família_bicicleta

As Palavras e As Pessoas

Eu nunca me dediquei a esses estudos sobre a relação entre as palavras e as coisas. Tema de especialistas, filósofos, linguistas, complexo demais para a minha discreta capacidade intelectual. Mas gosto de observar os humanos e vislumbrar as vinculações que eles estabelecem com as palavras.

A linguagem é condicionada pelo status social. Isso é do conhecimento de qualquer um que já tenha lido alguma coisa sobre esse tópico. Mas o que me deixa pensativo é perceber que algumas criaturas acham que basta fazer uso de determinado vocábulo para dominar a realidade que ele denomina. Por exemplo, usar um termo do jargão erudito para se ver possuidor de erudição. Ou então, assumir os hábitos de fala dos ricos para se sentir titular de polpudas contas bancárias. Existe também o linguajar dos vanguardistas. Não quer se sentir um conservador antiquado que perdeu o bonde da história e não tem meios suficientes para correr atrás? Muito simples: basta observar o palavreado que os moderninhos usam e repetir igualzinho, que nem papagaio, e, pronto, tudo resolvido. Não importa que defenda ideias retrógradas, que se deixe levar por devaneios saudosistas, com saudade dos velhos tempos.

O importante é expressar tudo isso com um vocabulário renovado. Por exemplo, nos dias atuais, acabar com as leis que garantem os direitos sociais não é retroceder ao tempo dos escravos, quando uma multidão era excluída dos recursos básicos de sobrevivência. Isso é visão de gente sem horizonte, que não mira o futuro. A dicção correta, usada por profissionais que entendem do assunto e estão em sintonia com os novos tempos, é flexibilizar. O processo, assim como o resultado, é o mesmo, mas a maneira de dizer é mais bonita e não causa tantos danos. Então, não vamos atacar os necessitados e expropriá-los de seus benefícios mínimos, vamos livrá-los da dependência do estado e torná-los cidadãos autônomos e livres para gerirem a própria vida. Em qualquer das alternativas, as vítimas vão morrer de fome da mesma maneira, mas o novo estilo expressa uma ideia mais nobre.

Essas divagações se enfiaram minha cabeça adentro durante um trajeto dentro de um ônibus, em que o tédio da paisagem já muitas vezes vista despertou em mim um desejo de viajar por outras dimensões diferentes, sem os solavancos causados por uma rua esburacada. Num ato de quase rebeldia, meus olhos saíram pela janela do coletivo e se espalharam pelos letreiros das casas de comércio, na esperança de encontrar alguma coisa nova. Tão curiosos estavam que pousaram em cima de uma placa onde se lia bike store, em letras coloridas e bem grandes. Lá eles se detiveram pelo tempo em que novos passageiros embarcaram, ao fim do que o ônibus seguiu viagem. De volta, comunicaram ao cérebro o que viram, e este, na ânsia de se ocupar com algo diferente, se pôs a matutar. Por que bike store e não loja de bicicleta, se as duas dizem a mesma coisa, e além do mais, em português, o anúncio seria entendido por todo mundo. Sim, há de se levar em conta que alguns brasileiros, os desvalidos da sorte, não sabem o que é bike nem store.  Pois aí é que está o busílis, pensei eu de imediato. A loja não é para compradores humildes, aqueles que andam de bicicleta, e sim para quem sabe o que é bike store.

Aí ocorreu-me uma explicação para o fenômeno. Antigamente, a bicicleta era um meio de transporte utilizado por operários para se deslocarem para o trabalho. Andar de bicicleta era atestado de pobreza e demonstração de que o condutor trabalhava num emprego modesto, normalmente serviço pesado, como pedreiro, ou algo assim. Mas aí, veio a moda do esporte, vida saudável, coisa e tal. E aqueles viventes mais antenados, que gostam de andar sempre à frente do seu tempo, (quando eu era criança, dizia-se prafrentex) resolveram que era melhor perder peso do que perder a onda do momento e se atracaram a fazer exercícios. Um dia, começaram a viajar para o mundo civilizado e descobriram uma coisa fantástica. Lá, os habitantes de todas as condições sociais andavam de bicicleta, tanto o cavalheiro de terno e gravata, com sua pasta de executivo amarrada ao bagageiro, quanto a secretária, que desfilava sua elegância muito bem equilibrada em duas rodas. E também o velho aposentado e o adolescente colegial. A bicicleta era mais usada do que o carro, que alimenta os sonhos de consumo daqueles consumidores que podem viajar porque trabalham em empregos bem melhores que o dos ciclistas conterrâneos. Um dia, no meio da horda de turistas que invadem anualmente o continente europeu, alguém teve um lampejo de criatividade e sugeriu: e se, lá no Brasil, a gente passasse a pedalar como forma de exercício, para passear aos domingos no parque, uma distração bem chic, igual a essa que o povo tem aqui? A outra viajante respondeu: uma bicicleta? Vão pensar que a gente é operário de obra. Instalou-se o impasse e a expectativa de contemplar o mundo do alto de duas rodas já ia quase derrapando, quando uma integrante do grupo, uma moça que frequentava um cursinho intensivo de inglês para ir a Miami comprar os presentes de natal, apontou uma saída. Ia pesquisar como se diz bicicleta em inglês. Empenhou-se numa busca no Google translator e a solução veio como uma simples pedalada. E foi assim que gente elegante e de boa família, cidadão de bem, passou a andar de bike e deixou a bicicleta para aqueles trabalhadores de baixa extração social. É bom lembrar que, para esses, não importa muito o léxico que dá nome à coisa. Isso só interessa para quem quer subir na vida sem muito esforço e descobre que aquilo que poderia conduzir a esferas mais altas está associado à ideia de desprestígio. Então, é necessário criar uma nova nomenclatura para afastar a coisa do meio que a contamina com pobreza e falta de requinte social.

Foi isso que aconteceu para que uma simples bicicleta se transformasse em bike. Pode-se dizer, então, que os novos ciclistas viajam na palavra, que é um veículo de transporte bem mais seletivo e muito mais seguro.

bem blogado

O golpe dos privilégios

Todo governo espúrio precisa construir um discurso de legitimação. A história é prodigiosa em exemplos desse fenômeno. No Brasil, pode-se mencionar o Regime Militar, que encontrou na retórica anticomunista um aval para todo o tipo de arbitrariedades, por mais que a tal ameaça comunista não passasse de uma alucinação gerada no âmbito da caserna, onde o nível de reflexão intelectual só se comparava ao das beatas da TFP.
O presidente Collor de Mello também precisou recorrer à invenção de um bode expiatório. Como a arenga anticomunista já não mais assustava tanto, a maldição recaiu sobre os detentores de altos salários nos cargos públicos, responsáveis, segundo ele, pelas dificuldades financeiras que o pais enfrentava. Collor contava com a legitimidade das urnas, mas não tinha nenhuma credibilidade fora das camadas da população que o elegeram, pessoas facilmente manipuladas pela desinformação, e ansiosas pela volta de um salvador da pátria. Além disso, mais tarde vieram a público as trapaças feitas por parte da mídia para influenciar os resultados e impedir que o pais fosse governado por um presidente de tendências mais populares. O monstro do comunismo ainda não estava completamente morto. O fato é que o até então mais jovem presidente da história do Brasil, que desfilava ostensivamente, cheio de vigor e energia, se autoproclamou o caçador de marajás. O resultado dessa aventura é do conhecimento de todos.
Agora temos mais um governo ilegítimo e, por conseguinte, mais um bicho-papão, um verdugo da sociedade brasileira. A quadrilha de corruptos que se instalou no poder com o golpe de 2016 nem nisso conseguiu ser original e apelou para o ressentimento popular para atacar supostas regalias de um pequeno grupo de pessoas contempladas, segundo os cleptocratas, com incríveis benesses econômicas. E o alvo do ataque são as remunerações mais elevadas que, segundo a narrativa golpista, significam altos rendimentos, em contraste com a maioria da população que mal consegue lograr um mísero soldo para matar a fome. Uma injustiça, proclamam eles.
Mas, quem são os novos marajás dos atuais impostores? As altas fortunas, que vivem de rendimentos e dividendos isentos de tributos? Os grandes sonegadores, que devem milhões para a Receita Federal? De maneira nenhuma. Com todo o retrocesso patrocinado pela camarilha temerista, seria incoerente que nesse quesito houvesse algo novo, e os grandes vilões da sociedade brasileira, aqueles que só se beneficiam de uma estrutura social anacrônica, continuam sendo os servidores públicos que, na opinião dos usurpadores, usufruem de inaceitáveis vantagens em comparação com os trabalhadores da iniciativa privada. E quais seriam esses proveitos injustos? A mídia nacional, aliada e parceira da fraude, apresenta diariamente inúmeros gráficos e estatísticas para provar a enorme discrepância entre os estipêndios na iniciativa privada e no setor público. E como prova de tão grande desequilíbrio, buscam comparações com os países de primeiro mundo, onde existe quase uma equiparação entre as duas instâncias.
Naturalmente que, devido a tanta responsabilidade e excesso de trabalho, tanto da equipe econômica quanto dos seus súditos na imprensa, os técnicos às vezes se atrapalham e cometem alguns equívocos nas interpretações dos gráficos e das estatísticas. Coisa compreensível para homens que se dedicam com tanta intensidade a resolver problemas de alcance coletivo das finanças públicas. No entanto, seria interessante que, antes de acabarem com as desproporções remuneratórias que corroem as entranhas da nossa pobre sociedade, os novos arautos da justiça social observassem alguns detalhes dignos de nota. Primeiro, nos países civilizados e desenvolvidos, aqueles em que os partidos políticos derrotados esperam as novas eleições para tentarem de novo a conquista do poder, a pequena diferença entre os emolumentos públicos e privados não se dá em consequência de uma desvalorização do serviço público, e sim porque os trabalhadores das empresas privadas recebem um pagamento digno. Se no Brasil essa disparidade é gritante, não é por causa de supostas prerrogativas dos funcionários públicos, e sim porque os trabalhadores da iniciativa privada vivem num regime de quase escravidão, recebendo um ordenado que mal garante a sobrevivência material.
Mesmo caso a questão da estabilidade, tão atacada há muito tempo. Não se trata de um tratamento especial para quem passou num concurso numa empresa do governo. Trata-se apenas de uma compensação por uma dedicação exclusiva, exigida por lei, pois se sabe que, a partir do momento em que assume um cargo no governo, o indivíduo não pode exercer nenhuma atividade paralela, salvo raríssimas exceções, normalmente para cargos do alto escalão.
Então, uma medida que poderia favorecer todo mundo, ricos e pobres, público e privado, seria, em primeiro lugar, um governo legítimo, que tivesse um projeto para o país, e não um plano promocional de vendas das instituições governamentais. Por enquanto, os únicos que desfrutam de concessões especiais em solo brasileiro é a corja de saqueadores que invadiu o governo e expulsou uma presidente honesta e legítima. Essas aves de rapina não fazem outra coisa além de improvisar medidas de última hora para salvarem a própria pele e se safarem das ameaças constantes da justiça. O maior presente que o povo poderia esperar neste momento é ver toda a súcia do Planalto ser escorraçada de Brasília. Ou pelo menos ganhar o privilégio de um alojamento na Papuda.

foto por @bemblogado

heraclito

A musa melancólica

A urgência do homem primitivo em superar suas limitações levou ao surgimento da arte e da ciência. É possível entender a fricção de dois pauzinhos, ou lascas de pedra, que gerou o fogo, como um evento científico. E as pinturas nas cavernas, ainda que revestidas de motivos ritualísticos, adquiriram importância na história da Estética. O medo de viver abandonado num universo desconhecido criou a religião. Veio daí a ideia de uma dimensão superior no além, a qual seria alcançada através da aceitação de algumas regras de comportamento aqui na vida terrena. Arte e religião tornaram-se, então, dois caminhos possíveis para se chegar a tais plenitudes, ressaltando-se que não é raro que elas se confundam, pois que para muitos adeptos, a arte adquire status de rito religioso, em que uma musa, em constante estado de graça, conduz o seu protegido às regiões mitológicas, ao encontro dos soberanos olímpicos.
Tudo ia às mil maravilhas, e qualquer mancebo que se dispusesse a versificar suas mágoas amorosas já se sentia nas alturas, pronto para alçar-se aos píncaros da glória. Porém, lá pelas tantas, o poeta Victor Hugo veio alertar para o surgimento de outra musa, conspurcada pela moral cristã, que sofria da principal característica do cristianismo: a melancolia. Tratava-se de uma fadinha sacana, cansada daquela estopada retórica, e queria algo mais funambulesco. Logo que assumiu suas funções, essa madrinha da inspiração se encarregou de turvar a vista dos poetas, apresentá-los às coisas menos dignas de admiração, em vez da face imponente do herói, introduz uma caricatura de fisionomia deformada. Essa musa, sempre atenta às nuances e detalhes de cada objeto, não se cansa de perturbar a paz espiritual dos seus pobres devotos, provocando uma inversão nas expectativas ao alertar que a vida, ainda que momentos nobres, também comporta um lado meio risível. É ela que atrai os sátiros que espalham a desordem no reino da poesia.
O problema é que o ser humano é fraco demais e não consegue suportar qualquer vacilação nas suas certezas. Na utopia engendrada para suportar uma longa trajetória, tudo passa por uma elaboração bem organizada e coerente, onde tudo combina, numa sublimidade digna das obras supremas. Eis porquê é natural encontrar-se alguns indivíduos que, tomados por crises de devaneios, acreditam que passam pela vida a pensar e fazer apenas coisas de extraordinária importância; são amigos das pessoas mais maravilhosas do mundo; só se dedicam a atividades que deixam transparecer sua grandeza espiritual e a pureza de sua alma. A maioria das criaturas deste planeta ainda está agarrada às musas antigas, aquelas dos tempos clássicos, que só enxergavam o mundo reduzido dos círculos divinos. Por isso a sobrevivência de crenças primitivas como deuses e outros personagens celestes, sempre prontos a acudirem os pobres mortais em momentos de sofrimento ou prolongada dificuldade. Muito digno de zombaria é a constatação de que os viventes do século 21 ainda se deixam levar pela crendice de que, ao entrar num prédio de estilo arquitetônico rebuscado, se ajoelhar e repetir gestos e palavras decoradas vão merecer as graças de uma existência mais elevada, mais perto das divindades que eles mesmos criaram, e que só se manifestam na imaginação prodigiosa dos crentes.
Outra cilada em que as pessoas fazem questão de cair, na crença simplória de estarem mais seguras, é o amor romântico. Na ânsia de gozar logo os estágios mais inebriantes da alma, a burguesia cristã do século XII transformou o instinto de acasalamento, a simples satisfação de um desejo físico, em algo transcendente, uma união coroada com os louros dos mais nobres sentimentos, regida e abençoada por espíritos iluminados protetores do bem.
Nesses casos, a elaboração fantasiosa é tão eficaz que não deixa uma mínima brecha para a entrada da musa melancólica de Victor Hugo. Nada do gênio galhofeiro de Demócrito; nada do demônio da crítica; fora qualquer tentativa de teste do ridículo do conde de Shaftsbury. Para essas pessoas, tudo precisa estar no seu devido lugar, numa harmonia perfeita, criada no céu e tutelada pelos anjos. Só assim eles acreditam estar numa fase avançada do sublime, atingida apenas por alguns privilegiados.
A necessidade de se sentir acolhido em algum espaço mítico é uma das bizarrices mais esdrúxulas dos filhos de Adão e Eva. Como viver no tédio da perfeição, sem essa índole trocista que desarmoniza tudo a todo instante? Como abrir mão da diversidade, dos detalhes que o disforme nos oferece? E a surpresa do inusitado que a visão humorística nos apresenta, como enfrentar a realidade sem ela? Há por acaso coisa mais deliciosa do que um despropósito dito em momento inopinado? Pois uma tolice serve para evidenciar contrastes e denunciar as incongruências da razão nefelibata, e o ridículo das pretensões de uma vida orientada somente por conceitos abstratos. É sinal de uma mente expansiva conseguir aceitar e usufruir o prazer do imprevisto, do inesperado e fazer a aproximação entre fatos distintos e distantes para ver o mundo sobre outro ponto de vista, e sentir prazer com isso.
Em vez de uma entidade efêmera que habita nas alturas inatingíveis e nos mostra sempre a mesma visão clara e transparente banhada pela luz do sol, melhor seguir os vira-latas dos cínicos gregos, revirar os lixos das praças públicas, vasculhar os recantos dos becos mais sórdidos, as paisagens noturnas das vias urbanas, onde os seres se confundem na indefinição das sombras. Pois é também nos grotescos da realidade que encontramos os mais sublimes sopros de vida.

Ademir - Diretas Já_era - Cara pintada

Diretas Já… era!

O ano de 1984, no calendário brasileiro, é daqueles que sintetizam uma era. Posso mencionar, pelo lado pessoal, algumas peripécias que definiram o meu futuro. Eram os meus primeiros passos vivendo sozinho, longe da família, tomando minhas próprias decisões, administrando um salário modesto de profissional iniciante na área técnica. Acrescente-se que foi também meu ingresso na faculdade, como discente nas Ciências Sociais, um curso que se destacava, sobretudo, pelos níveis de politização dos alunos e professores. Entre as imagens daquele período, que ainda hoje me trazem saudade da vida estudantil, a mais forte é a dos estudantes circulando pelos corredores do campus com o livro O Capital, de Karl Marx, embaixo do braço. Como se houvesse um acordo tácito para que todos utilizassem a mesma edição, uma que estampava na capa o título da obra e o nome do autor, em letras bem grandes e vermelhas. E, o mais importante, jamais deixar aquele tesouro escondido dentro da pasta, onde não seria visto. A regra era expor a erudição esquerdista bem à vista do público, como um atestado de filiação e preferência políticas.

Mas o mais importante daqueles tempos de inocência juvenil não se reduziu à minha experiência pessoal. O que incitou os brasileiros a uma união jamais vista sob a bandeira auriverde foi a campanha pelas Diretas Já, um dos momentos mais sublimes da história do país, pelo menos dos que eu guardo na lembrança. Por todos os lugares, não só entre os jovens marxistas de vitrine do campus universitário, mas nos bares, no trabalho, em casa, na rua, qualquer assunto sempre recaía na escolha direta e democrática do presidente da República.

A principal característica daquele movimento era a certeza de que lutávamos por uma coisa justa e necessária. Também era notória a unanimidade dos corações que pulsavam na mesma sintonia. Com exceção de alguns membros do poder arcaico dos generais que assaltaram o país duas décadas antes, que partilhavam, por interesses escusos, da cegueira dos militares, a população brasileira cantava em uníssono o refrão das Diretas Já. Lembro do famoso comício em frente à prefeitura, que reuniu as eminências políticas da época, Tancredo, Montoro, Covas, e as presenças inesquecíveis de Brizola e Lula, que, com discursos contundentes, expunham toda a podridão do regime militar, já nos seus últimos estertores.

Aquela refrega, para mim, era como uma formatura no colégio primário: nunca mais se repetiria. O Brasil encerrava uma aventura irresponsável que tinha jogado o povo na maior tragédia social da história recente, cavando um abismo entre as camadas da sociedade, e transformado as estruturas de poder num verdadeiro feudalismo em pleno século XX. Isso seria o suficiente para que uma mentalidade de valores democráticos se formasse e vivíamos na convicção de iniciar uma longa trajetória de reconstrução de uma sociedade justa, civilizada e democrática. Quanta ilusão! As Diretas não vieram quando pedíamos e ainda precisamos esperar mais cinco anos apenas para amargar a grande frustração de ver subir ao poder um aventureiro, que poderia ser colocado lá pelos próprios militares. Era a ressaca da festa.

Pois hoje, mais de três decênios depois, ouve-se algumas vozes chamando para reviver aquele mesmo episódio que, apesar de frustrado, provocou incrível arrebatamento coletivo. Essas gargantas meio estranguladas, que chamam o público para formar um novo coro e entoar o mesmo hino do passado, insistem em fingir que se trata de uma nova montagem daquela saudosa comunhão no êxtase da democracia, a orgia carnavalesca dos bons tempos, para repor o país no caminho da legalidade. Está certo que somos o paraíso do carnaval, mas quem já viveu várias mágoas por festas que deram bem menos do que prometeram anda meio ressabiado com impulsos repentinos, cantorias improvisadas e prefere esperar um pouco mais para seguir o desfile do primeiro bloco que se joga na avenida.

Não que a conjuntura de hoje não justifique o frenesi e a determinação de reivindicar uma saída constitucional para a crise. Temos um presidente ilegítimo, que usurpou o poder através de um golpe de estado, valendo-se da mais covarde das artimanhas: a traição. Só isso já seria suficiente para mobilizar um país inteiro. Mas a questão é que existem, entre os dois ciclos históricos, algumas diferenças que não devem ser ignoradas. No evento original, havia uma clareza de propósitos que era derrubar o regime militar e recuperar a dignidade da vida nacional. O inimigo era declarado e as estratégias conhecidas de todos. Na versão atual, a maior característica do movimento é uma nebulosidade que atrapalha qualquer tentativa de enxergar alguma coisa por trás das aparências dos fatos. Não há nenhum cidadão, fora das esferas do poder, que consiga afirmar com muita certeza quais os interesses que estão em jogo atualmente nesse processo. Outra diferença importante é que, no passado, não havia a previsão de uma eleição direta para breve, tratava-se, antes de tudo, de corrigir um erro constitucional. Hoje, temos a garantia, pela Constituição de 1988, de um novo pleito para daqui a alguns meses.

Mas, é justamente nesse ponto que reside todo o pessimismo. Poucos eleitores acreditam na possibilidade de escolher o novo presidente por voto direto em 2018. É difícil acreditar que, depois de tanta munição gasta para dar um golpe de estado, os coronéis suseranos de um regime tão retrógrado como o que se instalou no Brasil vão permitir a entrega do país de novo nas mãos do Lula. Pois é certo que, dada a total inexistência de provas até agora, uma condenação de Lula só será feita com o recurso de um novo golpe. E esse consistirá em transformar as Diretas Já em Diretas Já… era!

karnal

Venial Karnalidade

Vivemos a época da diversidade. E isso é ótimo como reconhecimento do valor de novas propostas, outras predileções no estilo de se conduzir a própria vida, novas maneiras de viver os afetos, enfim, um sem-número de escolhas a contradizer as teses retrógradas da monotonia existencial.

Mas há o outro lado. O senso comum, com a costumeira obsessão de rebaixar tudo ao nível simplório das inteligências medianas, criou uma grande confusão entre variações nos modos de vida e intercâmbio dos posicionamentos ideológicos. Resulta daí a crença de que qualquer tagarelice deve ser levada na conta de legítima manifestação. A justificativa para tais superstições é que o diálogo entre pessoas civilizadas deve se dar em tom de conversa de salão, sempre no limite requerido pelas almas mais sensíveis, aquelas que se ofendem até com brincadeiras inocentes.

Essa semente da concórdia brotou em solo fértil entre os adeptos da polidez social, e a nova árvore do conhecimento cresceu com tanto vigor que as ramagens atingiram os meios acadêmicos brasileiros, onde sempre há um sofomaníaco disposto a atender as demandas do grande público. Conectados aos tempos modernos, em que tudo o que é venal passa pela mídia, esses doutrinários das boas maneiras vendem uma imagem de estoicismo e superioridade de espírito, e arrebanham uma multidão de fieis dispostos a sacrificarem até mesmo a capacidade de reflexão intelectual para consumir o último produto mental em oferta. Bem treinados numa retórica carregada do jargão das ciências sociais, eles engendram uma logorreia saturada das mais comezinhas generalizações do prosaísmo cotidiano, articulam um palavrório sem profundidade intelectual, um fast food do festim filosófico, pronto a ser engolido por paladares rústicos e apressados em sentir o gosto purificador da boa informação e do equilíbrio emocional, imune aos dissabores do extremismo.

Leandro Karnal é hoje o maior representante dessa tendência. Dotado de certo carisma, uma figura elegante, performance realçada com algumas doses de bom humor, ele arranca fervorosos aplausos de uma plateia que parece pronta a aplaudir qualquer tolice que lhe sirva de alimento espiritual, sem maior exigência quanto ao valor nutritivo, desde que o tempero tenha um gosto aprazível. Basta assistir a alguns dos inúmeros vídeos disponíveis na internet, nos quais o famoso professor exibe erudição e charme na sua parolagem, onde propaga uma ladainha boba e singela, que não rompe as camadas mais externas dos problemas que se propõe a discutir. Uma arenga composta de frases feitas e alogias correntes, salpicadas aqui e ali por uma passagem literária, ilustrada com o nome de um personagem da literatura clássica, um escritor ou filósofo do cânone cultural, mas cujo cerne, para quem quiser procurar, revela-se completamente vazio, desprovido de qualquer consistência, seja filosófica, seja sociológica.

Num dos vídeos assistidos, ele lança invectivas contra a intolerância, a falta de recíproca, a dificuldade dos brasileiros de conviverem com quem expressa pensamento diferente dos seus. Seja no futebol, em religião ou política, lamenta ele, não há mais a boa troca pacífica de críticas.

A primeira coisa que surpreende um ouvinte mais atento a esse discurso é o fato de um acadêmico misturar três instâncias tão distintas umas das outras. As preferências no futebol são movidas por uma paixão. Não há o que explicar quanto aos motivos que levam um indivíduo a se bater pelo time A ou B, e creio que ninguém se preocupa muito com isso. A religião é a necessidade de uma pessoa de se agarrar a algo que ela acredita ser superior e que vai dar sustentação a sua existência. Discutir religião é pôr em risco toda a estrutura de conceitos sobre os quais a pessoa organiza sua vida. É por isso que muitos crentes não aceitam o menor vestígio de dúvida sobre suas quimeras. Se essa resposta tem muito de condicionamento emocional, também é certo que se origina de um instinto de sobrevivência, e assemelha-se à busca de um anteparo diante de um perigo ancestral: o medo provocado pela consciência do abandono num universo que não se consegue conhecer integralmente.

Já a política não é uma simples aventura inspirada no alvitre pessoal. Trata-se aqui de um caminho escolhido em função de um processo de aprendizado cultural no que concerne aos assuntos que condicionam a vida em sociedade. Diferente do futebol, onde as escolhas são emocionais, e da religião, onde os motivos são místicos e de natureza espiritual, na política, as opções são baseadas nas afinidades com os projetos políticos que os partidos representam.

Essa postura do professor traz implícito aquele estereótipo de que política não se discute. É uma sentença criada para que as tramas políticas sejam dadas como naturais, coisas de esferas inatingíveis para o cidadão comum, Trata-se, evidentemente, de retirar os temas políticos do debate em lugares públicos, e condicioná-los aos espaços previamente consagrados a esse fim, como as instituições e a academia, pois como se sabe, nesses ambientes só entram os juízos permitidos por quem está no comando.

O segredo do sucesso do Karnal é a habilidade de traduzir os aforismos mais corriqueiros para o jargão acadêmico. Seus ouvintes são aqueles indivíduos que não querem ir além da casca mais exterior dos fatos e buscam uma justificativa para as suas fraquezas intelectuais. Quando uma pessoa não encontra energia para apreender a complexidade da vida, sai à procura de alguém que legitime e valorize a superficialidade e os preconceitos das ideias prontas. Só assim é possível entreter-se em bate-papos descontraídos com os amigos, pois se sabe que todos os provérbios são válidos e merecem ser respeitados. E mais ainda, fica-se com aquela agradável sensação de estar contribuindo para a paz e a harmonia dos costumes.

Naturalmente que não há o que se preocupar com o fenômeno atual das celebridades acadêmicas. A Karnalidade é venial; não passa de uma pregação para convertidos, seres ingênuos que confundem pabulagem com sabedoria, impressão pessoal com raciocínio, e encaram a busca do conhecimento como uma reunião de camaradagem, onde as nuances subjetivas da fala já são suficientes para atrair ouvintes predispostos ao êxtase da cumplicidade.

No entanto, sempre é bom acrescentar que as inferências da razão não se prestam só para entretenimento no happy hour. Elas são a causa do arrebatamento das atitudes e a justificativa das posições que o sujeito vai assumir na vida, assim como o fundamento dos interesses a serem defendidos. Até aí, nada demais. O problema é que entre esses encargos que as pessoas assumem na vida está a função de governar as outras pessoas e reger os destinos de todo mundo. E mesmo no caso de quem se abstém de pleitear altos postos nas instâncias administrativa e legislativa, suas assertivas podem servir de apoio para aqueles que assumem o controle do poder e determinam os rumos de uma sociedade. Conclui-se daí que o busílis não é a diferença das ideias, e sim os interesses que elas legitimam.

Demonstrar apreço por uma pessoa é um ato de civilidade elogiável em qualquer circunstância, mas não se pode cometer mais um equívoco, muito comum nos dias de hoje: considerar uma pessoa não é a mesma coisa que acatar como válido qualquer disparate que ela proferir. Respeita-se a integridade moral e física da pessoa discordante, mas sem a necessidade de levar a sério uma baboseira descabida só para manter a pose de cortesia.

A tolerância é antes de tudo uma estratégia de preservação mútua, mas é bom ter sempre em mente que as interações humanas vão muito além do papo furado de uma mesa de bar.

Sem Título-1

A classe do ódio

O brasileiro é um sujeito que ama o verbo odiar. Apesar de todos os clichês com pretensões antropológicas do país da alegria, do êxtase carnavalesco, do reino do improviso, do hedonismo praieiro, mesmo com todos essas abstrações para afirmar o contrário, o povo brasileiro sofre de uma necessidade congênita de detestar alguém, ou alguma coisa.

Quais as causas disso? Ressentimento? Alguma experiência atávica de maus tratos? Não sei. Mas posso afirmar que a malevolência exacerbada sempre busca um alvo no qual se projetar e realizar uma catarse paliativa. Uma curiosidade encontrada no dicionário Houaiss aponta para uma linha interessante de análise: o ódio é geralmente provocado por uma sensação de medo. Qual o monstro que polui as paisagens verde-amarelas com as manchas negras do pavor?

Percebe-se, também, que algumas circunstâncias ou pessoas, por vezes, canalizam esse mal estar da falta de civilização tupiniquim de maneira mais intensa do que o normal. Quais as variáveis que desencadeiam esse paroxismo das hostilidades? Isso só psiquiatras e os psicólogos poderiam responder. A sugestão que trago neste texto é a de que, no momento atual aqui no Brasil, o alvo preferido da perversidade brasileira é o Lula.

Certo! Alguém vai argumentar que as denúncias envolvendo o ex-presidente em esquemas de corrupção seriam suficientes para desejar seu fim político e até sua execução sumária se no Brasil houvesse a pena capital. A isso eu responderia que sim, as acusações são graves e, se acompanhadas de provas irrefutáveis, devem conduzi-lo também ao fundo de uma cadeia para pagar, junto com os outros, pelos crimes que tenha cometido.

Mas, uma avaliação que leve em conta o desenvolvimento histórico desse fenômeno vai constatar que essa raiva do Lula, que hoje atinge níveis patológicos, já existia antes mesmo de ele ser presidente. Além do mais, forçoso é anotar que essa repulsão expressa em consequência das supostas falcatruas não tem a mesma intensidade quando se volta para outros políticos, cujas delações são até mais graves.

Um aspecto interessante de investigar é que essa rejeição é detectada em todos os meios sociais com a mesma virulência. Só como exercício de reflexão eu arriscaria algumas hipóteses. E começo por afirmar que em cada degrau da escada social brasileira, essa cólera contra o Lula é gerada por um vírus diferente.

Comecemos pelas tradicionais oligarquias, que é mais fácil. Um grupo de pessoas que se acostumou a mandar, sem nenhuma contestação, por muitos anos, não imaginava que um dia fosse enfrentar o revés de compartilhar o poder. Quando as urnas anunciaram a vitória de um intruso, fugitivo da indigência do Sertão nordestino, os déspotas embrutecidos não se incomodaram muito, pois acreditavam que aquele ex-operário, que nem sabia falar o português correto, que nunca tinha exercido nenhum cargo importante, iria tropeçar nos próprios pés e cair antes do final do primeiro ano de governo. Mas o ex-analfabeto foi para o segundo mandato, e ainda elegeu uma sucessora, tornou-se um líder nacional e uma referência internacional de governo progressista voltado para questões sociais. A elite enlouqueceu e como não tolera que um forasteiro qualquer, estranho ao seu seleto grupo de comparsas, tente chegar ao comando da nação, está disposta a qualquer coisa para evitar novas ousadias. Nada mais compreensível. O medo, aqui, é o de perder o comando que sempre exerceu da situação.

Depois temos as invectivas que explodem na goela daquela gente que vive espremida entre o andar de cima e o de baixo, numa oscilação histérica entre o desejo de subir e a ansiedade pelo perigo de cair. Aqui começam os problemas, pois esse segmento social que chamamos de classe média é uma abstração sociológica, uma vez que abrange um número muito grande de extratos e não tem uma identidade bem definida. Por outro lado, não é todo cidadão mediano que sofre irritações da bílis. Existe apenas uma parcela desse povo intermediário cuja capacidade de entender o processo de formação da sociedade é totalmente suplantada por um ressentimento incontido, disfarçado de indignação política. É aquela parte que presta serviços mais diretos para o patronato e, por causa dessa proximidade, e também por juntar as migalhas que os endinheirados deixam cair, acredita ser contemplada com as benesses que caracterizam a riqueza. Como se sabe, qualquer criatura acostumada à submissão, e sem identidade forte, gosta de se sentir uma espécie de extensão do ser a quem obedece, assim como um bebê se considera o prolongamento da mãe que o alimenta. É exatamente por não saber o lugar que ocupa na escala social que esse contingente subalterno adotou o discurso dos ricos e se bate com unhas e dentes a defender valores que não possui, mas acredita possuir. Em consequência, não aceita, de maneira nenhuma, ser governada por um presidente estranho às esferas superiores.

Resta ainda meditar sobre o rancor daquelas pessoas que habitam nas camadas financeiramente mais baixas da sociedade, e que popularmente chamamos de pobre. Esse é um pouco ainda mais complicado, por isso concentro o foco sobre um dos aspectos: o fato deles odiarem um homem que construiu toda uma trajetória pessoal a trabalhar para que eles, os pobres, melhorem de vida. Parece um paradoxo que tais pessoas espanquem com tanto ardor alguém que tenta ajudá-las e, ainda por cima, lancem contra a vítima tantos insultos baseados em incriminações carentes de provas, que mais parecem fofoca do que uma etapa de uma ação criminal. Arrisco mais um palpite. O problema é a naturalização da miséria. Muitas pessoas que levam a vida nos limites da sobrevivência acostumaram a acreditar que a vida é assim mesmo, quem nasceu na penúria vai morrer na pindaíba, deus quis assim etc e tal. Aí aparece um homem que saiu de um ambiente tão miserável quanto aquele em que o sujeito está vivendo e diz a ele, olha, o pauperismo em que você vive não é natural, ele foi construído ao longo dos séculos, juntamente com uma série de mentiras sobre a santificação da vida simples, e você deve tomar uma atitude para se livrar dessa condição sub-humana, lutar por seus direitos. Aliás, você sabia que tem vários direitos que lhes são negados? Não? Pois é. Os mesmos homens que te mantêm nessa mendicância te enchem a cabeça de caraminholas, e te negam benefícios garantidos por lei. Vamos lá, levanta a cabeça, vamos lutar!

Pronto, foi o que bastou para aquele pobre coitado se ver enredado em muitos conflitos de ordem moral. Desobedecer ao meu chefe? Eu tenho de lutar? Mas a gente não ganha tudo de graça? E eis que sua resposta é o punho cerrado, a mão cheia de pedras para escorraçar aquele que evidenciou que a pobreza não é uma condição natural, que a gente pode sair dela se quiser. É só se unir a outros indivíduos da mesma situação e juntos formar uma barreira de resistência contra a exploração e os desmandos dos tiranos. Aí o pânico se instalou de vez. Muito pior do que as torturas da inópia são os limites impostos pela falta de coragem.

Com essas interpretações, conclui-se que, dos três segmentos citados, apenas o primeiro, a classe dominante, nutre uma aversão a um alvo externo, a um alienígena que ameaça seus interesses diretos. Nos outros dois casos, o ódio é consequência de uma visão deturpada do mundo em que vivem e desconhecimento das variáveis que condicionam uma existência humana. Em resumo, um ódio a si próprio.