégia para convencer os subalternos de que as decisões tomadas pelo grupo que controla o poder têm carácter puramente técnico e administrativo, isentas, portanto, dos interesses próprios desses grupos dominantes, e dos valores que desejam impor como orientadores da vida em sociedade.

Nessa onda da suposta morte das ideologias, surge uma terceira opção, que se apresenta como a superação dos dois extremos e se apropria do que é positivo em ambos. Trata-se mais uma vez, de despolitizar as disputas pelo poder, dando-lhe uma aparência de preocupação com objetivos comuns, ludibriando as suspeitas de ambições particulares.

Esse foi, claramente, o caso da chamada terceira via que se apresentou nas eleições brasileiras em 2014. Uma proposta de superar a já histórica rivalidade entre os dois principais partidos, PT e PSDB, representantes da Esquerda e da Direita, respectivamente, como se a luta não passasse de uma brincadeira inconsequente de crianças birrentas. Nada mais político, diria Bobbio, do que essa tentativa de despolitização. Negar a polarização é escamotear as causas de sua existência. Direita e Esquerda, ensina Bobbio, não são palavras vazias, porque não são apenas palavras. Para além da expressão de um pensamento ideológico, elas indicam o posicionamento dos indivíduos diante de valores essenciais no convívio social. E esse valor por excelência é a igualdade. Citando o mestre: “o critério mais frequentemente adotado para distinguir a Direita da Esquerda é a diversa postura que os homens organizados em sociedade assumem diante do ideal de igualdade”.

Por isso é difícil acreditar na narrativa de ex-esquerdistas arrependidos, fenômeno tão atual no Brasil. Esse suposto abandono do ideal de esquerda é resultado de uma confusão entre os ideais de esquerda e as tentativas históricas de colocar em prática o princípio da igualdade. O comunismo faliu enquanto programa político posto em prática, mas como ideologia continua bem vivo, pois as causas que o geraram, as desigualdades sociais, ainda são a característica mais marcante das sociedades humanas.

A questão da igualdade traz imediatamente o problema da liberdade. E nesse ponto as confusões são muitas, sobretudo na preleção da Direita, que valoriza mais a liberdade do que a igualdade, baseada na crença de que, num regime democrático, todos os indivíduos têm todas as liberdades para conduzirem suas vidas como bem entenderem. Bobbio não se deixa levar por esse palavrório. Ao contrário, ele alerta para a diferença entre liberdade de pensar e de agir. A primeira é um princípio abstrato, mas a segunda implica que o indivíduo tenha acesso a todas as possibilidades de usufruir essa liberdade, o que acaba remetendo à questão da igualdade. Não tem sentido nenhum alardear o valor de um principio abstrato quando nem todos os indivíduos podem vivenciá-lo na prática.

Não sei se algum dia Bobbio se interessou especificamente pelos problemas da sociedade brasileira. Mas, se vivo fosse e andasse por estas terras, provavelmente ele se espantaria muito ao ver os candidatos de Direita vencendo eleições com o ardil da despolitização da política e se apresentarem como não-políticos; ver a classe média, que por não conhecer as próprias necessidades, caiu na conversa da Direita e embarcou no blefe de um país livre do aparato ideológico. Um discurso que preenche os sonhos de consumo da classe média brasileira, que por acreditar que é rica, insiste em negar as causas dos conflitos sociais, e que, por ignorância, não consegue ver que as disputas pelo poder serão sempre ideológicas.

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Conservadorismo sólido

Desconfio muito das desavenças nos relacionamentos afetivos. E mais ainda de quem se propõe a falar sobre elas. E justifico minhas reservas. As pessoas não entram em conflitos por causa de seus afetos, e sim por causa dos desempenhos que são esperados delas numa relação. E qualquer tentativa de análise que ignore essa característica acaba por reduzir o problema, na maioria das vezes, a um ponto de vista moral. Ao iniciar um contato afetivo, especialmente quando se trata de relação homem/mulher, o indivíduo tende a incorporar os valores sociais que regem essa forma de convivência, e se dispõe a corresponder às expectativas que a sociedade cobra dele. O problema é que nem todos conseguem represar seus sentimentos em embalagens fornecidas em série pelas convenções sociais, e o resultado é que os desencontros são inevitáveis.
Abordar esse tema e não levar em conta a origem social de muitas emoções é falar de um problema que de fato não existe. E é isso que faz Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Devo confessar que tenho certas precauções com autores de muito sucesso, sobretudo esses que falam de relacionamentos, pois a experiência me ensinou que as incursões nessa área são, em geral, superficiais, para agradar o grande público, e que, por isso mesmo, não conseguem ir além das generalizações do senso comum, de caráter não raramente moralista. E os laços afetivos entre os sexos, por acionarem valores morais que dão base à formação da família tradicional, célula base da sociedade ocidental, são os preferidos dos moralistas.
E com Bauman não é diferente. Já nas primeiras linhas, ele se põe a lamentar o fim das “relações indissolúveis e definitivas” entre os “homens e mulheres (…) desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos descartáveis …” Só esse trecho já seria o suficiente para saber do que se trata. A calamidade da vida moderna, segundo o autor, é que as pessoas abandonaram as convenções e passaram a compartilhar vivências apenas orientadas pelos sentimentos.
Mais adiante, a lamentação continua com a falta de seriedade na vida contemporânea. Pois é nesse ponto que começam os problemas no discurso de Bauman. Ele confunde profundidade afetiva com submissão às regras de sociabilidade. Existe aí um referente bem claro que orienta essa concepção: as sociedades de castas, onde os indivíduos nascem e atravessam a vida até a morte na mesma posição, em contato com as mesmas pessoas, desempenhando os mesmos papeis, sem nenhuma chance de mobilidade. Nessas sociedades, onde a comunidade era o referente, o que importava era o ritual que mantinha o indivíduo preso ao seu local de origem e às suas obrigações. Porem, na nossa sociedade, o indivíduo é o referencial, e não a comunidade, e as vivências afetivas são resultado da mobilidade da existência de cada um. Pretender que a manutenção de relacionamentos simultâneos, ou de pouca duração, caracteriza superficialidade é confundir afeto com obrigação social. E mais ainda, negar a importância do desejo como um dos fatores que impulsionam na busca por contatos.
O que determina a duração de um comprometimento é apenas uma afinidade que nasce e deve continuar espontaneamente, com toda a liberdade de movimentação, inclusive para o afastamento. Qualquer relação que se mantenha por algo que não seja uma disposição interior e reciproca, não é afetiva, e não passa de ação compulsórias. Tudo menos amor.
Aliás, é na concepção de amor que o famoso sociólogo se perde mais uma vez. A comparação de amor e morte é uma herança do Romantismo, que entende o amor como uma entidade, um ser superior que escolhe um ser humano a quem atacar com sua flecha envenenada e, a partir desse momento, a pobre vítima está infalivelmente afetada pelas agruras dos sentimentos. Está implícito aí uma concepção dos sentimentos com uma dimensão mórbida, uma doença incurável, na qual a vítima sucumbirá, sem chance de cura. Nada mais romântico e anacrônico.
Também é possível vislumbrar na liquidez das ideias de Bauman a noção de “relacionamento sério” como sendo aquilo em que a pessoa investe seus afetos para uma relação definitiva, a relação amorosa como o ápice da realização do espírito humano. Mas, alerta o autor, isso não é para qualquer um, é apenas para aqueles espíritos fortes, dotados de “humildade e coragem”. O amor é uma dimensão aonde se chega com o exercício de algumas qualidades Parece que a maior fonte de pesquisa do autor a esse aspecto da questão são as colunas de conselhos sentimentais, aquelas apoiadas no psicologismo do senso comum, sem nenhuma fundamentação que lembre a seriedade cientifica.
É sintomático que Baumam ignore a “História do Amor no Ocidente”, de Denis Rougemont. Pois nessa obra, constatamos que aquilo que o Ocidente chama de AMOR não é nada mais do que um discurso inventado e articulado historicamente, a partir da Idade Média. O ser humano tem uma necessidade existencial de se elevar um pouco acima das mesquinharias da vida cotidiana, acreditar que, pelo menos em alguns momentos, está vivendo uma experiência sublime, de grandeza espiritual. Daí a noção de amor surgiu exatamente para esse fim: fazer o homem sonhar que é possível atingir as esferas celestiais aqui na terra. E ainda com a vantagem de ser uma experiência ao alcance de qualquer um, independente de classe social ou posse econômica, uma experiência de valor universal, bem ao gosto da burguesia ascendente, que buscava mais espaço na estrutura fechada do mundo medieval.
Em resumo, o livro Amor Líquido não passa de uma ladainha conservadora de alguém que lamenta não viver mais no passado, onde os papeis sociais eram definidos no nascimento. Mais preocupante ainda é o fato de esse autor ser tão badalado, o que demonstra que o conservadorismo calcado nas generalizações do senso comum é muito sólido.

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A leitura do prazer, o prazer da leitura.

O ano de 2015 já se despedia quando peguei o último livro para me entreter durante o recesso de fim de ano. Era um que descansava há muito numa pilha em cima da mesa, e de vez em quando se atravessava na minha frente, com trejeitos sedutores e promessas de gozo. E eu sempre postergava o momento do deleite, assim como quem prolonga o estágio da sedução para que o ato de entrega seja mais intenso e prazeroso.  Até que finalmente pensei numa leitura leve e deliciosa para compensar o tédio natalino. Já de início, ainda nas preliminares, vislumbrei uma relação muito mais intensa do que um simples caso passageiro de férias de verão. E então me envolvi profundamente com o melhor livro que li, não só em 2015, mas também nos últimos anos. Trata-se de A mulher do Próximo, de Gay Talese, editado no Brasil pela Companhia das Letras.

Não é uma obra de ficção. Na verdade é um projeto jornalístico que consumiu vários anos de pesquisa, depoimentos dos participantes, e até uma imersão do repórter no universo estudado. Basta lembrar que Gay Talese é um dos nomes mais importantes do movimento conhecido como Jornalismo literário. Isso explica o tratamento do material em estilo romanceado, onde os indivíduos abordados são tratados como personagens fictícias, com a vida vasculhada e exposta sem discrição nem piedade, embora estejam identificados com os nomes verdadeiros. Talese descreve inclusive a si próprio em terceira pessoa, numa narrativa sem pudores de suas aventuras com as pessoas com quem conversou durante a execução de seu plano.

Até aí, nada demais, reportagem séria não omite nem distorce dados. Mas quando a gente apreende a dimensão do tema com que o autor se ocupou, novas e fascinantes expectativas tornam a leitura ainda mais excitante. O subtítulo do livro antecipa o que o leitor vai encontrar: “uma crônica da permissividade americana antes da era da AIDS”. Na verdade, é um retrato ampliado dos movimentos que pregavam e praticavam a liberdade sexual sem restrições, desde as comunidades que surgiram no Sec. XIX, até os anos 80 do Sec. XX, quando o vírus HIV apareceu como um forte argumento no discurso e na prática dos puritanos.

O primeiro personagem a desfilar pelas páginas do livro é talvez o mais interessante da obra, e é dele que se ocupa a maior parte do texto. Trata-se de Hugh Hefner, o visionário fundador da revista Playboy, em 1953, que em menos de um ano de venda de sua publicação tornou-se um milionário egocêntrico, cujo perfil é delineado com fortes traços de imaturidade emocional, e que, sem nenhum constrangimento referente à ética profissional, levou pra cama quase todas as mulheres que posaram para a revista. Era um homem de quem se poderia dizer que trabalhava por prazer.

Um dos temas que aparecem já no começo do livro é o papel das revistas masculinas. Quase sempre atacadas como produto do machismo, para o qual o corpo feminino não passa de objeto transformado em mercadoria de consumo, elas representaram uma reação ao puritanismo que amordaçava a sociedade americana nos anos de 1950. Elas mostravam aquilo que a sociedade insistia em negar: o prazer sexual dissociado de qualquer outra atividade que não a satisfação dos sentidos. Elas significaram um indiscutível ponto de fuga para relaxar as tensões reprimidas dos rapazes solteiros, homens tímidos ou solitários, que não se conformavam mais em pensar no sexo apenas como uma obrigação do casamento, para fins de procriação. Nesse sentido, as revistas de nu feminino são um ato de irreverencia e contestação para fugir de uma mentalidade opressora. O sexo, diziam os defensores da liberdade plena, é uma atividade física como outra qualquer, como nadar numa piscina ou fazer ginástica, que libera energia bioquímica e provoca relaxamento do corpo e da mente, e não precisa estar atrelado a nenhum outro princípio ou propósito que não o próprio prazer. Portanto, não depende de ser praticado sempre com a mesma pessoa, como propõe o casamento monogâmico burguês.

E nesse ponto aparece outro dos aspectos mais interessantes do livro. Um painel histórico das comunidades de amor livre, troca de casais e sexo em grupo, encontradas em solo americano desde o Sec. XIX. Talese apresenta uma visão extremamente densa dessas vivências, pois no seu sistema de investigação, a pesquisa envolve um conhecimento genuíno do objeto de estudo. E mesmo sendo um homem casado, num matrimônio mantido sob os padrões burgueses da classe média americana, ele não se furtou de ter uma experiência viva para relatar, quando uma das mulheres entrevistadas pegou o entrevistador pela mão e o conduziu a um quarto, sob o olhar complacente do marido.

O livro não ignora também as campanhas moralistas para conter a onda de permissividade. Entidades religiosas, grupos de militantes da moral, quase sempre com a colaboração de um poder judiciário que deixa de lado a imparcialidade e a objetividade das leis quando a questão envolve valores morais. Mas é claro que a trajetória dos indivíduos que lutaram pela propagação do prazer sem culpa é muito mais interessante. E a leitura muito mais prazerosa

lula inflável

A classe média e o lulismo

Meu primeiro ingresso na universidade foi no curso de ciências Sociais, na UFRGS, começo dos anos 80. Final do regime militar, campanha das Diretas, tudo era motivo pra sair pra rua, protestar, discutir. Com a eliminação da censura, a gente vivia a euforia da liberdade de expressão, e conversava muito sobre política, cultura em geral, a situação do país. Nessa época, o Lula era apenas um ex-operário que organizava greves e irritava muita gente de um lado e conquistava séquitos de outro.

No Brasil de hoje, vivemos de novo um clima de instabilidade, com várias tendências culturais e políticas tentando conquistar hegemonia, seja pelos meios legais estabelecidos pela Constituição, ou, para alguns, do jeito que for possível, pois, para certos grupos, a conquista do poder é justificada por si e dispensa preocupações de natureza legal e ética. E aquele mesmo personagem dos meus primeiros anos de universidade, o Lula, volta a espalhar pânico e ódio em vários níveis da sociedade, principalmente entre aqueles que não aceitam mudanças de regras no jogo quando estão ganhando. E para entender esse novo quadro que se apresenta hoje, recorro à minha antiga vocação de sociólogo para observar o que acontece no nosso país. E assim me deparo com uma leitura muito interessante, que me possibilitou testar algumas hipóteses já antes delineadas, e me proporcionou outras novas descobertas. Trata-se de Os Sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador, de André Singer.

Como bom cientista político, o autor, antes de atacar ou bajular, tenta compreender o impacto que o surgimento de Lula causou no cenário político brasileiro e antever os possíveis desdobramentos do que ele chama de realinhamento eleitoral, uma nova tendência do eleitorado brasileiro. Sem desprezar as alianças de ocasião com setores mais conservadores da velha oligarquia política, o autor vê uma mudança significativa no perfil do eleitorado de Lula a partir dos programas de distribuição de renda do primeiro mandato, quando o subproletariado foi cooptada por meio dos programas de inclusão social. Uma multidão que antes vivia abaixo da linha da miséria e que no passado sempre se alinhou ideologicamente às propostas das velhas elites, por medo de uma ruptura da ordem estabelecida. Já na eleição de 2006, essa camada, agora protagonista de uma trajetória de ascensão econômica, aderiu em peso ao lulismo, criando-se assim a polarização entre ricos e pobres na política brasileira.

As afirmações do autor, que não se resumem a esse ponto citado aqui, são resultado de avaliações de gráficos das eleições, pesquisas e estatísticas, bem como de sua experiência pessoal como porta voz e secretário de imprensa da presidência da república durante o período estudado. Desse trabalho resulta um painel bem abrangente do atual estado da política nacional, sem perder de vista nenhum elemento importante do contexto.

Mas, a meu ver, ou pelo menos para as questões que orientam as minhas preocupações atuais, o que mais chama a atenção é o comportamento da classe média. Que a classe média brasileira nunca se destacou por nenhuma qualidade intelectual, isso não é novidade. Desde a década de trinta do século vinte, quando surgiu no cenário político como produto da industrialização urbana promovida por Getúlio Vargas, esse segmento, que se equilibra entre o desejo de ascensão à elite e o medo de cair na pobreza, sempre priorizou apenas o status social, medido sobretudo pelo poder de consumo. Mas que seja uma massa tão maleável e tão manipulável a serviço da classe dominante, é coisa que surpreende até mesmo quem possui o hábito de observação mais atenta. Na eleição de 2002, a classe média encontrava-se achatada pelo peso da administração neoliberal imposta pelos tucanos e aderiu em peso às propostas petistas, como última esperança de recuperar seu padrão de consumo. Mas no primeiro mandato de Lula, as políticas de distribuição de renda destinadas aos mais pobres causaram pânico na esfera mediana por dois motivos básicos. Primeiro a frustração da expectativa de um governo em que pudesse se agarrar, e segundo, o medo de ter que dividir com os mais pobres aquele espaço onde antes ela circulava com exclusividade. Incapaz de entender que a melhoria da base social poderia trazer mais tranquilidade para toda a sociedade, a classe média voltou correndo a pedir socorro aos seus antigos candidatos.

Mas os reais motivos do terror causado pelo novo quadro social não podiam ser expressos com tanta sinceridade, afinal, é necessário manter algum resquício de dignidade. Então, a partir do ano de 2005, os escândalos causados pelas denúncias de corrupção entre os petistas deram o tom para o discurso de protesto.

Com a vida focada no imediatismo do presente, a classe média não consegue enxergar a dimensão histórica de qualquer problema de cunho social e nem perceber a natureza estrutural do fenômeno da corrupção na sociedade brasileira. Ela vive a muitas léguas daquele clima de longos debates dos meus primeiros anos de faculdade. E como o real motivo, no plano político, é reconduzir ao poder os antigos mandatários, engendrou-se uma trama maniqueísta, bem ao nível das telenovelas, onde os petistas aparecem como vilões sem escrúpulos, e do outro lado, os guardiães da moral e dos bons costumes, mesmo que no passado esses paladinos das causas nobres tenham protagonizado escândalos de proporções semelhantes, ou piores.

Considerando-se que se trata de uma parcela que goza do acesso a bens culturais e à informação mais qualificada, é espantoso ver essa fração da sociedade se comportar como rebanho e aderir a um discurso que escamoteia a essência dos fenômenos a que está submetida. Avesso a discussões de natureza especulativa, o indivíduo mediano se contenta com uma simplória visão de mundo, onde tudo se resume a escolhas definidas pelo caráter moral, e tudo encaixa num plano de fácil compreensão.

Outra constatação preocupante que se apresenta no livro de Singer é que a classe média tem sido decisiva na manutenção do espectro conservador da política brasileira. Mais dramática se torna a situação porque ela não percebe que é a principal vitima do monstro que alimenta.

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Literatura gaúcha e tradicionalismo

Volto mais uma vez ao tema que me desperta grande interesse, as relações entre História e Literatura.

Anoto, antes de tudo, que o termo História aqui é empregado no sentido de ciência que estuda os acontecimentos do passado. Essas duas andam de par desde que nasceram, uma sempre atenta às necessidades da outra, numa eterna complementação que só enriquece a ambas. Os ficcionistas da literatura retiram da história a matéria para suas mais variadas obras, e os historiadores, na exposição dos fatos, recorrem com frequência ao poder da ficção para preencher as lacunas que os documentos deixam abertas. Também é natural que historiadores recorram à literatura para estudar, se não os fatos históricos narrados pelos escritores, pelo menos a representação de algum episódio histórico, como ilustração a interpretações mais objetivas. Nesse caso, o historiador tem a consciência de que não está lidando com um fato e sim com a representação de um determinado acontecimento do passado, na certeza de que a visão apresentada pelo escritor poderia ser compartilhada com demais pessoas daquele período, o que justificaria seu interesse no plano da pesquisa científica.

Quando as duas disciplinas conhecem bem seus limites e suas deficiências mútuas, é que se estabelece essa colaboração recíproca que amplia o potencial das duas.

No entanto, essa relação não é sempre tranquila. Acontece por vezes de um escritor esquecer a natureza íntima da ficção e se limitar a copiar livros de história. Aí a questão da aceitação da obra é apenas de gosto do leitor. O problema surge quando o historiador se apoia na literatura como se ela fosse um documento, e toma a representação do fato pelo próprio fato, e provoca uma inversão entre causa e efeito. Assim, o estado emocional do criador é confundido com as motivações e determinações históricas, sociais ou políticas que condicionaram o contexto onde o artista viveu, e a representação assume o lugar do objeto representado.

Um exemplo bem significativo a ilustrar esse fenômeno teve a cultura gaúcha como alvo. Trata-se de História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902), de Guilhermino Cesar, cuja primeira edição surgiu em 1956. O autor, como é de conhecimento público, foi um intelectual que conquistou grande prestígio no meio acadêmico, e atuou em vários órgãos da cultura nacional. Mas nem os grandes homens acertam em tudo o que fazem, sobretudo aqueles de intensa atividade intelectual, que lançam as luzes de sua inteligência em várias direções, como foi o caso do autor em apreço. E sua falha foi justamente na avaliação que fez do entrelaçamento entre história e literatura do pampa gaúcho.

Algumas afirmações encontradas no livro são bem significativas do equívoco interpretativo do autor: “estudar literatura rio-grandense é, de certa forma, abrir um livro de Sociologia” e justifica essa sentença afirmando que não quis se limitar exclusivamente aos elementos estéticos e procurou as determinantes desses elementos no meio social. E o cenário dessa pesquisa é a região da campanha, origem e motivação desses elementos estéticos, pois, sempre segundo o autor, foi a campanha que contribuiu com a parte mais rica da originalidade da formação da cultura gaúcha.

Nessa abordagem pretensamente sociológica, dois aspectos da formação do estado teriam contribuído, segundo o autor, para impulsionar a criatividade dos primeiros autores e moldado uma estética literária. O primeiro deles, a condição de acampamento militar dos primeiros povoadores das terras do sul. Esses habitantes eram homens que exerciam posições militares na proteção da fronteira, homens, portanto, dotados de forte sentimento guerreiro, espírito que teria se perpetuado pelas seguintes gerações, moldando a índole do povo gaúcho. O segundo fator determinante foi o isolamento geográfico e a pouca importância política do estado em tempos de paz. Somado a isso, a ausência de escolas e a deficiência cultural dos poucos homens letrados, que praticamente desconheciam a literatura clássica.

Com tais condicionamentos sociais, políticos e culturais, como poderia surgir aqui nessa região, espanta-se o erudito estudioso, uma poesia de tão requintado lirismo, como é o caso das obras registradas no período. Fica claro, na conclusão do autor, que tantas dificuldades teriam sido fatais para qualquer povo que não possuísse a coragem, bravura e determinação do gaúcho. E é exatamente isso que explica toda a riqueza cultural desta terra, inclusive sua valiosíssima produção literária.

É na tentativa de responder a essa questão que o autor começa a delirar, e a resposta seria até cômica se não se tratasse de um trabalho acadêmico, que deve manter um certo nível de seriedade. Pois nas páginas seguintes, encontramos que justamente esse isolamento deu ao povo enorme energia interior; o constante perigo temperou a alma com a força e a sagacidade; o exercício na guerra, nos períodos em que era chamado a defender a fronteira, produziu a ousadia e a determinação. O resultado não poderia ser outro: “a épica do povoamento que impulsionou os gaúchos primitivos, e mercê da qual abriram eles a Inteligência a ventos que sopraram de outras paragens, à semente das ideias à fascinação da vida intelectual”.

Com tantas qualificações intelectuais estava pronto o cenário para a atuação dos primeiros romancistas, e eles chegaram em grupo autodenominado Partenon literário. Porém, os jovens que se agruparam com propósitos literários ainda se orientavam pelas musas do Romantismo, apesar de o movimento estar em declínio no resto do país. Um detalhe muito importante as ser registrado é que a maior parte dos escritores que inauguraram as letras gaúchas eram provenientes da região pecuarista, ou seja, filhos de estancieiros, que estudaram no centro do país e lá se iniciaram nas leituras da moda. E para mostrar que aprenderam as lições literárias, os jovens autores se dedicaram a reconstruir o passado da região onde viviam. Submissos aos cânones românticos, transformaram o peão de estância em um cavaleiro medieval dotado de força moral, princípios rígidos e um amor exagerado pela sua terra. A ideologia liberal dos autores foi transmitida ao personagem e o gaúcho primitivo virou um rebelde avesso a qualquer laço que o prendesse a algum lugar ou a alguém. Estava criado, assim, o monarca da coxilha, o centauro do pampa, o mito do gaúcho que perdura até hoje em CTG’s e programas de televisão nas manhãs domingueiras.

Nem de longe se nota nesses autores uma intenção de colocar esse personagem num cenário mais realista, e mostrar que a condição de andarilho do gaudério dos tempos antigos não era exatamente fruto de uma paixão desmedida pela liberdade. Numa economia voltada exclusivamente para a criação de gado em latifúndios, com atividades marcadas por etapas condicionadas pelos períodos de tempo, quem não era criador de gado e dono de terras, precisava se adaptar ao regime de empregos provisórios, em que alugava sua força de trabalho a quem pagasse por ela. Não se trata, portanto, de reviver o passado, mas de fazer uma interpretação que encaixasse nos modismos literários do romantismo. Que os escritores fizessem isso, absolve-lhes a liberdade de criação, mas para um historiador de literatura incorrer no mesmo erro, se limitando a tratar como histórico um argumento puramente ficcional, é uma falha inaceitável, em um trabalho de pretensões acadêmicas.

Como se vê, é muito bom a gente embarcar nas fantasias dos escritores no momento de desfrutar a obra da criação artística. Mas quando a gente se propõe a estudá-la pra entender e explicar suas motivações sociais, psicológicas e até afetivas, é bem mais proveitoso abandonar o deleite da fantasia e se armar de um mínimo de rigor científico para avaliar o contexto histórico em que a obra foi criada, para não correr o risco de tomar o efeito pela causa, ou a representação pelo objeto representado.

[Foto Jornal Opção]