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O VOTO SAGRADO

Época de eleições, oportunidade de escolher o novo presidente da nossa combalida república. Para fazer uma escolha consciente, nada melhor do que assistir a um debate entre os candidatos ao cargo máximo da nação. Pois foi o que eu fiz. Possuído de incomum força de vontade e determinação, postei-me frente à TV para acompanhar o primeiro encontro entre os presidenciáveis, promovido pela Band. Um evento bastante instrutivo na orientação das minhas preferências políticas. Além de divertido, é claro. Mas esse último aspecto eu considero natural, pois a finalidade máxima da televisão é o entretenimento. Entreter informando, instruindo. Propósito muito louvável. Registre-se que esse colóquio inicial correu normalmente, sem se perder a seriedade. Tanto que o mais citado no certame foi Deus que, ao que parece, é o padrinho de vários postulantes ao cargo de presidente. Além do cabo Daciolo, que começou todas as falas com um “ Glória a Deus” e terminou com um “ em nome de Jesus” ainda teve quem agradecesse ao Criador por estarem ali. Todo mundo, como se pode ver, em santa comunhão. Não sei se essa história de convocar o Pai e o Filho, como fez Daciolo, não vai parecer conluio familiar, mas isso é coisa a ser decidida posteriormente pelo Supremo. O Tribunal, não o Ser, pois nem mesmo no Judiciário brasileiro alguém poderia ser réu e juiz ao mesmo tempo, no mesmo processo.

Mas não vamos divagar com futuros problemas imaginários. O importante é avaliar o desempenho dos homens e uma mulher, todos tão respeitáveis, na conquista do nosso voto. E por falar em seriedade, o Álvaro Dias me surpreendeu. De início, me pareceu que ostentava sempre um sorriso no rosto, o que me deu a ideia de um homem muito feliz, talvez por estar ali entre iguais, tecendo altos elogios a si próprio, a ponto de não conseguir responder o que lhe foi perguntado e ainda extrapolar o tempo regulamentar. Depois percebi que não se tratava disso, era apenas um enchimento no rosto que o tornava parecido com o Coringa, o arqui-inimigo do Batman. Quase decidi a votar nele quando citou tente outra vez, do Raul Seixas, meu amado ídolo dos anos setenta. Mas depois refleti que a citação era apenas um conselho a si próprio, já pensando em 2022. Fiquei em dúvida.

Quanto ao já citado Daciolo, o enviado preferido de Deus, que discursou com o mesmo tom obsessivo de um pastor em pregação do Evangelho, teve uma performance bem impactante, a começar por trazer algumas informações bombásticas. Por exemplo, descobri que no Brasil existem quatrocentos bilhões de indivíduos, somente entre os caloteiros de impostos, dado bastante espantoso se considerarmos que a população total da terra, pelos meus cálculos, não chega a oito bilhões de seres, inclusive com os honestos. Não entendi se isso foi um simples equívoco provocado pela empolgação do momento ou se ele dispõe de informações secretas, ignoradas do grande público. Afinal, como já se disse, ele tem um padrinho político muito poderoso. O que é certo é que esse número pode diminuir bastante se elegermos o Ciro Gomes, com a promessa de limpar o nome de todos os cambalacheiros do Brasil.  Foi esse mesmo aspirante à Presidência, o Daciolo, que trouxe a público uma das denúncias mais graves até então: a existência de um complô latino-americano para instaurar o comunismo na região. Mas, não há motivo de pânico. Com ele governando pela glória de Deus e em nome de Jesus isso não vai acontecer. O Brasil em breve será a primeira economia do mundo, deixando o pobre Estados Unidos e mísera China na disputa pelo segundo lugar, como se fosse uma Copa do Mundo da economia, onde o Brasil é o franco favorito, pois como se sabe, Deus é brasileiro. Também me causou grande emoção saber que a nação brasileira foi mencionada no Antigo Testamento, pelo profeta Jeremias, 29, 11. Aliás, essa história de governar com Deus tem lá suas vantagens. Já que o Todo Poderoso é onipresente Ele pode ocupar vários ministérios ao mesmo tempo, o que levaria à economia de recursos, pois nem mesmo na republiqueta das bananas brasileiras um administrador público pode acumular salários.

A grande surpresa desse prélio verbal, para mim, foi o mito Bolsonaro que, diante dos demais colegas, se manteve discreto e apagado, sem aquela arrogância espalhafatosa que costuma ostentar nas suas aparições solo. Talvez por humildade e modéstia não quisesse vencer a batalha já no primeiro golpe, e se posicionar como um dos favoritos nas pesquisas, pois é certo que uma das armas mais eficazes da sabedoria é o silêncio. E conhecimento ele já demonstrou na entrevista do Roda Viva, sobretudo no tema sobre a escravidão no Brasil.

E por falar em favorito nas pesquisas, é necessário destacar que o Lula, líder absoluto em todas pesquisas de intenção de voto, foi impedido de participar, o que, aliás, foi registrado, tanto pelo mediador Boechat quanto por Boulos, que no seu primeiro depoimento começou com um “boa noite ao presidente Lula, que deveria estar aqui”, etc, etc. É bem verdade que parece meio estranho um confronto sem o principal concorrente, ainda que alguém que já ocupou o tão almejado posto por dois mandatos, tirou milhões de pessoas da miséria, e se tornou uma referência mundial em política social, não teria muito a o que aproveitar naquele teatrinho de fantoches dos cinquenta tons de Temer. Até acho que foi por isso que eles nem esperaram o outro sair da prisão para conversar. Ressalte-se que a ausência do ex-presidente na peleja não alterou em nada sua liderança, pois ele é indicado pelo povo, de quem emana o verdadeiro poder, embora o supracitado cabo tenha opinião diversa, e já tentou até mudar a Constituição sobre esse ponto.

Quanto aos demais pretendentes à vaga a ser deixada pelo golpista atual, não há muito o que comentar. A Marina Silva, que só aparece na mídia de quatro em quatro anos, continua insistindo que o Brasil precisa de reformas importantes, e para dar bom exemplo, começou por si própria: reformou o figurino e vestiu um casquinho branco, abandonando a antiga sobriedade de beata. Mas continua com o mesmo coque e o eterno discurso generalizante e sem conteúdo do tipo “Brasil precisa de mudanças profundas”. As ditas mudanças devem ser tão profundas que nem ela mesma conhece, pois não mencionou especificamente nenhuma.  O Alckmin, certamente o responsável por muitos telespectadores desligarem a televisão e irem para a cama mais cedo, berrou impropérios contra os corruptos, sem mencionar que ele próprio também é candidato a réu na Justiça Federal, por denúncias de trambiques em obras públicas.

Ao final da refrega, a conclusão mais óbvia é de que aqueles pobres cristãos não sabem muito bem o que dizem, muito menos o que fazem ao sonharem com um título tão importante quanto o de Presidente da República, sem demonstrarem a menor qualificação para isso. Mas o meu voto é sagrado. Se esse primeiro desafio não foi suficiente para eu decidir quem terá o privilégio do meu voto, ao menos não deixou dúvidas sobre quem não o terá.

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A TRAGÉDIA DOS FARSANTES

A idolatria pode conter algumas arapucas, nos casos em que o fã se entrega à veneração sem conhecer todo o trabalho do ídolo. Enquanto permanece nesse estado de semiconsciência, o idílio pode durar sem reveses, desde que não se vá querer conhecer tudo da vida do ser idolatrado,

Foi o que aconteceu comigo em relação ao cronista Rubem Braga. Meus conhecimentos sobre esse clássico da crônica brasileira do século passado se reduziam a alguns textos mais badalados que se tornaram leitura obrigatória para qualquer admirador da arte da escrita. No caso, a obra prima, cuja leitura eu já desfrutara é O Conde e o Passarinho, uma verdadeira joia literária forjada num jornal. Essa crônica dá título a uma antologia surgida nos anos trinta, contendo vários textos com o mesmo nível de elaboração estética.

Tivesse eu me mantido naquele parque onde um passarinho sorrateiro surrupiou a medalha de um conde descuidado e tudo seria mais fácil. Mas eu sou um leitor voraz, minha curiosidade intelectual não me permite permanecer na zona de conforto do já conhecido, ainda que isso implique em riscos de danos irreparáveis. Eis que um dia entrei numa livraria e me deparei com uma nova edição, em três volumes, das crônicas do Rubem Braga. Não tive a menor duvida, saí com os livros, já no antegozo da leitura.

Trata-se de uma compilação de textos reunidos por tema, e num deles encontram-se as crônicas de conteúdo político. Sendo eu um leitor muito interessado nos assuntos da política brasileira, os atuais e os do passado, escolhi exatamente essa parte como entrada naquele universo desconhecido. E comecei a sentir uma grande decepção. Não exatamente pela qualidade estética dos escritos. O esmero na escolha da palavra, a erudição, e o incomparável senso de humor estão lá em todas as páginas do livro. O problema é de conteúdo. Rubem Braga se mostra um antigetulista ferrenho, cativo de um ódio apaixonado, não só por Vargas, mas por todas as propostas políticas do trabalhismo. Basta que uma ideia seja apresentada por um dos aliados de Vargas e lá vem o velho Braga a atacá-la com todo tipo de argumento, sem o menor pudor de recorrer às falácias do senso comum ou motivações subjetivas. O mais visado dos discípulos de Vargas é, sem dúvida, o Jango, a quem chama de canalha, demagogo, e outros adjetivos que caem tão bem a muitos políticos brasileiros. O problema é que essas invectivas existiam antes mesmo de Jango ser presidente, apenas pela atuação no governo de Getúlio Vargas. Ou por ser trabalhista.

Para um cronista com tanta virulência nas críticas aos abusos do pai dos pobres, seria de esperar que o regime militar, instalado com o golpe de 64, fosse uma fonte inesgotável de inspiração para impropérios e achaques. Ledo engano. Para começar, o nobre cronista se refere à quartelada golpista como revolução, legitimando a versão oficial dada pelos oficiais protagonistas do golpe, e adere ao discurso de que o movimento foi uma ação necessária para livrar o Brasil da influência do getulismo; e não perde a oportunidade de tecer elogios, ainda que tímidos, à coragem e à ousadia dos líderes da revolução, que assumiram a tarefa de reconduzir o Brasil no rumo perdido da história.

É bem verdade que há vários casos de denúncias veementes das prisões arbitrárias e das torturas, que já eram do conhecimento de quem quisesse saber. Mas até nisso o autor se equivoca. Os desmandos são atribuídos a alguns oficiais irresponsáveis que, por descuido ou por pirraça, excederam suas funções. Em momento algum o autoritarismo aparece como um elemento estrutural do regime. E o mais curioso é que o cronista se define em vários momentos como um homem de esquerda, que na juventude até fez parte de um partido de tendência socialista.

Não é do meu conhecimento que o autor estivesse a serviço direto de algum interesse ideológico, como é muito comum em profissionais da imprensa de hoje. A sensação que dá é de um homem que viveu ao alcance dos principais episódios do século, sem entender nada da natureza dos fatos. Os políticos de oposição a Getúlio são sempre íntegros, suas atividades sempre orientadas por um sentimento de dever, preocupados apenas com os interesses administrativos. Motivação ideológica, associada pelo autor a demagogia, canalhice, oportunismo, era só para políticos de esquerda, como se na esfera do poder algum agente pudesse se eximir de ideologias. A balela de um governo puramente técnico e administrativo já existe há bastante tempo no Brasil.

Esse perfil do autor, que para mim é novo, não desqualifica as demais produções, sobretudo as que não falam de política, e O Conde e o Passarinho terá sempre lugar reservado em qualquer biblioteca que se preze. Mas não se pode cometer aquele erro muito comum nas avaliações de cunho personalista de assimilar como verdade inquestionável tudo o que é dito por um autor que admiramos em função de outro trabalho. Resta apenas uma curiosidade para efeitos de divagação. Considerando-se que a inteligência intelectual é em grande parte incentivada pela capacidade sensorial de captar as vibrações do mundo que nos rodeia, como é que um homem com tanta sensibilidade para perceber nuances da condição humana, não conseguiu entender o que estava acontecendo na política brasileira. As detenções e humilhações sofridas nos anos 30 nas mãos dos agentes da repressão do Estado Novo poderiam fornecer uma pista, e as desconfianças contra Getúlio Vargas seriam até legítimas. Mas daí a não perceber que o getulismo não se reduziu a uma execrável ditadura leva-nos a supor que as imprecações do autor têm muito mais de trauma do que consciência política.

Não é necessário grande exercício intelectual para perceber que esse tipo de postura, de jornalistas cumprindo função difamatória, ainda permanece muito vivo na imprensa de hoje, onde as conquistas dos governos de esquerda foram diluídas nas denúncias de corrupção, ainda que muitas     delas sem provas convincentes.

Se é verdade que uma história trágica se repete como farsa, as peripécias históricas que marcaram o período que vai da ascensão de Getúlio Vargas ao golpe de 64 estão se repetindo hoje com uma fidelidade digna de uma imagem de espelho, mas os supostos críticos da imprensa tradicional, desempenhando o papel de farsantes, continuam sem entender nada, e isso pode nos conduzir a mais uma lamentável e irreversível tragédia.

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INSEGURANÇA PÚBLICA

A violência é o tema mais premente da vida atual. Ela se instalou na sociedade moderna como uma entidade abstrata, onipresente, invadindo todos os domínios do nosso cotidiano. Não há uma autoridade que, nas suas aparições públicas, não mencione a urgência de medidas na área de segurança pública. Mas, até onde vai a sinceridade desses discursos? Eis um bom exercício para ocupar a mente.

Impossível pensar o drama da violência sem avaliar o papel da mídia na divulgação dos episódios que extrapolam os limites da boa convivência.  A mídia precisa de sensacionalismo para causar impacto e prender por mais tempo a atenção do telespectador, de maneira que, aquilo que se vê diariamente no noticiário, não é o acontecimento violento, mas uma narrativa feita sobre ele. E essa narrativa é sempre bem articulada pela edição das imagens, legendas, a duração, a repetição dos detalhes mais significativos. Tudo isso faz com que o destinatário da notícia se distancie do caso concreto e se concentre na montagem. O resultado disso é conhecido de todos: reações sentimentalistas, imprecações, histeria geral.

A relação do sujeito com um objeto passa pela experiência direta sujeito/objeto, mas também pela experiência indireta, que chega ao indivíduo através de testemunhos e relatos de terceiros. No caso da violência exposta pelos noticiosos televisivos, essa relação indireta passa a prevalecer pela manipulação das informações. A mídia elabora uma distorção dos fatos com a estratégia da sonegação ou excesso de informações, tornando a experiência indireta superior à experiência vivida. Pessoas muito carentes, com pouca bagagem existencial e, portanto, pouca capacidade crítica, precisam de emoções extraordinárias para preencher suas vidas, se deixam facilmente influenciar pelo espetáculo apresentado em forma de jornalismo. A experiência vivida acaba se diluindo na produção extravagante que altera a essência do ocorrido. E as pessoas se tornam cada vez mais manipuláveis.

Eis aí uma hipótese para pensar a dessintonia entre a veemência da fala das autoridades e a eficácia das medidas tomadas por elas no combate à violência. O caos social gerado por esse estado de guerra em que vivemos hoje é um forte aliado dos governantes no controle de seus governados, pois uma pessoa com medo é muito mais obediente. Num país onde reina a mais completa instabilidade constitucional e a Constituição Federal é rasgada diariamente pelas próprias autoridades que deveriam defende-la, fica muito difícil recorrer à proteção da legalidade, pois, no Brasil de hoje, nem mesmo o indivíduo mais ingênuo acredita na aplicação da lei. Então, sobra o recurso de causar pânico geral, ou se aproveitar do que já existe naturalmente.

Outro ponto que merece ressalva para entender a falta de interesse em diminuir o nível de selvageria que tomou conta dos grandes centros urbanos, é que instaurar a paz social não é uma prioridade da elite endinheirada, pois ela não vive sob a ameaça de bandidos. Os ricos moram e trabalham em locais muito bem protegidos, se deslocam em carros blindados, com motorista e seguranças armados. O constante medo de assalto e de perder seu abençoado patrimônio é coisa da classe média que, aliás, é quem paga os maiores tributos para que os ricos desfrutem de todo esse conforto.

É por isso que nenhum candidato a cargo eletivo vai se eleger com a pauta da segurança pública. É ingênuo, se não um caso de má intenção, acreditar nesses fanfarrões que a cada ano eleitoral aparecem para esbravejar estultices sobre medidas de combate à criminalidade. A retórica que eles decoram e repetem como papagaio é um palavrório cheio de ódio, que só emociona algumas fileiras da classe média, aquelas que acreditam que conflitos sociais serão apaziguados com polícia, e que se vai curar as chagas da violência e da corrupção, armando cidadãos, construindo prisões e encerrando marginais e corruptos na cadeia. Mas não afeta os ouvidos daqueles que estão controlando as regras do jogo político e que realmente decidem quem vai governar o país. Para esses, a insegurança é muito mais segura.

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O BRASIL QUE EU NÃO QUERO

Ano de eleição a gente sempre se põe a pensar no que deveria mudar no país, e a conjeturar quais políticos poderiam promover essas mudanças. Tanto que até a tv Globo se empenhou numa campanha para vislumbrar as expectativas dos brasileiros para o próximo pleito. Durante vários dias, no noticiário do horário nobre, lá está o William Bonner a explicar aos telespectadores as condições de participação. O participante deve mandar um vídeo de quinze segundos, gravado no celular, com o título “o Brasil que eu quero”, falando sobre suas esperanças para o país. E não esquecer que o aparelho deve estar deitado, para que a imagem saia com melhor qualidade.

Parece, no entanto, que a tentativa não deu muito certo. É que o brasileiro é um povo muito mal-agradecido, vive reclamando que se sente excluído das decisões, mas quando é chamado a participar de alguma coisa que pode trazer benefícios a ele próprio, chega fazendo piadas, dizendo desaforos, ou simplesmente ignorando a boa vontade dos outros. Andam dizendo por aí que os poucos que aceitaram o convite mandaram vídeo falando mal da emissora; que ela apoiou o golpe que derrubou a Dilma; que quer a todo custo acabar com a Previdência Social, e depois vem fazendo campanhas bobas. Gente ingrata, essa! Conclusão, a ideia global fracassou.

Mas a intenção era boa. É bem verdade que eu não entendo o que se poderia dizer em quinze segundos que valesse a pena de ser transmitido em horário de maior audiência televisiva. Mas mesmo assim, resolvi apoiar a nobre iniciativa. Só que eu não sei filmar com celular e muito menos ainda postar vídeo num site, então vou recorrer ao único meio de expressão que sei usar, a escrita. Não tenho grandes esperanças de que o Bonner vá ler esta humilde colaboração no Jornal Nacional, mas não custa nada tentar. Então, comecemos pela questão crucial: como é o Brasil que eu quero? Só como especulação inicial, num país digno de se viver, os habitantes não seriam tão teleguiados, como robôs, a ponto de o tempo ser cronometrado pela programação transmitida. Conheço gente que fala assim: no horário da novela eu estou em casa; durante o noticiário eu faço uma comida; e na hora do Corujão eu vou dormir. Também seria interessante que as pessoas não naturalizassem tudo o que ouvem e assistem na tela, pois por trás da matéria supostamente neutra tem um editor que a transforma em fato noticioso ou propaganda ideológica. Veja-se a insistência da própria Globo em realçar o famigerado déficit da previdência e a necessidade da reforma. E a descarada só chama para entrevistar os palpiteiros que dizem o que ela quer que seja dito, ou seja, é necessário fazer a reforma da previdência, o que, na prática, significa acabar com ela. O que os jornalistas sempre esquecem de dizer é que as organizações Globo, que atuam em vários setores do mercado, também administram negócios na área de previdência privada. Então, não é de se duvidar que no Brasil do futuro, a família Marinho receba de presente o monopólio da previdência privada, que hoje é exercido em carácter de benefício social pelo governo federal. Tudo isso como boa recompensa pelos trabalhos prestados de apresentar um discurso político como se fosse uma verdade palpável e comprovável. Por isso, no Brasil que eu quero, haveria um compromisso ético com a notícia por parte das empresas jornalísticas, e uma clara distinção entre informação útil e propaganda ideológica.

Outra característica muito importante de um país ideal seria a humildade dos políticos, para que um candidato que perdesse uma eleição para presidente esperasse civilizadamente o próximo pleito para tentar a sorte novamente. É sabido que em alguns lugares do mundo, o candidato derrotado não aceita esperar e se une em conluio com algum traidor do governo eleito e derrubam aquele que o povo escolheu para governar o país, inclusive com o apoio escancarado de algum grupo detentor de concessões televisivas, que venha a se beneficiar da situação.

Seria importante ainda observar que nesse país de perfeições idealizadas a que me refiro não haveria nenhuma emissora de televisão que ditasse regras de comportamento, hábitos de falar, impusesse decisões políticas e nem os tais políticos trogloditas habituados desde sempre a mandar sem dividir o poder. Mas, isso não passa de fantasia, que não merece atenção de quem vive preocupado com coisas tão sérias, tais como decidir quem vai ser o novo presidente do Brasil.

Então, para responder à questão inicial, cheguei à conclusão de que o Brasil que eu quero não está no Brasil. Quer dizer, é tanta coisa para mudar, que o melhor mesmo é eu me mudar para outro país, já que aceitar tudo calado é impossível. E certamente o meu Brasil desejado não é o mesmo que o Bonner quer. E ele tem mais poder do que eu.

Dos crimes e dos castigos

Dos Crimes e Dos Castigos: Previsões para 2018

2018 é daqueles anos que acontecem a cada quatriênio, quando dois acontecimentos incendeiam os ânimos dos brasileiros: a Copa do Mundo e a escolha do novo Presidente da República. Quanto ao primeiro, o detalhe mais digno de registro é que acontecerá na pátria de Dostoiévski, aquele autor de Crime e Castigo, e do compositor Tchaikovsky, gênios da humanidade que instigaram a formação cultural do golpista Temer, conforme o próprio declarou em visita a Putin.

Tenho impressão que, este ano, o interesse pelo campeonato está meio enfraquecido, não sei se pela distância do país sede, se pela estranheza do idioma russo, ou se porque a lembrança do fiasco do 7×1 ainda provoca algum constrangimento. Sem falar na hipótese de que o sufrágio de outubro já está canalizando todas as energias dos brasileiros para disputa pelo cargo de presidente do Brasil. Tanto é assim que, até agora, ninguém emitiu nenhum palpite sobre o novo campeão mundial. Lembro que no último torneio aqui no Brasil, por essa época, a grande dúvida era: vai ter copa? E os otimistas não só respondiam positivamente como ainda vaticinavam que a Seleção brasileira finalmente conquistaria o tão sonhado hexa. Hoje não tem nada disso. Mas em compensação, na política, quantas previsões…

É bem verdade que não é muito difícil antecipar os resultados. Desde o golpe de 2016 que os fatos vêm se sucedendo numa ordem muito lógica para que o governo brasileiro seja entregue para a Direita, aquela que há muito tempo não ganha uma eleição, e perdeu a paciência para competições eleitorais. O primeiro passo era derrubar a Dilma, isso foi feito, até com certa facilidade. O próximo seria prender o Lula, para impedi-lo de concorrer. Esse ponto apresentava um grau mais elevado de dificuldade, mas nada que um juiz adestrado em escolas superiores do primeiro mundo não conseguisse superar.  Tanto que a condenação já está pronta, só falta a execução. Mas tudo tem seu tempo certo. Até na Bíblia Sagrada diz que há o tempo de plantar e o de colher. E a classe que dominou o país por 500 anos finalmente vai colher os frutos do plantio que vem fazendo desde 2014: a retomada do poder no Brasil.

Também não é muito difícil prever o titular que vai vestir a faixa presidencial em 2019. Eu aposto em Geraldo Alckmin, por um motivo muito simples: o conservadorismo político não tem outro representante para sentar na cadeira presidencial, visto que a carreira do Aécio virou pó, o Serra caducou desde que levou uma taça de champanhe na cara, e o Dória…. Bem, o Dória precisa aceitar que os mais velhos têm prioridade de atendimento e aprender a esperar na fila até ser chamado. Em resumo, o atual governador de São Paulo é o menos enlameado até agora nesse poço de lama que se tornou a política brasileira. Uma manchinha aqui outra ali, que a mídia, sempre solícita, saberá encobrir durante o pleito.

De todos os presidenciáveis atuais, o mais improvável é o Bolsonaro. Não consigo entender o medo que esse aprendiz de Hitler desperta em certas pessoas; muito menos a esperança de uma parcela da população em relação a ele. Ingenuidade? Falta de visão política? Não sei. Sei é que a mim ele não causa o menor receio. E não por eu nutrir qualquer simpatia, afinal, eu tenho alguns neurônios que ainda funcionam. É por ter a convicção de que não há a menor chance de termos de novo um troglodita à frente da nação. É bem verdade que há uma multidão de anencéfalos loucos para digitar o número dele na urna. Mas é certo também que ninguém chega à presidência se não tiver o apoio de setores importantes da sociedade civil, como os empresários, a mídia, e esse indivíduo não tem unanimidade nem na caserna de onde saiu. Ele só anda espanejando imbecilidades pelo país porque a campanha ainda não começou pra valer. Assim que for dada a largada para a corrida ele não dura uma semana como preferido do eleitorado. Se por acaso ele estiver apresentando algum risco para o candidato dos poderosos de sempre, no caso o Alckmin, basta uma única edição do Jornal Nacional para ele recolher os coturnos e retornar à insignificância que sempre foi sua principal marca. Há algo tão evidente que chega a ser desnecessário falar, mas tem gente que não vê: não faz o menor sentido investir tanto em um golpe para derrubar a presidente eleita, prender o principal concorrente, e depois entregar tudo nas mãos de um debiloide que só sabe esbravejar ofensas e ameaças para todos os lados.

Já com o Lula, que apresenta um perigo real para a ganância da elite econômica, o noticiário global não surtiu o efeito esperado de tirá-lo fora do páreo e os suseranos deste feudo tupiniquim precisaram recorrer a um aparato jurídico inaugurado na época da pós-verdade, onde o que importa é a versão que mais satisfaz as necessidades de quem determina as regras do jogo. Enfim, vivemos no país do castigo sem crime, onde os verdadeiros crimes permanecem sem castigo.

Com essas expectativas para a política, a solução é abrir um livro de Dostoiévski, ouvir um CD de Tchaikovsky, e já que o Neymar é 100% Jesus, rezar para que a equipe verde-amarela pelo menos nos poupe de mais um vexame mundial.

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As Palavras e As Pessoas

Eu nunca me dediquei a esses estudos sobre a relação entre as palavras e as coisas. Tema de especialistas, filósofos, linguistas, complexo demais para a minha discreta capacidade intelectual. Mas gosto de observar os humanos e vislumbrar as vinculações que eles estabelecem com as palavras.

A linguagem é condicionada pelo status social. Isso é do conhecimento de qualquer um que já tenha lido alguma coisa sobre esse tópico. Mas o que me deixa pensativo é perceber que algumas criaturas acham que basta fazer uso de determinado vocábulo para dominar a realidade que ele denomina. Por exemplo, usar um termo do jargão erudito para se ver possuidor de erudição. Ou então, assumir os hábitos de fala dos ricos para se sentir titular de polpudas contas bancárias. Existe também o linguajar dos vanguardistas. Não quer se sentir um conservador antiquado que perdeu o bonde da história e não tem meios suficientes para correr atrás? Muito simples: basta observar o palavreado que os moderninhos usam e repetir igualzinho, que nem papagaio, e, pronto, tudo resolvido. Não importa que defenda ideias retrógradas, que se deixe levar por devaneios saudosistas, com saudade dos velhos tempos.

O importante é expressar tudo isso com um vocabulário renovado. Por exemplo, nos dias atuais, acabar com as leis que garantem os direitos sociais não é retroceder ao tempo dos escravos, quando uma multidão era excluída dos recursos básicos de sobrevivência. Isso é visão de gente sem horizonte, que não mira o futuro. A dicção correta, usada por profissionais que entendem do assunto e estão em sintonia com os novos tempos, é flexibilizar. O processo, assim como o resultado, é o mesmo, mas a maneira de dizer é mais bonita e não causa tantos danos. Então, não vamos atacar os necessitados e expropriá-los de seus benefícios mínimos, vamos livrá-los da dependência do estado e torná-los cidadãos autônomos e livres para gerirem a própria vida. Em qualquer das alternativas, as vítimas vão morrer de fome da mesma maneira, mas o novo estilo expressa uma ideia mais nobre.

Essas divagações se enfiaram minha cabeça adentro durante um trajeto dentro de um ônibus, em que o tédio da paisagem já muitas vezes vista despertou em mim um desejo de viajar por outras dimensões diferentes, sem os solavancos causados por uma rua esburacada. Num ato de quase rebeldia, meus olhos saíram pela janela do coletivo e se espalharam pelos letreiros das casas de comércio, na esperança de encontrar alguma coisa nova. Tão curiosos estavam que pousaram em cima de uma placa onde se lia bike store, em letras coloridas e bem grandes. Lá eles se detiveram pelo tempo em que novos passageiros embarcaram, ao fim do que o ônibus seguiu viagem. De volta, comunicaram ao cérebro o que viram, e este, na ânsia de se ocupar com algo diferente, se pôs a matutar. Por que bike store e não loja de bicicleta, se as duas dizem a mesma coisa, e além do mais, em português, o anúncio seria entendido por todo mundo. Sim, há de se levar em conta que alguns brasileiros, os desvalidos da sorte, não sabem o que é bike nem store.  Pois aí é que está o busílis, pensei eu de imediato. A loja não é para compradores humildes, aqueles que andam de bicicleta, e sim para quem sabe o que é bike store.

Aí ocorreu-me uma explicação para o fenômeno. Antigamente, a bicicleta era um meio de transporte utilizado por operários para se deslocarem para o trabalho. Andar de bicicleta era atestado de pobreza e demonstração de que o condutor trabalhava num emprego modesto, normalmente serviço pesado, como pedreiro, ou algo assim. Mas aí, veio a moda do esporte, vida saudável, coisa e tal. E aqueles viventes mais antenados, que gostam de andar sempre à frente do seu tempo, (quando eu era criança, dizia-se prafrentex) resolveram que era melhor perder peso do que perder a onda do momento e se atracaram a fazer exercícios. Um dia, começaram a viajar para o mundo civilizado e descobriram uma coisa fantástica. Lá, os habitantes de todas as condições sociais andavam de bicicleta, tanto o cavalheiro de terno e gravata, com sua pasta de executivo amarrada ao bagageiro, quanto a secretária, que desfilava sua elegância muito bem equilibrada em duas rodas. E também o velho aposentado e o adolescente colegial. A bicicleta era mais usada do que o carro, que alimenta os sonhos de consumo daqueles consumidores que podem viajar porque trabalham em empregos bem melhores que o dos ciclistas conterrâneos. Um dia, no meio da horda de turistas que invadem anualmente o continente europeu, alguém teve um lampejo de criatividade e sugeriu: e se, lá no Brasil, a gente passasse a pedalar como forma de exercício, para passear aos domingos no parque, uma distração bem chic, igual a essa que o povo tem aqui? A outra viajante respondeu: uma bicicleta? Vão pensar que a gente é operário de obra. Instalou-se o impasse e a expectativa de contemplar o mundo do alto de duas rodas já ia quase derrapando, quando uma integrante do grupo, uma moça que frequentava um cursinho intensivo de inglês para ir a Miami comprar os presentes de natal, apontou uma saída. Ia pesquisar como se diz bicicleta em inglês. Empenhou-se numa busca no Google translator e a solução veio como uma simples pedalada. E foi assim que gente elegante e de boa família, cidadão de bem, passou a andar de bike e deixou a bicicleta para aqueles trabalhadores de baixa extração social. É bom lembrar que, para esses, não importa muito o léxico que dá nome à coisa. Isso só interessa para quem quer subir na vida sem muito esforço e descobre que aquilo que poderia conduzir a esferas mais altas está associado à ideia de desprestígio. Então, é necessário criar uma nova nomenclatura para afastar a coisa do meio que a contamina com pobreza e falta de requinte social.

Foi isso que aconteceu para que uma simples bicicleta se transformasse em bike. Pode-se dizer, então, que os novos ciclistas viajam na palavra, que é um veículo de transporte bem mais seletivo e muito mais seguro.