Escultura "A Justiça"  em frente ao STF, Praça dos Três Poderes, Brasilia, DF, Brasil.

A CEGUEIRA DA JUSTIÇA

“Ofereceram a meu pai o emprego de juiz substituto e ele o aceitou sem nenhum escrúpulo. Nada percebia de lei, possuía conhecimentos gerais muito precários. Mas estava aparentado com senhores de engenho, votava na chapa do governo, merecia a confiança do chefe político – e achou-se capaz de julgar.

Naquele tempo, e depois, os cargos se davam a sequazes dóceis, perfeitamente cegos. Isto convinha à justiça. Necessário absolver amigos, condenar inimigos, sem o que a máquina eleitoral emperraria”

O trecho aí acima foi tirado das páginas memoráveis do livro Infância, de Graciliano Ramos. Embora o autor esteja entre os maiores ficcionistas da nossa terra, o relato é autobiográfico, composto pelas memórias da infância, vivida nos últimos anos do século XIX.

Para quem vive hoje sob a égide dos princípios republicanos é muito difícil imaginar como seria a vida naqueles tempos de antanho, em que o notável saber jurídico, um pré-requisito básico nos dias de hoje para exercer a magistratura, podia ser substituído pelos laços de amizade com os mandantes mais próximos. É constrangedor saber que as sentenças podiam ser promulgadas de acordo com a cara da vítima, ou ao gosto do freguês, isso é, a parte que tivesse maior influência ou interesse nos rumos do julgamento.

Uma olhadinha rápida na história oficial daquele final de século mostra que esse não foi um fato isolado, muito menos um fruto enxertado da criatividade do grande escritor alagoano. É possível encontrar registro de que lá nas primeiras sessões do STF – Supremo Tribunal Federal, alguns Ministros não possuíam nem mesmo experiência jurídica, sendo que o requisito que prevaleceu na hora da escolha em substituição a uma necessária formação acadêmica foi simplesmente a amizade pessoal com o presidente da iniciante República. Sem falar que algumas Excelências da Suprema Corte também desempenhavam funções de Ministros de Estado, o que poderia causar algum conflito de interesse na hora de tomar decisões importantes.

Imagine viver em um país onde um cidadão, ao ser levado à frente de um jurado na condição de réu em um processo criminal sofresse uma derrota vexatória pelo simples fato de ser carente de amizades célebres. Nenhuma importância às provas cabais de inocência. Em vez das perquirições de praxe, uma única pergunta: quem é o seu melhor amigo?

Já que começamos este texto com a citação de um escritor, deixemos a fantasia correr solta e imaginemos um político muito popular, capaz de chegar ao poder com larga margem de votos, mas que não contasse com a aprovação dos poderosos. Problema fácil de resolver. Chama um amigo, de preferência um ambicioso sem grandes méritos para galgar altos postos por conta própria, e oferece a ele proventos inimagináveis, além da eterna gratidão do chefe. Esse jurista improvisado seria bem capaz de inventar provas, solapar informações essenciais, ignorar o rito processual, para impedir que os amigos sofressem qualquer ameaça de instabilidade do poder. Deus nos livre de viver em um país assim.

Felizmente no Brasil de hoje, todas as instituições funcionam sob a inspiração dos mais nobres princípios republicanos, cada membro de uma esfera do poder age estritamente orientado pela isenção, imparcialidade, com fundamento nos mais profundos conhecimentos técnicos, teóricos e filosóficos. Nada de agradar este ou aquele setor. Tanto que até o conceito de crime perdeu aquela conotação moral de antigamente, em que um crime era tão somente um crime, e precisava ser punido. Hoje, as faltas estão catalogadas numa estrutura hierárquica, com base em conhecimentos jurídicos muito precisos. Por exemplo, quando o juiz tem muita convicção de que o réu é culpado, mas não conseguiu juntar provas suficientes da referida culpabilidade, não há problema algum em pular alguns princípios básicos de justiça, pois o objetivo é restabelecer a ordem para impulsionar o progresso, como bem proclama o dístico da nossa bandeira. Afinal, a justiça é cega e paira acima de tudo, mas a lei não, e sabe bem como cair em cima de cada um e de todos.

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O JUIZ E O OGRO

Era uma vez um reino muito distante, que foi invadido por seres malvados, ogros, ladrões, prevaricadores, só gente atolada na lama do pecado. Essa legião de pecadores assolava o reino e causava muita indignação nas pessoas de bem, entre elas um juiz, homem muito correto, a alma toda voltada às boas ações, à caridade, à justiça, só atitudes inspiradas por um coração puro, imune às tentações do demônio. Um caráter inquebrantável como esse, que só andava pelo caminho do bem, naturalmente despertava o ódio daqueles celerados, e nem sempre ele podia fazer valer a justiça, o que o deixava, por vezes, deprimido e taciturno. Por isso, ele só se vestia de preto, como se estivesse de luto pelas almas boas. Um dia, passeando por uma floresta muito fechada, onde a vegetação formava uma cortina que barrava até o sol do meio-dia, encontrou uma caverna. Como estava cansado, decidiu se deitar ali para se restabelecer. Mal pegou no sono e ouviu uma voz que dizia “levanta-te, tu és o meu escolhido para acabar com a corrupção nesse país, vais derrotar todos os teus inimigos e abrirás caminho para o novo salvador que enviarei ao teu povo.

Quando acordou, não sabia direito se aquilo era um sonho ou uma mensagem divina, mas, como as almas santas costumam acreditar que foram predestinadas a grandes feitos, concluiu que só podia ser a voz de um anjo que desceu à terra para enviá-lo a uma missão. Quando foi se levantar, apoiou a mão no chão, sentiu algo, olhou, era uma constituição do reino. Ele sabia que não era dele, pois não trouxera nada. Folheou algumas páginas e encontrou várias passagens marcadas em tinta vermelha, e numa revelação concluiu que se tratava de artigos, parágrafos e incisos que ele não precisava seguir porque dificultaria muito o bom resultado no combate ao crime. Saiu da caverna e se empenhou com todas as suas forças na tentativa de derrotar o mal da corrupção e instaurar no reino o bom caminho, a ser trilhado pelas pessoas honestas.

Acontece que nesse reino havia também um ogro muito cruel, que assustava todo mundo. Ninguém sabia direito onde ele se escondia, mas tinha gente que jurava que, no antro que ele dividia com outros seres da mesma natureza diabólica, ele tomava enormes bebedeiras e praticava todo o tipo de heresias que um bom cristão possa conceber. Muita gente não tinha a menor dúvida de que se tratava se um velhaco assassino. O pior de tudo, esse ser que muitos desprezavam com fúria obsessiva, ainda alimentava a esperança de se tornar rei. Era seguido por uma multidão de devassos que nem ele, que sonhavam em implantar o reinado da corrupção e da perversidade. Por isso ele era também odiado por muita gente.

Então, o juiz considerou que deveria começar por esse ser das sombras para trazer ao povo a luz celestial e a bem-aventurança. Lançou mão dos mais variados dispositivos jurídicos disponíveis para persegui-lo, carregava sempre no bolso do paletó preto aquela constituição achada na caverna, e sempre que havia uma folga, decorava os artigos marcados, para poder ignorá-los com mais segurança. De fato, havia no livro da lei muitas recomendações desnecessárias, que atrapalhavam o bom andamento de uma Ação Criminal. Por exemplo, ouvir a defesa do réu. Se todo mundo sabia que o réu era um assassino deplorável, o juiz não via necessidade de perder tempo com ritos formais, pois evidente que a defesa ia trazer só mentiras e tentar influenciar a sentença. Outra coisa que parecia improducente era a divisão do julgamento em instâncias. A pessoa que investiga naturalmente conhece melhor a natureza do criminoso, então, ele próprio se encarregou da investigação, ajudando os investigadores na consecução das provas e na elaboração da denúncia. Assim a condenação seria bem mais consistente.

Naturalmente essa estratégia causou grande revolta entre os seguidores do ogro, que viram suas falcatruas prestes a serem desmascaradas. Eles alegavam que o processo devia seguir todos os artigos contemplados na lei, mas o juiz, por ter recebido aquele exemplar das mãos do anjo, sentia-se ungido pelas forças do bem, e autorizado a fazer o que lhe parecesse certo. A inteligência do juiz emanava do espírito do Senhor, ele jamais cometeria um erro. Continuou impávido na luta ferrenha contra o mal.

A perseguição foi tão forte que virou notícia. E o juiz, então solitário e discreto, que vivia no anonimato, virou uma grande celebridade da noite para o dia. Tudo o que o juiz falava dava eco na mídia, por isso foi chamado de juizeco. Mas o ogro também tinha amigos influentes, formou um exército forte e a batalha foi violenta.

Aí apareceu o chefe de uma gangue de saltimbancos que começou a fazer grandes escaramuças em todas as aldeias do reino por onde passava. Falava mal do ogro, dizia que todos os problemas do reino eram culpa daquele ser abominável. Com isso, ele conquistou a simpatia daquela gente que tinha muito medo do ogro. De fato, uma grande parcela dos súditos acreditava que o ogro ia invadir as casas deles, tirar tudo o que eles suaram para adquirir, tais como…por exemplo…. Bem, alguns, na verdade, não tinham nada, mas se acostumaram a ouvir que o ogro ia tirar tudo deles, então passaram a odiá-lo também. Esse líder da trupe era muito temente a Deus e desde criança, quando brincava de soldadinho de chumbo, alimentava a fantasia de enfeitar a cabeça com os louros da coroa, então, ele procurou o juizeco e se ofereceu para ajudar a prender o ogro sanguinário, pois aquele monstro solto, também ia lutar pela coroa, o que tornaria as coisas bem mais difíceis. Em caso de sucesso, assim que o soldadinho assumisse o trono, o juizeco ganharia uma posição de destaque no combate à corrupção. Então, se uniram com o exército do rei atual, que também morria de medo do monstrengo, e prenderam o ogro; o líder dos saltimbancos virou rei e o juizeco se tornou uma grande autoridade.

Mas aí, os seguidores do ogro, só de inveja, passaram a dizer que tinha que prender também os saltimbancos amigos do novo rei, o que causou uma certa confusão na cabeça da autoridade suprema da justiça. Nesse meio tempo, os saltimbancos pediram perdão pelos pecados de antes e se confessaram arrependidos, o ex-juiz lembrou daquela constituição toda marcada de vermelho e disse aos saltimbancos: ‘ide em paz, vós vos arrependeis e sereis perdoados”

E assim todos foram felizes para sempre. A constituição continua bem guardada e estudada, para se saber as partes que se pode pular. O importante é que o povo esteja feliz e em paz, e siga seu caminho, sempre iluminado pela esperança e a fé em Deus.

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PRODUTO EXPORTAÇÃO

O Brasil é o país das grandes possibilidades, tudo aqui é superlativo. A começar pelas riquezas e belezas naturais com que o Criador privilegiou estas terras, tudo é digno de louvor. Por isso ninguém duvida da sinceridade dos sentimentos ufanistas que enchem de orgulho o coração dos brasileiros. Patriotismo é a palavra do momento. Ah, se a gente pudesse exportar essas margens plácidas, esse formoso céu risonho e límpido, tudo iluminado ao sol do novo mundo, esses lindos campos com muito mais flores de um clima tropical, essa felicidade suada nas praias, esse entusiasmo auriverde, tão bem pintado nas cores da nossa bandeira. Pudéssemos nós, dizia eu, mandar tudo isso para os infelizes e pobres de espírito como a Noruega, Escócia, Finlândia e certamente assumiríamos a liderança mundial na anunciação das bem-aventuranças.

Mas felizmente temos outros tesouros de extraordinário valor material que podemos vender para o exterior e deixar a marca verde-amarela na alma dos povos. Veja-se o caso do nióbio, com o qual se faz bijuterias cuja perfeição e a graça nunca foram sequer imitadas em qualquer parte de qualquer continente. Ornamentos encantadores para adornar as mulheres de todo o globo terrestre. Não fosse o nosso atual presidente fazer uma campanha internacional de divulgação de colares, brincos e correntinhas, que chegam ao preço astronômico de quatro mil reais no mercado externo, boa parte dos terráqueos estaria privado de conhecer a mais abundante fonte de adereços para o bom proveito do coquetismo feminino.

Sem dúvida nenhuma estamos iniciando um novo ciclo de desenvolvimento econômico, pois é sabido que o Brasil possui a maior mina de nióbio do planeta, quiçá, das galáxias.

Essa euforia me levou a sugerir outras preciosidades tipicamente nacionais para alavancar a economia e espalhar as bênçãos da fortuna pelos quatro cantos do universo. Penso, por exemplo, na diversidade dos pássaros, e já fico de olho nessas espécies que só existem no Brasil. Seria uma boa ideia exportar esses passarinhos que gorjeiam encantadoras melodias nas nossas florestas. Faríamos a alegria dos estrangeiros que não conhecem grande parte da nossa fauna, e ainda, por tabela, incrementaríamos a armação e exportação de gaiolas, que por sua vez redundaria no aumento da venda de cochinhos para alpiste e água, feitos de casca de pau brasil, naturalmente. Sem falar na indústria do alçapão. Se alguma dessas pessoas que sempre torcem contra quiser argumentar que os bichinhos vão sofrer, a gente esfrega na cara delas o óbvio, a floresta está sendo derrubada, em breve vai desaparecer tudo, então melhor que vão para a outro país, na casa de algum colecionador rico. Urge, para o bem da civilização, destravar esse emaranhado de empecilhos burocráticos que dificultam a revoada internacional desses bandos graciosos. Chega desse egoísmo de querer só para nós uma coisa que é da natureza.

Essa nova mentalidade econômica do nosso presidente já tinha aparecido por ocasião da exportação dos abacates para a Argentina. Eu não sei se houve uma oferta correspondente de cumbucas, aquela vasilha que a gente usa para espremer a polpa da fruta. É claro que a gente ofereceria um utensilio feito de cuia, outro fruto dessa terra maravilhosa. Então fica a dica, exportação de cumbucas de cuia para a Argentina.

Não entendo essa preocupação de algumas pessoas com a Petrobras e com outras empresas geradoras de energia, que estão sendo vendidas para o estrangeiro. Uma prova da insignificância desse setor é que os governos anteriores, todos influenciados pela ideologia marxista, priorizaram essas empresas e deixaram de lado aqueles que geram produtos tipicamente brasileiros. Como todo mundo sabe, o comunismo é um alinhamento com Moscou, Cuba e Venezuela, que aliás é rica em petróleo, o que explica essa preocupação. Tudo isso, petróleo, energia, é encontrado em qualquer lugar, não tem a marca de um país tão grandioso e extraordinário como o Brasil. Valorizar algo tão corriqueiro não significa nada em termos de amor pelo país. A verdadeira devoção à pátria é o amor que eleva às alturas tudo o que a gente tem em particular, como nióbio, o abacate, e alguns pássaros. No caso dos frutos do abacateiro, é claro que deviam ser vendidos para toda a orbe, não só para os argentinos. Pense no deslumbramento de uma mulher de primeiro mundo com uma arara da Amazônia, um papagaio, ou até mesmo uma periquita na gaiola, comendo uma batida de abacate, e nas orelhas, balançando, dois brincos de nióbio procedentes de Araxá. Toda a alma dessa mulher estará voltada para o Brasil, para o povo brasileiro e seu representante maior, o presidente, que impulsionou esse comércio e possibilitou a ela esse momento mágico.

Quando os profetas da mídia anunciavam os novos tempos na política tupiniquim a gente tinha certeza da iminência de uma revolução na maneira de conduzir os negócios do Estado, mas não contava com essa guinada tão radical na visão econômica. Acho que o presidente, quando candidato, por pura modéstia, escondeu o jogo e, de início, não falou nada sobre isso.

E esse nosso governo não se cansa de incentivar novas ousadias com vistas ao progresso econômico e social. Tanto é assim que um dos grandes incentivos que deu, antes mesmo de ser eleito, foi para o cultivo de laranja que, conquanto não seja uma relíquia nativa, tem sido uma fruta muito requisitada. Cada dia descobre-se novos e abundantes laranjais nesta rica pindorama, mas não há intenção de exportar, pois a demanda interna tem sido muito grande, e não se pode correr o risco de faltar para o consumo próprio.

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Ingenuidade abusiva

Há uma expressão latina que traduz um princípio bem sábio: Abusus non tollit usum, que em linguagem vernácula significa O ABUSO NÃO IMPEDE O USO. Para ilustrar esse pensamento, pode-se trazer à baila a demonização que se faz, já há um bom tempo, da televisão e, mais recentemente, da internet. Ora, todos os avanços da tecnologia devem ser aplaudidos, e as novas invenções são maravilhosas por si mesmas. Se alguém fez uso inadequado delas, a culpa está no usuário, não na técnica. É mais inteligente corrigir os desvios do hábito do que jogar fora um monte de possibilidades positivas por causa de um erro de execução. Sem falar no retrocesso que isso pode acarretar.

Mas o assunto aqui é política, e não tecnologia. Nosso atual presidente se elegeu graças a um equívoco desse tipo. O discurso mais incisivo na campanha foi o ataque ao que ele chama de velha política, que consiste segundo ele, de conchavos entre o Executivo e o Legislativo para manter a governabilidade. Esse sistema seria responsável por todo o caudal de corrupção que corrói as bases da sociedade brasileira. E prometia: “vamos acabar com isso daí, tá ok?”. Tal era a entonação da promessa que o candidato conquistou uma legião de apoiadores que lhe garantiram a vitória no segundo turno.

Não custa nada investigar um pouco a índole do atual eleitorado brasileiro. Há uma parcela bem expressiva da população brasileira tomada de ódio pela classe política e pelas ancestrais falcatruas daqueles que deveriam estar zelando pelas riquezas públicas do país e em vez de as aplicarem para o bem comum tratam apenas de encher os próprios bolsos e atender aos interesses privados. Indignação muito legítima, por sinal. Mas há outro aspecto significativo na caracterização desse votante que é a simplicidade de raciocínio. Seja por falta de conhecimento objetivo sobre a matéria, seja pela dificuldade de uma abordagem mais racional para ver o fenômeno nas dimensões que ele tem, histórica, sociológica, política, certo é que o cidadão médio se deixa atingir pelos fatos de uma maneira puramente emocional, no ângulo limitado pela sua própria experiência individual. Como o alcance da maioria das pessoas leigas não vai além das atribulações do cotidiano, é comum que se encare a administração de um país como se fosse o provimento de uma família, onde o chefe, com cara de homem sério e pose de mau, chega no momento oportuno para acabar com as desavenças entre os fâmulos e restabelecer a ordem e a paz. Nesse sistema o presidente da república assume facilmente o papel de um pai protetor. E foi nesse contexto que o ex-capitão apareceu extravasando bravatas, ameaçando prender e matar qualquer um que saísse da linha traçada pelo catecismo do bom comportamento. O povo aplaudiu desvairado na crença de que a balbúrdia ia acabar.

O problema, que parece ter sido ignorado tanto pelo postulante quanto por seus eleitores, é que os governos se formam apoiados em princípios de natureza filosófica, política, etc. e o caso é que o Brasil, ainda que muito mais nos documentos oficiais do que na prática, é uma República Democrática, cuja base de apoio é a harmonia dos três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Ou seja, para que as coisas funcionem de uma maneira minimamente aceitável, essas três instâncias de poder devem permanecer em constante diálogo, o que significa acordos, negociações, trocas de vários tipos. É muito ingênuo alimentar a ilusão de que o presidente possa governar sozinho e impor um projeto unilateralmente, sem discutir com o Congresso. Pelo menos numa Democracia. E aí é que está o busílis. A singeleza intelectual e a inaptidão do seguidor de Bolsonaro para entender as questões mais complexas levam-no a aplanar tudo ao nível da vontade pessoal, uma concepção infantilizada e muito moralista na qual, se a opinião é boa deve ser aceita por todos, assim como as crianças acreditam que todo mundo gosta do que elas mesmas gostam. Por outro lado, essa mentalidade implica uma predisposição ao fascismo, ao autoritarismo, aquela ditadura que os infantes exercem sobre os adultos porque não aprenderam ainda o poder da reciprocidade.

Agora estamos vivendo o momento de encarar a realidade: o presidente está reconhecendo publicamente os contratempos de governar sem negociar com o Congresso. É claro que esse negociar, além das conotações éticas louváveis, vem também conspurcado por significados espúrios e muito pouco recomendados para uma verdadeira República democrática. Mas, seguindo o ensinamento dos antigos romanos, traduzido na frase lá do começo, é necessário aprimorar a técnica da oratória em vez de regredir ao estágio primitivo da força bruta.

Resta esperar pra ver se os bolsonaristas vão aprender a lição e procurar, no próximo pleito, alguém com propostas mais honestas e mais realistas ou vão sair à procura de outro salvador que prometa novos milagres, tão maravilhosos quanto impossíveis de realizar. Espera-se que optem pelo primeiro caminho, pois o segundo seria abuso de ingenuidade.

Anatomista

Outra América, pouco descoberta

A leitura é uma tentativa de estabelecer laços afetivos com o autor por meio de sua obra. O livro é o corpo físico onde a gente procura a alma de quem o escreveu, ou o universo que inspirou aquela criação. O sujeito se prepara como quem vai a um encontro amoroso, o coração pleno de bons sentimentos, com a esperança de uma nova e fascinante experiência.

O problema é que, às vezes, o leitor é um apaixonado ingênuo e idealista, que se entrega a essa aventura esperando muito mais do que o ser desejado pode oferecer. Assim aconteceu comigo ao ler O Anatomista, do argentino Federico Andahazi. Logo nas primeiras páginas já se percebe que, do ponto de vista literário, o livro não corresponde à expectativa criada pela importância do tema; a descrição das personagens não tem muita inspiração, e a tessitura dos fatos deixa muito a desejar em termos de criatividade. Está claro que o autor não se preocupou nem um pouco com aquilo que os estudiosos chamam de literalidade. Não bastasse isso, ainda nos brinda com episódios de conotação grotesca, em que uma menina, ainda de fraldas, brinca e se deleita de maneira nada infantil num excitante felatio, e depois, enfurecida por ter sido submetida à força a esse ato, arranca de uma dentada o membro flácido do velho que a explorava. Essa mesma criança, em cenas anteriores, protagoniza uma peripécia muito pouco convincente, ao desafiar sua cafetina ao dar-lhe o quinhão merecido.

Trata-se de um romance que aborda uma passagem na vida de Mateo Colombo, anatomista italiano que viveu em meados do século XVI, um homem em sintonia com a mentalidade do Renascimento; exercia a atividade médica, mas também se ocupava da pintura, e gostava de escrever. O próprio tema já remete à ideia de prazer. O foco da narrativa é a descoberta do órgão responsável pelo prazer sexual das mulheres, e só por isso já cria a esperança de conhecer um pouco mais sobre o instigante universo da anatomia. No lado científico, o personagem investigava as qualidades medicinais das ervas, que usava nas curas de pacientes. As pesquisas sobre essas poções também eram incentivadas pelo desejo de possuir uma chave que abrisse as portas e mostrasse o caminho mais procurado pelos homens renascentistas: o do coração das mulheres. Mas justamente como anatomista que ele iria descobrir algo mais importante do que a América de Cristóvão, o outro Colombo que entrou para a história dos descobrimentos, quando atravessou o Atlântico e se deparou com um novo continente. Em vez de se arriscar nos oceanos e enfrentar todos os perigos das águas, tanto os reais quanto os que a superstição produzia, Mateo Colombo preferiu o corpo feminino para lançar âncoras e explorar suas riquezas naturais. Pois foi lá, nas partes mais íntimas de uma dama desfalecida que ele desvendou uma protuberância anatômica que, de início, julgou que fosse um pequeno membro masculino. Estaria ele à frente de um ser hermafrodita? Começou então a manuseá-lo e constatou que a doente reagia positivamente com contorções pelo corpo, os músculos retesados e, ao final, uma explosão de prazer que nem ele tinha visto, nem ela havia desfrutado. Mais ainda, ao notar que a paciente recuperava as forças, prescreveu sessões diárias de carícias, até que a enferma se apresentou completamente restabelecida. Mateo Colombo entendeu nesse momento que não se tratava de nenhuma deformação, nenhuma manifestação demoníaca, como poderiam acusar os crentes quinhentistas. Era tão somente um detalhe da anatomia feminina, até então desconhecido, que, ao ser devidamente manipulado, leva a mulher ao paroxismo do gozo. Ainda não tinha um nome a dar a tão valioso tesouro, então, chamou de Amor Veneris, pois acreditou que ali se concentrava toda a capacidade de amor feminino. Agora ele tinha, como o outro Colombo, a sua América, que o tornaria imortal. E aqui o autor faz uma boa aproximação entre as duas descobertas, pois ambas significavam grandes possibilidades para quem se propusesse a conhecer novos mundos.

Mas antes de ganhar a imortalidade, Mateo Colombo ganhou uma cela, uma espécie de prisão domiciliar na universidade de Pádua onde lecionava, enquanto aguardava o julgamento de uma comissão da Santa Inquisição. As práticas de dissecação de cadáveres e ensaios com mulheres vivas já haviam despertado a suspeita dos doutores da Igreja, antes mesmo de anunciar essa proeminência por onde, segundo os nobres prelados, o demônio se apossaria do corpo da mulher.

É nessa perspectiva que aparece um dos aspectos mais interessantes do livro: a confusão que se fazia, nessa época, entre ciência e religião, com a total submissão da primeira às superstições da segunda. E é ainda nesse quesito que o livro é bem atual, apesar de ter sido publicado há mais de vinte anos, pois reflete bem esse estágio mental de hoje, que trouxe de volta algumas crenças há muito superadas, onde a ciência e a lógica têm sido relegadas a planos secundários, abaixo dos mais bizarros delírios, e o conhecimento é colocado na condição de mera opinião pessoal. Dá para imaginar a resistência que o anatomista enfrentou ao afirmar a naturalidade do prazer sexual feminino num tempo em que um simples olhar menos submisso já jogava uma mulher na fogueira, sob a acusação de bruxaria. No romance de Andahazi, Mateo Colombo padece por vários dias a angústia da certeza de ser jogado nas chamas do fanatismo religioso por ter proclamado a descoberta de sua América, muito mais rica. Escapou por pouco.

Não sei quando essa maravilhosa saliência recebeu o atual nome de clitóris, o que sei é que ainda hoje as mulheres se queixam que muitos homens, seja por falta de habilidade anatômica, seja por medo de arder em algum incêndio imaginário, mesmo sabendo de sua existência, nunca conseguem encontrá-lo.

romero brito

Sem Deus e sem Musa

Eu queria escrever alguma coisa grandiosa neste começo de ano, tecer algum encômio a essas extraordinárias realizações que ocupam os cidadãos de bem do nosso país. É sabido que quando troca um dígito no calendário anual, as pessoas se nutrem daqueles sentimentos mais nobres e pensam em passar todo o ano novo dedicadas a tarefas importantes para o bom andamento da raça humana, e seria bem gratificante poder retomar minha produção de textos em sintonia com essas sumidades mais destacadas da nossa civilização

Mas acho que não fui tocado por esse espírito numinoso que orienta a vida dos meus contemporâneos e conterrâneos, e as musas, por mais que eu rogasse, não atenderam as minhas súplicas, nem me guiaram no caminho necessário para fazer tanto. Me sinto abandonado pelas divindades neste nosso mundo, tão pródigo de talentos para uns e com tanta parcimônia para outros.

Por vezes me sinto injustiçado. Mesmo tendo nascido numa família católica e sido amamentado sob os ensinamentos da mais autêntica doutrina cristã, e nunca ter me afastado um único centímetro da retidão que nos leva à presença dos Bem-aventurados; e ainda por cima, ter passado os primeiros anos da minha infância num sítio sortido de árvores frutíferas, nunca vivi um único momento de epifania, desses que acontecem às almas escolhidas pela Potestade. Já nem digo que Jesus me aparecesse no pé de alguma das árvores que nos fornecia alimentos para o organismo em épocas de penúria. Nosso Senhor certamente teria gente mais importante para visitar. Mas um simples sinal, como aquela imagem da cruz em chamas que apareceu ao imperador Constantino e o inspirou a abraçar o Cristianismo e impor a fé cristã a todo o império romano, ainda que ele próprio continuasse a cultuar os antigos mitos e deuses pagãos.

Nada disso me foi concedido, e por isso eu vivo preso na jaula desta insignificância, sem aptidão nenhuma que me eleve um pouco acima do comum das criaturas de Deus. É de se pensar que o Todo Poderoso criou os seres todos iguais e mandou que eles conquistassem as alturas espirituais e em seguida também atingissem os picos mais altos da escala social, mas, não sei se por descuido ou por algum desígnio mais misterioso, não forneceu escada nem elevador pra todo mundo, por isso alguns seres de índole mais lenta, no caso eu, foram deixados para trás, e os primeiros postos na pirâmide foram ocupados por grandes homens que, uma vez acomodados nas alturas, não descem nem para fazer suas necessidades mais básicas, o que acaba sendo bom para os aqui de baixo, que muitas vezes, só o que encontram para tocar a vida em frente são as sobras  que despencam, ou são expelidas, lá de cima.

Além dos parcos recursos naturais, a natureza ainda me impôs algumas limitações psicológicas, como as fobias. Com exceção do banho diário no verão, e um ou dois por semana no inverno, eu faço tudo o que posso para evitar a água. Água pura, nem beber eu consigo, o que me impõe a ingestão de outras beberagens mais palatáveis, como a cerveja e vinho, para suprir a necessidade de líquido no organismo. Não fosse isso, poderia me lançar em algumas aventuras dignas de uma narrativa épica para compensar minha falta de habilidade para frequentar os círculos mais altos da sociedade. Por exemplo, estive a ponto de tomar uma grande decisão e embarcar no cruzeiro dos terraplanistas, esses geniais discípulos do grande filósofo Olavo de Carvalho, um exemplar patriota que mora há anos dos Estados Unidos pra enriquecer seus conhecimentos sobre o torrão natal. Pois essas mentes inquietas vão se dedicar a uma das tarefas mais importantes dos últimos milênios para a ciência da navegação, da aviação, da física, da geografia, da astronomia, da filosofia, e com certeza, da psiquiatria: eles vão provar de uma vez por todas que a terra é plana e que o sol é que gira em torno dela. Calem-se Galileu, Copérnico, Newton, Arquimedes, iluministas, escolásticos, metafísicos, homúnculos insignificantes, todos influenciados pelos delírios das superstições marxistas, agora é a vez do sistema solar ser administrado e iluminado pelas luzes superiores de Olavo de Carvalho.

Seria essa uma grande chance para eu galgar alguns degraus nessa escada invisível que nos alça aos píncaros da glória, ao participar desse momento histórico, que derrubará todas as crenças e superstições dos ingênuos cientistas. Já imagino quantas curtidas nas fotos do Facebook, uma selfie mostrando os limites da barreira do plano, que antes se acreditava um globo, de onde não se pode mais avançar, sob o risco de cair no mais profundo dos abismos e no ridículo. Os registros fotográficos, claro, teriam a legenda EU ESTIVE LÁ. Além disso, imagino, que texto maravilhoso eu escreveria, uma autêntica narrativa de viagem desbravadora, que desbancaria Saint-Hilaire, Barlaeus, Nieuhoff, Lindley, Taunay, Staden, só para mencionar apenas os que estiveram nestas plagas abençoadas do Brasil. Então eu poderia dizer a esses escrevinhadores do passado, recolham suas engenhosas marandubas que agora eu trago a única, a maior, a verdadeira descoberta.

Mas não. Eu não nasci para brilhar no palco, meu lugar é a plateia. O que me resta é permanecer na arquibancada do circo e esperar para bater palma e gargalhar quando as performances começarem. Mesmo assim, ainda alimento uma esperança, porque, como todo mundo sabe, o Brasil é um país de muitas possibilidades.

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