romero brito

Sem Deus e sem Musa

Eu queria escrever alguma coisa grandiosa neste começo de ano, tecer algum encômio a essas extraordinárias realizações que ocupam os cidadãos de bem do nosso país. É sabido que quando troca um dígito no calendário anual, as pessoas se nutrem daqueles sentimentos mais nobres e pensam em passar todo o ano novo dedicadas a tarefas importantes para o bom andamento da raça humana, e seria bem gratificante poder retomar minha produção de textos em sintonia com essas sumidades mais destacadas da nossa civilização

Mas acho que não fui tocado por esse espírito numinoso que orienta a vida dos meus contemporâneos e conterrâneos, e as musas, por mais que eu rogasse, não atenderam as minhas súplicas, nem me guiaram no caminho necessário para fazer tanto. Me sinto abandonado pelas divindades neste nosso mundo, tão pródigo de talentos para uns e com tanta parcimônia para outros.

Por vezes me sinto injustiçado. Mesmo tendo nascido numa família católica e sido amamentado sob os ensinamentos da mais autêntica doutrina cristã, e nunca ter me afastado um único centímetro da retidão que nos leva à presença dos Bem-aventurados; e ainda por cima, ter passado os primeiros anos da minha infância num sítio sortido de árvores frutíferas, nunca vivi um único momento de epifania, desses que acontecem às almas escolhidas pela Potestade. Já nem digo que Jesus me aparecesse no pé de alguma das árvores que nos fornecia alimentos para o organismo em épocas de penúria. Nosso Senhor certamente teria gente mais importante para visitar. Mas um simples sinal, como aquela imagem da cruz em chamas que apareceu ao imperador Constantino e o inspirou a abraçar o Cristianismo e impor a fé cristã a todo o império romano, ainda que ele próprio continuasse a cultuar os antigos mitos e deuses pagãos.

Nada disso me foi concedido, e por isso eu vivo preso na jaula desta insignificância, sem aptidão nenhuma que me eleve um pouco acima do comum das criaturas de Deus. É de se pensar que o Todo Poderoso criou os seres todos iguais e mandou que eles conquistassem as alturas espirituais e em seguida também atingissem os picos mais altos da escala social, mas, não sei se por descuido ou por algum desígnio mais misterioso, não forneceu escada nem elevador pra todo mundo, por isso alguns seres de índole mais lenta, no caso eu, foram deixados para trás, e os primeiros postos na pirâmide foram ocupados por grandes homens que, uma vez acomodados nas alturas, não descem nem para fazer suas necessidades mais básicas, o que acaba sendo bom para os aqui de baixo, que muitas vezes, só o que encontram para tocar a vida em frente são as sobras  que despencam, ou são expelidas, lá de cima.

Além dos parcos recursos naturais, a natureza ainda me impôs algumas limitações psicológicas, como as fobias. Com exceção do banho diário no verão, e um ou dois por semana no inverno, eu faço tudo o que posso para evitar a água. Água pura, nem beber eu consigo, o que me impõe a ingestão de outras beberagens mais palatáveis, como a cerveja e vinho, para suprir a necessidade de líquido no organismo. Não fosse isso, poderia me lançar em algumas aventuras dignas de uma narrativa épica para compensar minha falta de habilidade para frequentar os círculos mais altos da sociedade. Por exemplo, estive a ponto de tomar uma grande decisão e embarcar no cruzeiro dos terraplanistas, esses geniais discípulos do grande filósofo Olavo de Carvalho, um exemplar patriota que mora há anos dos Estados Unidos pra enriquecer seus conhecimentos sobre o torrão natal. Pois essas mentes inquietas vão se dedicar a uma das tarefas mais importantes dos últimos milênios para a ciência da navegação, da aviação, da física, da geografia, da astronomia, da filosofia, e com certeza, da psiquiatria: eles vão provar de uma vez por todas que a terra é plana e que o sol é que gira em torno dela. Calem-se Galileu, Copérnico, Newton, Arquimedes, iluministas, escolásticos, metafísicos, homúnculos insignificantes, todos influenciados pelos delírios das superstições marxistas, agora é a vez do sistema solar ser administrado e iluminado pelas luzes superiores de Olavo de Carvalho.

Seria essa uma grande chance para eu galgar alguns degraus nessa escada invisível que nos alça aos píncaros da glória, ao participar desse momento histórico, que derrubará todas as crenças e superstições dos ingênuos cientistas. Já imagino quantas curtidas nas fotos do Facebook, uma selfie mostrando os limites da barreira do plano, que antes se acreditava um globo, de onde não se pode mais avançar, sob o risco de cair no mais profundo dos abismos e no ridículo. Os registros fotográficos, claro, teriam a legenda EU ESTIVE LÁ. Além disso, imagino, que texto maravilhoso eu escreveria, uma autêntica narrativa de viagem desbravadora, que desbancaria Saint-Hilaire, Barlaeus, Nieuhoff, Lindley, Taunay, Staden, só para mencionar apenas os que estiveram nestas plagas abençoadas do Brasil. Então eu poderia dizer a esses escrevinhadores do passado, recolham suas engenhosas marandubas que agora eu trago a única, a maior, a verdadeira descoberta.

Mas não. Eu não nasci para brilhar no palco, meu lugar é a plateia. O que me resta é permanecer na arquibancada do circo e esperar para bater palma e gargalhar quando as performances começarem. Mesmo assim, ainda alimento uma esperança, porque, como todo mundo sabe, o Brasil é um país de muitas possibilidades.

foto: https://www.conversaafiada.com.br

fascismo

A VISITA DA VELHA SENHORA

Os generais já tinham ido embora mas havia ainda o medo que que voltassem. A gente até cantava uma canção que dizia assim: O fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante, fascinada. Nessa época, o único sonho de todo o brasileiro era a volta da normalidade, da democracia. Era tão intenso o nosso sonho que, aos primeiros sinais de chegada de uma visitante tão ilustre, começamos a festejar, e nem percebemos que a velha senhora estava doente, enfraquecida e precisou ser conduzida por uma guarda de honra, da qual nem suspeitamos. Quando nos damos conta de que esses agentes eram, na verdade, vigias, o sonho virou um pesadelo. Como naquelas histórias macabras em que uma aldeia se enfeita toda para receber a visita de uma figura muito importante, e depois tudo vira tensão e terror.

Ela chegou, devagar, oscilante. Ou melhor, os anfitriões a receberam assim, um pouco por falta de prática de convívio, outro pelo temor de ofendê-la ou machucá-la. Mas os receios se dissiparam, ela se instalou na vida de todos e a audácia substituiu o medo, a empatia tomou o lugar da desconfiança, pois descobriu-se que se tratava de uma senhora muito amorosa, compreensiva e tolerante, recebia de braços abertos a todas as pessoas que a procuravam, os que esperavam por ela, os que queriam conhecê-la e até os simples curiosos sem muita convicção. Ela tinha sempre uma palavra carinhosa para recebê-los. Instalou-se um clima de harmonia tão intenso que logo a cidade estava toda em festa, na celebração da diversidade e do gozo da existência.

Mas alguns daqueles convivas que se juntaram aos festejos se mantiveram sentados, meio escondidos num canto, observando com um olhar muito desconfiado aquela apoteose da vida que fluía nos sorrisos, nos abraços. De início, deram para se queixar do barulho, depois começaram a emitir comentários maldosos sobre as maneiras e os comportamentos que achavam inadequados. Sem que ninguém desconfiasse, aproximaram-se daqueles agentes que conduziram a visitante, em colóquios ao pé do ouvido, inaudíveis no meio da algazarra comemorativa. E quando consideraram que as comemorações se estenderiam por tempo superior ao que lhes parecia adequado, se levantaram em protestos. Eles queriam acabar com a nossa folia, sob o argumento de que aquele rebuliço denegria a imagem da comunidade, que até então se tinha por muito séria e respeitosa. Foi aí que nós prestamos maior atenção naqueles indivíduos macambúzios, que não se divertiam, apraziam-se numa abstinência de qualquer bebida que pudesse tirá-los da pose austera. E notamos também que aquele conluio com os supostos guias já vinha de longe, de antes da chegada deles.  A lição que aprendemos, com dor e decepção: a alegria contagiosa, a espontaneidade, a fluidez da existência livre, sem pejos, assusta muito os espíritos presos, aqueles que vivem submetidos aos limites precários das convenções e da moral. E, hoje, esses espectros sonâmbulos tomaram conta da casa e querem suprimir qualquer explosão de divertimento que não esteja de acordo com algumas regras pré-estabelecidas. Pois para esses deserdados da vitalidade essencial, há uma divisão bem clara entre o certo e o errado, o bem e o mal, o bom e o ruim. E a nação que os adeptos dessa ordem planejam é um agrupamento uniformizado, unívoco, defendendo as mesmas ideias e repetindo os mesmos discursos, assim como os fiéis numa igreja, na hora da missa, que balbuciam em coro apenas as réplicas de uma ladainha ritualística. Os espíritos rasos não gostam de nada diferente, seja nas ideias, nas falas, nas maneiras. Seus consortes partilham o ideal de uma população bem-comportada, bem-educada, bem vestida, mas essa noção de bem é apenas a projeção de suas próprias preferências. Eles ignoram a ética e se agarram à moral para planejar uma sociedade supostamente perfeita, que não seria nada mais do que um espelho multiplicado de suas próprias personalidades.

Umas das características mais marcantes dessas mentes atrasadas, fanáticas pelos bons comportamentos, é tachar de radical e deselegante qualquer expressão verbal que coloque em xeque aquela harmonia elegante estabelecida como o jeito correto de viver. Por isso, uma das primeiras atitudes tomadas ao se apossarem da brincadeira foi estabelecer os assuntos que se podia discutir em público. Sob o pretexto de manter a paz e harmonia entre os cidadãos, foi estabelecido que não se falaria mais de alguns assuntos, como política, por exemplo, porque esse é um tema que sempre traz discórdia e provoca tumulto entre os indivíduos. E os novos tempos clamam por uma nova ordem em que todos comunguem das mesmas crenças. O que se tem hoje, sempre que surge um movimento de tensão em que as tendências políticas afloram, é um desses defensores da harmonia saltar com um acervo completo de respostas previamente estabelecidas pela maioria das pessoas de bem, pronto a afastar qualquer possibilidade de conflito. Sentenças consideradas cheias de sabedoria, tais como: “política e religião não se discute”; “respeito sua opinião, gosto que respeitem a minha”, estão sempre na ponta da língua para evitar qualquer dissabor na hora de uma provocação imprevista.

Hoje, aquela senhora que veio nos visitar continua na sala, entronada num lugar de destaque, mas é tudo meio de faz de conta, porque, como ela está meio velhinha e debilitada, ninguém dá muita importância ao que ela diz. Como ela era muito valorizada no passado, finge-se que tudo leva o consentimento dela. E quando algum inoportuno argumenta que esse aval é apenas fictício, um exercício de prestidigitação para enganar a plateia, imediatamente salta um fiscal da ordem para apaziguar os ânimos. O importante é que agora temos uma orientação segura, um jeito correto de viver, baseado em princípios que servem pra todo mundo e não apenas para alguns.

lula x bolsonaro

Parusia à brasileira

Preferência política não é uma questão de mera opinião pessoal. Quando alguém dá um voto para eleger uma proposta de governo está avalizando algo que vai atingir todo mundo, não apenas o próprio eleitor, porque uma eleição não é um conflito pelo controle de patrimônios pessoais, e sim uma disputa pela administração de interesses da nação. Pendor político, portanto, depende de uma visão de mundo que prioriza o bem-estar da sociedade sobre as opções individuais. Entenda-se a cosmovisão como o corolário de uma práxis que subentende as vivências, os aprendizados, e a perspicácia na compreensão dos fenômenos sociais. É o ápice de uma formação intelectual consistente, do exercício do intelecto, mas também uma mentalidade humanista que desenvolve um potencial de empatia e busca no convívio social a interação entre os sujeitos e não entre objetos de consumo. Para uma mente polida pelas conquistas da civilização, sob os pontos de vista filosófico, histórico e antropológico, o humano sempre terá a primazia, um triunfo sobre a reificação dos indivíduos. Após essas meditações, pode-se até dizer que escolha política é uma questão de caráter, não no sentido moral, mas na acepção de uma estrutura psíquica, intelectual e afetiva.

É claro que essas divagações só valem para um sistema completamente idealizado, a ser praticado numa democracia onde os valores republicanos estejam em primeiro lugar nas intenções dos dirigentes, embora não sejam só os governantes que devam arcar com toda a responsabilidade. É necessário também que o eleitorado tenha incorporado o entendimento de que os cidadãos de uma comunidade vivem na maior parte de suas vidas compartilhando bens e espaços públicos, que, portanto, o usufruto dos bens é um direito coletivo, e os propósitos são comuns.

Não é esse o caso dos regimes atuais, sobretudo do Brasil, que, em verdade, nunca se constituiu como uma verdadeira República. No que diz respeito aos políticos, eles se apropriaram dos numerários públicos para benefícios de seus grupos privados. Fato deplorável, sem dúvida, mas o que interessa aqui é a reação do eleitor, cujo comportamento, na hora de votar, segue uma orientação personalista, em geral paternalista, que lembra as relações entre súditos e soberanos dos regimes monocráticos, onde a identidade do Senhor paira como uma divindade acima das consciências individuais

Nas eleições brasileiras deste ano de 2018, para presidente da república, esse fenômeno se mostrou com toda a clareza. Bolsonaro, o candidato vencedor, não apresentou, a rigor, nenhum projeto de governo que demonstrasse algum desvelo com os rumos do país. Concentrou a campanha numa promessa vazia de combate à corrupção no mesmo estilo de uma pregação religiosa, apregoada à exaustão para ser repetida infinitamente pelos fiéis e seguidores. O clima era de revanche, a sanha na punição dos pecados daqueles a quem considera os representantes do mal supremo: os políticos. Atualização evidente do mito do Anjo Vingador. Saliente-se que esse é um tema que tem hoje, no Brasil, um forte apelo emocional, muito mais forte que qualquer compreensão racional do problema. A roubalheira se transformou em alvo de uma cruzada moralista e a ideia de condenação das falcatruas exerce o fascínio de uma força mística sobre a multidão. Em resumo, é um tema que manipula ressentimentos e ódios recalcados de uma população que vê o país abandonado em seus serviços básicos, enquanto os políticos abastecem polpudas contas clandestinas em paraísos fiscais.

Mas o pior de tudo é a constatação de que essa falta de visão política não afeta só o lado direito do espectro social. Na esquerda também encontramos a manada entorpecida, adestrada por uma voz de comando, longe da qual se sente perdida e desesperada. Lula venceria facilmente a eleição, mas o candidato escolhido para seguir os projetos lulistas não ganhou. Esse é um detalhe importantíssimo para as estratégias de futuras campanhas, porque está claro que parte do eleitorado de Lula não tem a menor preocupação com proposições políticas, nem mesmo uma pequena noção de desígnios coletivos. Entre esse contingente, o voto em Lula é a manifestação de uma alma messiânica, a crença no salvador, no grande pai protetor que vai conduzir o povo a uma terra de bem-aventurança. Não há como se iludir com a presunção de que todo o voto em Lula é fruto de um processo de conscientização das camadas eternamente desvalidas da sociedade brasileira. Há ainda uma boa parte dessa gente que não adquiriu a capacidade de construir a sua própria vida e está de cabeça baixa, em pose de oração, à espera da Parusia, a segunda vinda do salvador à terra, para levar consigo os inocentes e punir os culpados. Mesmo que o pretenso salvador não passe de um ex-operário, cujo milagre mais extraordinário foi escapar de uma trajetória previsível por ter nascido em condições precárias, e cuja maior mensagem é de que não há um destino traçado por forças divinas inelutáveis, e que o primeiro passo para a salvação é livrar-se da ideia de um salvador. A verdadeira redenção é a resistência do povo lutando contra as forças opressoras e construindo seu próprio paraíso

foto: arquivo de internet

Brazilians Show Their Support For Current President Dilma And Former President Lula

Esperança Cidadã

Venho a público confessar um erro cometido aqui, num outro texto, uma premonição sobre as eleições de 2018. Desde o começo de 2016, quando os ataques contra a Dilma começaram a atingir os mais baixos níveis, eu predizia os próximos acontecimentos: a queda da presidente, a prisão do Lula, com ou sem provas, com a cassação de seus direitos políticos. O resultado parecia óbvio: Geraldo Alckmim, representante político da Direita defensora do livre mercado, seria o próximo mandatário. Esse presságio se baseava numa crença que se revelou equivocada. Mesmo assim acertei dois dos três pontos principais das minhas previsões. Só errei o último porque eu acreditava que, ao investir numa campanha desleal contra uma chefe de governo que não cometeu nenhuma irregularidade administrativa; forçar o judiciário a produzir absurdos jurídicos para prender o principal concorrente ao cargo soberano, era de se esperar que a Direita tivesse um plano de retomada do controle perdido em 2002. Eis a minha falha, humildemente assumida, porque meu intento é apenas entender os fenômenos sociais em vez de fazer os fatos encaixarem em preconceitos e generalizações do senso comum.

A Direita brasileira, desde sempre no comando da Nação, alimenta a fantasia de que o poder lhe pertence por lei natural, e que bastaria tirar o Lula do caminho e já poderia voltar ao trono, sem traçar nenhum esquema para conquistar o apoio de uma população que, aos poucos, vai aprendendo que pode protagonizar sua própria história. Para isso, seria necessário, em primeiro lugar, um político que canalizasse as aspirações populares e conquistasse a confiança do eleitorado. Embora muitos membros da ala direitista não gostem, a única maneira legítima de chegar ao poder numa Democracia, ainda é pelo voto. O problema é que a Direita brasileira não tem mais ninguém com esse perfil. O Aécio Neves, que não aceitou o resultado do pleito de 2014 e desencadeou a crise política vivida até hoje, acabou se afundando na lama que ele próprio criou. Sobrou o Alckmim, que além de estar com o nome enlameado por denúncias de corrupção, não consegue esconder a falta de carisma. Nem mesmo os empurrões indisfarçáveis da velha mídia conseguem fazer o público se empolgar com um discurso visivelmente decorado e sem conteúdo convincente

Então, o que sobrou para compensar a apatia da Direita? Ora, qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de história sabe que, quando não há um programa com metas definidas, surgem os aventureiros, oportunistas cuja maior habilidade é manipular os níveis de frustração das multidões e atiçar o ódio e o desejo de reparação de expectativas malogradas. Foi assim na Alemanha nazista, foi assim na Itália fascista, e há um grande risco de ser assim no Brasil do golpe.

Bolsonaro, líder nas pesquisas de intenção de votos, não era o escolhido da Direita. Ele apenas se tornou o ponto de convergência das quimeras dos órfãos do neoliberalismo brasileiro marcado pelo enterro do PSDB. Parte desse contingente de votantes apostou em Aécio Neves em 2014 para impedir um governo voltado para os programas sociais e Direitos Humanos. Agarrou-se a um discurso moralista anticorrupção reforçado por uma mídia sem escrúpulos que confunde boato com notícia. Mas quando as lideranças peessedebistas caíram na vala comum da ladroeira nos círculos oficiais, esse eleitor não suportou a vergonha e a humilhação de tamanha insanidade. E como não atina desenvolver um raciocínio além das comparações só consegue interagir com os acontecimentos por uma ligação passional. Ora, as paixões mais comuns para a humilhação e a vergonha são o ódio e o desejo de vingança. E no caso concreto dos seguidores de Bolsonaro, esses sentimentos se voltaram para toda a classe política, evidentemente, uma estratégia inconsciente de amenizar o desatino da escolha anterior. Na eterna incapacidade de entender a gênese de qualquer fenômeno social, esse moralista corroído pela mágoa vê na classe política a origem de todos os males da sociedade. Aí surgiu o ex-capitão entoando a ladainha do estranho no ninho congressista, aquele que não faz parte de grupos de interesses escusos nem de negociatas. Além disso tudo, está à frente de uma facção de igrejas evangélicas e, apesar da fachada de cristão, esgoela-se numa zoada violenta, bem ao gosto dos fracassados de toda sorte. Some-se a isso uma postura altamente conservadora dos valores morais, calcados numa noção antiquada de família apoiada na imagem da mulher perfeita que, segundo as regras da extrema direita, é a mulher bem vestida, comportada, educada, condicionada dentro de padrões de beleza e feminilidade criados pelo patriarcalismo e destinados apenas à procriação de rebentos saudáveis. Está implícito nesse perfil o medo da mulher politizada, independente e liberada, que faz o que quer do próprio corpo e realiza seus próprios desígnios. Então, o ex-militar se tornou o enviado dos deuses para salvar essa pobre alma abandonada no deserto das agruras, longe da concretização daqueles princípios que alimentam uma triste fantasia de perfeição humana; um sujeito que só se nutre de um desejo obsessivo de vingança pelo paraíso perdido. Está implícito na fala de qualquer bolsonarista uma ânsia incontrolável de desforra.

Mas, felizmente, há outra coisa que a Direita não previu, nem eu considerei: não adianta prender o Lula, pois o lulismo está solto e impregnado na alma do povo. O que a atual campanha está mostrando é que qualquer candidato que se comprometer com o projeto de Lula para o país tem muito mais chance de ser contemplado com o sufrágio dos brasileiros. Por isso, neste momento alimentamos duas esperanças já quase perdida: reverter os estragos da aventura temerista e barrar o avanço dessa onda de obscurantismo e retrocesso que atormenta as mentes mais esclarecidas.

Razões para acalentar essa expectativa não faltam. Por exemplo, o nível de conscientização produzido pelas políticas de inclusão do governo Lula. Pessoas que antes eram perseguidas, excluídas ou simplesmente ignoradas nas suas necessidades e anseios, a partir de 2003 foram chamadas a participarem do processo democrático, com o ingresso nos programas de distribuição de renda que promoveram uma mobilidade social e níveis de cidadania jamais sonhada; usufruíram de direitos até então desconhecidos, e agora não aceitam voltar a um estado anterior, onde a existência corria num estágio quase animalesco, limitada apenas às manifestações biológicas. Pois é essa gente que hoje está unida para derrotar a traição da turma de Temer e retomar o caminho de um país mais livre, de mente mais progressista, em sintonia com os movimentos humanistas que brotam mundo afora. Uma força extra, inexistente em eleições anteriores, é o movimento de mulheres contra o fascismo, uma onda de revolta incontrolável para destruir aquele perfil feminino de bela recatada e do lar que os eleitores de extrema direita tanto idolatram.

Parece mera coincidência, mas tudo isso acontece justamente no momento em que a Constituição Cidadã, de 1988, que teve alguns avanços no caminho da manutenção de direitos sociais e humanos, completa trinta anos, apesar de maltratada, desrespeitada e até ignorada por quem devia resguardá-la. Então, diante do perigo de uma tragédia iminente, que jogaria o país mais uma vez nas trevas e na barbárie, resta-nos essa esperança, o espírito de resistência nascido de uma experiência de cidadania que, por mais tímida que seja em relação às democracias consolidadas, é a única coisa que pode nos salvar de um grande salto para trás, para um passado que já vivenciamos e não aceitamos mais.

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O VOTO SAGRADO

Época de eleições, oportunidade de escolher o novo presidente da nossa combalida república. Para fazer uma escolha consciente, nada melhor do que assistir a um debate entre os candidatos ao cargo máximo da nação. Pois foi o que eu fiz. Possuído de incomum força de vontade e determinação, postei-me frente à TV para acompanhar o primeiro encontro entre os presidenciáveis, promovido pela Band. Um evento bastante instrutivo na orientação das minhas preferências políticas. Além de divertido, é claro. Mas esse último aspecto eu considero natural, pois a finalidade máxima da televisão é o entretenimento. Entreter informando, instruindo. Propósito muito louvável. Registre-se que esse colóquio inicial correu normalmente, sem se perder a seriedade. Tanto que o mais citado no certame foi Deus que, ao que parece, é o padrinho de vários postulantes ao cargo de presidente. Além do cabo Daciolo, que começou todas as falas com um “ Glória a Deus” e terminou com um “ em nome de Jesus” ainda teve quem agradecesse ao Criador por estarem ali. Todo mundo, como se pode ver, em santa comunhão. Não sei se essa história de convocar o Pai e o Filho, como fez Daciolo, não vai parecer conluio familiar, mas isso é coisa a ser decidida posteriormente pelo Supremo. O Tribunal, não o Ser, pois nem mesmo no Judiciário brasileiro alguém poderia ser réu e juiz ao mesmo tempo, no mesmo processo.

Mas não vamos divagar com futuros problemas imaginários. O importante é avaliar o desempenho dos homens e uma mulher, todos tão respeitáveis, na conquista do nosso voto. E por falar em seriedade, o Álvaro Dias me surpreendeu. De início, me pareceu que ostentava sempre um sorriso no rosto, o que me deu a ideia de um homem muito feliz, talvez por estar ali entre iguais, tecendo altos elogios a si próprio, a ponto de não conseguir responder o que lhe foi perguntado e ainda extrapolar o tempo regulamentar. Depois percebi que não se tratava disso, era apenas um enchimento no rosto que o tornava parecido com o Coringa, o arqui-inimigo do Batman. Quase decidi a votar nele quando citou tente outra vez, do Raul Seixas, meu amado ídolo dos anos setenta. Mas depois refleti que a citação era apenas um conselho a si próprio, já pensando em 2022. Fiquei em dúvida.

Quanto ao já citado Daciolo, o enviado preferido de Deus, que discursou com o mesmo tom obsessivo de um pastor em pregação do Evangelho, teve uma performance bem impactante, a começar por trazer algumas informações bombásticas. Por exemplo, descobri que no Brasil existem quatrocentos bilhões de indivíduos, somente entre os caloteiros de impostos, dado bastante espantoso se considerarmos que a população total da terra, pelos meus cálculos, não chega a oito bilhões de seres, inclusive com os honestos. Não entendi se isso foi um simples equívoco provocado pela empolgação do momento ou se ele dispõe de informações secretas, ignoradas do grande público. Afinal, como já se disse, ele tem um padrinho político muito poderoso. O que é certo é que esse número pode diminuir bastante se elegermos o Ciro Gomes, com a promessa de limpar o nome de todos os cambalacheiros do Brasil.  Foi esse mesmo aspirante à Presidência, o Daciolo, que trouxe a público uma das denúncias mais graves até então: a existência de um complô latino-americano para instaurar o comunismo na região. Mas, não há motivo de pânico. Com ele governando pela glória de Deus e em nome de Jesus isso não vai acontecer. O Brasil em breve será a primeira economia do mundo, deixando o pobre Estados Unidos e mísera China na disputa pelo segundo lugar, como se fosse uma Copa do Mundo da economia, onde o Brasil é o franco favorito, pois como se sabe, Deus é brasileiro. Também me causou grande emoção saber que a nação brasileira foi mencionada no Antigo Testamento, pelo profeta Jeremias, 29, 11. Aliás, essa história de governar com Deus tem lá suas vantagens. Já que o Todo Poderoso é onipresente Ele pode ocupar vários ministérios ao mesmo tempo, o que levaria à economia de recursos, pois nem mesmo na republiqueta das bananas brasileiras um administrador público pode acumular salários.

A grande surpresa desse prélio verbal, para mim, foi o mito Bolsonaro que, diante dos demais colegas, se manteve discreto e apagado, sem aquela arrogância espalhafatosa que costuma ostentar nas suas aparições solo. Talvez por humildade e modéstia não quisesse vencer a batalha já no primeiro golpe, e se posicionar como um dos favoritos nas pesquisas, pois é certo que uma das armas mais eficazes da sabedoria é o silêncio. E conhecimento ele já demonstrou na entrevista do Roda Viva, sobretudo no tema sobre a escravidão no Brasil.

E por falar em favorito nas pesquisas, é necessário destacar que o Lula, líder absoluto em todas pesquisas de intenção de voto, foi impedido de participar, o que, aliás, foi registrado, tanto pelo mediador Boechat quanto por Boulos, que no seu primeiro depoimento começou com um “boa noite ao presidente Lula, que deveria estar aqui”, etc, etc. É bem verdade que parece meio estranho um confronto sem o principal concorrente, ainda que alguém que já ocupou o tão almejado posto por dois mandatos, tirou milhões de pessoas da miséria, e se tornou uma referência mundial em política social, não teria muito a o que aproveitar naquele teatrinho de fantoches dos cinquenta tons de Temer. Até acho que foi por isso que eles nem esperaram o outro sair da prisão para conversar. Ressalte-se que a ausência do ex-presidente na peleja não alterou em nada sua liderança, pois ele é indicado pelo povo, de quem emana o verdadeiro poder, embora o supracitado cabo tenha opinião diversa, e já tentou até mudar a Constituição sobre esse ponto.

Quanto aos demais pretendentes à vaga a ser deixada pelo golpista atual, não há muito o que comentar. A Marina Silva, que só aparece na mídia de quatro em quatro anos, continua insistindo que o Brasil precisa de reformas importantes, e para dar bom exemplo, começou por si própria: reformou o figurino e vestiu um casquinho branco, abandonando a antiga sobriedade de beata. Mas continua com o mesmo coque e o eterno discurso generalizante e sem conteúdo do tipo “Brasil precisa de mudanças profundas”. As ditas mudanças devem ser tão profundas que nem ela mesma conhece, pois não mencionou especificamente nenhuma.  O Alckmin, certamente o responsável por muitos telespectadores desligarem a televisão e irem para a cama mais cedo, berrou impropérios contra os corruptos, sem mencionar que ele próprio também é candidato a réu na Justiça Federal, por denúncias de trambiques em obras públicas.

Ao final da refrega, a conclusão mais óbvia é de que aqueles pobres cristãos não sabem muito bem o que dizem, muito menos o que fazem ao sonharem com um título tão importante quanto o de Presidente da República, sem demonstrarem a menor qualificação para isso. Mas o meu voto é sagrado. Se esse primeiro desafio não foi suficiente para eu decidir quem terá o privilégio do meu voto, ao menos não deixou dúvidas sobre quem não o terá.

armadilha

A TRAGÉDIA DOS FARSANTES

A idolatria pode conter algumas arapucas, nos casos em que o fã se entrega à veneração sem conhecer todo o trabalho do ídolo. Enquanto permanece nesse estado de semiconsciência, o idílio pode durar sem reveses, desde que não se vá querer conhecer tudo da vida do ser idolatrado,

Foi o que aconteceu comigo em relação ao cronista Rubem Braga. Meus conhecimentos sobre esse clássico da crônica brasileira do século passado se reduziam a alguns textos mais badalados que se tornaram leitura obrigatória para qualquer admirador da arte da escrita. No caso, a obra prima, cuja leitura eu já desfrutara é O Conde e o Passarinho, uma verdadeira joia literária forjada num jornal. Essa crônica dá título a uma antologia surgida nos anos trinta, contendo vários textos com o mesmo nível de elaboração estética.

Tivesse eu me mantido naquele parque onde um passarinho sorrateiro surrupiou a medalha de um conde descuidado e tudo seria mais fácil. Mas eu sou um leitor voraz, minha curiosidade intelectual não me permite permanecer na zona de conforto do já conhecido, ainda que isso implique em riscos de danos irreparáveis. Eis que um dia entrei numa livraria e me deparei com uma nova edição, em três volumes, das crônicas do Rubem Braga. Não tive a menor duvida, saí com os livros, já no antegozo da leitura.

Trata-se de uma compilação de textos reunidos por tema, e num deles encontram-se as crônicas de conteúdo político. Sendo eu um leitor muito interessado nos assuntos da política brasileira, os atuais e os do passado, escolhi exatamente essa parte como entrada naquele universo desconhecido. E comecei a sentir uma grande decepção. Não exatamente pela qualidade estética dos escritos. O esmero na escolha da palavra, a erudição, e o incomparável senso de humor estão lá em todas as páginas do livro. O problema é de conteúdo. Rubem Braga se mostra um antigetulista ferrenho, cativo de um ódio apaixonado, não só por Vargas, mas por todas as propostas políticas do trabalhismo. Basta que uma ideia seja apresentada por um dos aliados de Vargas e lá vem o velho Braga a atacá-la com todo tipo de argumento, sem o menor pudor de recorrer às falácias do senso comum ou motivações subjetivas. O mais visado dos discípulos de Vargas é, sem dúvida, o Jango, a quem chama de canalha, demagogo, e outros adjetivos que caem tão bem a muitos políticos brasileiros. O problema é que essas invectivas existiam antes mesmo de Jango ser presidente, apenas pela atuação no governo de Getúlio Vargas. Ou por ser trabalhista.

Para um cronista com tanta virulência nas críticas aos abusos do pai dos pobres, seria de esperar que o regime militar, instalado com o golpe de 64, fosse uma fonte inesgotável de inspiração para impropérios e achaques. Ledo engano. Para começar, o nobre cronista se refere à quartelada golpista como revolução, legitimando a versão oficial dada pelos oficiais protagonistas do golpe, e adere ao discurso de que o movimento foi uma ação necessária para livrar o Brasil da influência do getulismo; e não perde a oportunidade de tecer elogios, ainda que tímidos, à coragem e à ousadia dos líderes da revolução, que assumiram a tarefa de reconduzir o Brasil no rumo perdido da história.

É bem verdade que há vários casos de denúncias veementes das prisões arbitrárias e das torturas, que já eram do conhecimento de quem quisesse saber. Mas até nisso o autor se equivoca. Os desmandos são atribuídos a alguns oficiais irresponsáveis que, por descuido ou por pirraça, excederam suas funções. Em momento algum o autoritarismo aparece como um elemento estrutural do regime. E o mais curioso é que o cronista se define em vários momentos como um homem de esquerda, que na juventude até fez parte de um partido de tendência socialista.

Não é do meu conhecimento que o autor estivesse a serviço direto de algum interesse ideológico, como é muito comum em profissionais da imprensa de hoje. A sensação que dá é de um homem que viveu ao alcance dos principais episódios do século, sem entender nada da natureza dos fatos. Os políticos de oposição a Getúlio são sempre íntegros, suas atividades sempre orientadas por um sentimento de dever, preocupados apenas com os interesses administrativos. Motivação ideológica, associada pelo autor a demagogia, canalhice, oportunismo, era só para políticos de esquerda, como se na esfera do poder algum agente pudesse se eximir de ideologias. A balela de um governo puramente técnico e administrativo já existe há bastante tempo no Brasil.

Esse perfil do autor, que para mim é novo, não desqualifica as demais produções, sobretudo as que não falam de política, e O Conde e o Passarinho terá sempre lugar reservado em qualquer biblioteca que se preze. Mas não se pode cometer aquele erro muito comum nas avaliações de cunho personalista de assimilar como verdade inquestionável tudo o que é dito por um autor que admiramos em função de outro trabalho. Resta apenas uma curiosidade para efeitos de divagação. Considerando-se que a inteligência intelectual é em grande parte incentivada pela capacidade sensorial de captar as vibrações do mundo que nos rodeia, como é que um homem com tanta sensibilidade para perceber nuances da condição humana, não conseguiu entender o que estava acontecendo na política brasileira. As detenções e humilhações sofridas nos anos 30 nas mãos dos agentes da repressão do Estado Novo poderiam fornecer uma pista, e as desconfianças contra Getúlio Vargas seriam até legítimas. Mas daí a não perceber que o getulismo não se reduziu a uma execrável ditadura leva-nos a supor que as imprecações do autor têm muito mais de trauma do que consciência política.

Não é necessário grande exercício intelectual para perceber que esse tipo de postura, de jornalistas cumprindo função difamatória, ainda permanece muito vivo na imprensa de hoje, onde as conquistas dos governos de esquerda foram diluídas nas denúncias de corrupção, ainda que muitas     delas sem provas convincentes.

Se é verdade que uma história trágica se repete como farsa, as peripécias históricas que marcaram o período que vai da ascensão de Getúlio Vargas ao golpe de 64 estão se repetindo hoje com uma fidelidade digna de uma imagem de espelho, mas os supostos críticos da imprensa tradicional, desempenhando o papel de farsantes, continuam sem entender nada, e isso pode nos conduzir a mais uma lamentável e irreversível tragédia.