heraclito

A musa melancólica

A urgência do homem primitivo em superar suas limitações levou ao surgimento da arte e da ciência. É possível entender a fricção de dois pauzinhos, ou lascas de pedra, que gerou o fogo, como um evento científico. E as pinturas nas cavernas, ainda que revestidas de motivos ritualísticos, adquiriram importância na história da Estética. O medo de viver abandonado num universo desconhecido criou a religião. Veio daí a ideia de uma dimensão superior no além, a qual seria alcançada através da aceitação de algumas regras de comportamento aqui na vida terrena. Arte e religião tornaram-se, então, dois caminhos possíveis para se chegar a tais plenitudes, ressaltando-se que não é raro que elas se confundam, pois que para muitos adeptos, a arte adquire status de rito religioso, em que uma musa, em constante estado de graça, conduz o seu protegido às regiões mitológicas, ao encontro dos soberanos olímpicos.
Tudo ia às mil maravilhas, e qualquer mancebo que se dispusesse a versificar suas mágoas amorosas já se sentia nas alturas, pronto para alçar-se aos píncaros da glória. Porém, lá pelas tantas, o poeta Victor Hugo veio alertar para o surgimento de outra musa, conspurcada pela moral cristã, que sofria da principal característica do cristianismo: a melancolia. Tratava-se de uma fadinha sacana, cansada daquela estopada retórica, e queria algo mais funambulesco. Logo que assumiu suas funções, essa madrinha da inspiração se encarregou de turvar a vista dos poetas, apresentá-los às coisas menos dignas de admiração, em vez da face imponente do herói, introduz uma caricatura de fisionomia deformada. Essa musa, sempre atenta às nuances e detalhes de cada objeto, não se cansa de perturbar a paz espiritual dos seus pobres devotos, provocando uma inversão nas expectativas ao alertar que a vida, ainda que momentos nobres, também comporta um lado meio risível. É ela que atrai os sátiros que espalham a desordem no reino da poesia.
O problema é que o ser humano é fraco demais e não consegue suportar qualquer vacilação nas suas certezas. Na utopia engendrada para suportar uma longa trajetória, tudo passa por uma elaboração bem organizada e coerente, onde tudo combina, numa sublimidade digna das obras supremas. Eis porquê é natural encontrar-se alguns indivíduos que, tomados por crises de devaneios, acreditam que passam pela vida a pensar e fazer apenas coisas de extraordinária importância; são amigos das pessoas mais maravilhosas do mundo; só se dedicam a atividades que deixam transparecer sua grandeza espiritual e a pureza de sua alma. A maioria das criaturas deste planeta ainda está agarrada às musas antigas, aquelas dos tempos clássicos, que só enxergavam o mundo reduzido dos círculos divinos. Por isso a sobrevivência de crenças primitivas como deuses e outros personagens celestes, sempre prontos a acudirem os pobres mortais em momentos de sofrimento ou prolongada dificuldade. Muito digno de zombaria é a constatação de que os viventes do século 21 ainda se deixam levar pela crendice de que, ao entrar num prédio de estilo arquitetônico rebuscado, se ajoelhar e repetir gestos e palavras decoradas vão merecer as graças de uma existência mais elevada, mais perto das divindades que eles mesmos criaram, e que só se manifestam na imaginação prodigiosa dos crentes.
Outra cilada em que as pessoas fazem questão de cair, na crença simplória de estarem mais seguras, é o amor romântico. Na ânsia de gozar logo os estágios mais inebriantes da alma, a burguesia cristã do século XII transformou o instinto de acasalamento, a simples satisfação de um desejo físico, em algo transcendente, uma união coroada com os louros dos mais nobres sentimentos, regida e abençoada por espíritos iluminados protetores do bem.
Nesses casos, a elaboração fantasiosa é tão eficaz que não deixa uma mínima brecha para a entrada da musa melancólica de Victor Hugo. Nada do gênio galhofeiro de Demócrito; nada do demônio da crítica; fora qualquer tentativa de teste do ridículo do conde de Shaftsbury. Para essas pessoas, tudo precisa estar no seu devido lugar, numa harmonia perfeita, criada no céu e tutelada pelos anjos. Só assim eles acreditam estar numa fase avançada do sublime, atingida apenas por alguns privilegiados.
A necessidade de se sentir acolhido em algum espaço mítico é uma das bizarrices mais esdrúxulas dos filhos de Adão e Eva. Como viver no tédio da perfeição, sem essa índole trocista que desarmoniza tudo a todo instante? Como abrir mão da diversidade, dos detalhes que o disforme nos oferece? E a surpresa do inusitado que a visão humorística nos apresenta, como enfrentar a realidade sem ela? Há por acaso coisa mais deliciosa do que um despropósito dito em momento inopinado? Pois uma tolice serve para evidenciar contrastes e denunciar as incongruências da razão nefelibata, e o ridículo das pretensões de uma vida orientada somente por conceitos abstratos. É sinal de uma mente expansiva conseguir aceitar e usufruir o prazer do imprevisto, do inesperado e fazer a aproximação entre fatos distintos e distantes para ver o mundo sobre outro ponto de vista, e sentir prazer com isso.
Em vez de uma entidade efêmera que habita nas alturas inatingíveis e nos mostra sempre a mesma visão clara e transparente banhada pela luz do sol, melhor seguir os vira-latas dos cínicos gregos, revirar os lixos das praças públicas, vasculhar os recantos dos becos mais sórdidos, as paisagens noturnas das vias urbanas, onde os seres se confundem na indefinição das sombras. Pois é também nos grotescos da realidade que encontramos os mais sublimes sopros de vida.

carolina maria de jesus

A literatura da fome

Não conheço dados concretos para avaliar o poder de efeito da literatura militante, essa feita, em geral, nas periferias das grandes cidades brasileiras. Falta-me o conhecimento específico de características desses ambientes, assim como o impacto que uma obra literária pode causar ao focar o modo de vida singular de determinadas populações. Creio que, em muitos casos, o resultado é muito mais publicitário, ao atender uma demanda de conteúdo social por parte de um público acostumado a tratar o diferente, quando não com desprezo, apenas como uma curiosidade a ser consumida. Esse parece ter sido o fim mais evidente de uma obra como Cidade de Deus, por exemplo, mas não se pode ignorar outros, inclusive o próprio ato de protesto. Creio que, o leitor que lê semelhante relato como a denúncia de uma situação bem próxima a ele, no mínimo passa a entender o seu próprio meio sob uma nova dimensão. É por isso que leio com bastante atenção e igual deleite a prosa de um autor como Ferréz, cujo registro parece estar mais preocupado em fazer o retrato da vida das comunidades marginais do que com o refinamento estético, ou literário, do texto.

Mais prazer ainda me proporcionou a leitura de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, em nova edição da Editora Ática.  Trata-se, como é de conhecimento geral, do diário de uma mulher semialfabetizada, que vivia numa favela de São Paulo, na década de cinquenta. Antes, portanto, do surgimento do crime organizado, que assumiu o controle dos territórios abandonados pelo Estado.

A narrativa é contundente, tanto na forma como no conteúdo. Para se ter a dimensão do drama relatado, basta saber que a autora, muitas vezes, se punha a escrever para disfarçar a fome, em dias em que não havia o que comer. A rotina era miserável e quase automática: acordar de madrugada, ir buscar água numa torneira comunitária, preparar o café, quando havia mantimentos, despachar os filhos para a escola e ir para o lixo catar o que desse para vender e angariar alguns trocados com que pudesse providenciar o almoço; e, sem descansar, voltar ao trabalho em busca de provimentos para a janta. Em dias de chuva não havia o que catar, portanto, quase nunca conseguia com que preparar uma refeição para ela e os três filhos. Então ela escrevia.

Paralelemente, ela se ocupa dos relacionamentos com os outros habitantes da vila: as brigas intermináveis, os escândalos diários, as amizades conquistadas. E no meio de todo esse rebuliço ela encontra tempo e disposição para escrever e ler. Aqui vale uma queixa: a grande lacuna é ela não nos cotar sobre os livros que lê, nem como os adquire, e nem como o hábito da leitura entrou em sua vida. Apenas uma ou outra menção rápida sobre algum poeta, como Castro Alves ou Augusto dos Anjos, mas sem comentar sobre sua relação com a literatura deles. Também há algumas referências à Bíblia, mas nesse caso, apenas sob um ponto de vista religioso.

Quanto à forma, pode-se dizer que é tão seca quanto a vida da autora. Uma linguagem crua, quase primitiva, adornada por uma inegável inspiração poética, com imagens e metáforas retiradas do seu próprio meio para traduzir a miséria de sua existência, não raro se valendo de uma ironia cruel, como no caso da vizinha que morreu e, quando o corpo foi retirado do barraco em direção ao cemitério, a autora comenta “agora finalmente ela terá uma casa própria”.  Miséria, diga-se, puramente material, porque Carolina se mostra uma criatura abonada de grande talento, uma alma sensível, e uma capacidade de compreensão da realidade digna de humilhar muitos escritores autuais formados em academias. A própria atitude de usar a literatura como antídoto da fome já é uma evidência de um prodígio intelectual

Não se trata de santificar uma mulher que teve uma força invejável para superar as restrições impostas por uma condição humilde. Ela própria, certamente, não se candidataria a uma vaga para canonização. Era apenas um ser humano que não aceitava viver como bicho, se revoltou, e lutou contra isso enquanto pode. É nesse contexto que se deve colocar alguns deslizes cometidos e relatados por ela. E não se trata aqui dos erros de gramática e de ortografia, devidamente mantidos assim como grafados no original, como revela a nota dos editores. Esse ponto, aliás, merece até elogios, por demonstrar que uma pessoa com tão poucos benefícios se aventurou e conquistou seu espaço num mundo elitista, onde muitas das figuras já estabelecidas torcem o nariz para ousadias ou deficiências retóricas.  Refiro-me a certos episódios de intolerância e preconceito, aos quais ela se refere de maneira muito natural. Como o da repressão ao filho por ler gibi. Por algum motivo, ela perdeu a paciência com o menino, sacou o livrinho da mão dele, rasgou e jogou no lixo, porque era uma leitura que ela detestava. Outro caso digno de nota é a opinião totalmente estereotipada sobre um acampamento de ciganos que se instalou perto da favela. Um caso típico de oprimido que adere ao discurso do opressor em relação a outra vítima da opressão.

Mas esses aspectos não chegam a comprometer a grandeza do depoimento. Digno de nota é, ainda, um senso de humor surpreendente, considerando-se que a autora vive num estado de mendicidade. Só uma pessoa de rara inteligência e sensibilidade aguçada pode captar um lado cômico em meio a tantas privações. Por vezes ela consegue rir das próprias agruras e anota isso com muita naturalidade. O fato de catar a sobrevivência no lixo serve aqui de metáfora bem expressiva. Do eco dos clamores da penúria ela capta os resquícios de humanidade que lhe dão ânimo para seguir em frente.

Uma das estratégias mais curiosas desses apontamentos, que parece ser usado mais por pudor do que por elaboração de estilo, é a recorrência das elipses. Uma mulher com tanta energia espiritual não poderia deixar de atrair homens carentes de proteção. Embora repita um discurso bem convencional sobre os deveres morais da mulher, ela não se furta aos assédios de dois moradores vizinhos, parece até tirar algum prazer nisso. De um deles, ela menciona, de maneira tímida e cheia de subentendidos, as noites em que dormiram juntos, mas do outro, ela só se refere às investidas, deixando o leitor em suspense quanto ao resultado das tentativas do apaixonado. Isso adquire um grande significado porque, como ela mesma descreve sobre os vizinhos, trata-se de uma convivência em que troca de favores, amizades, e atividade sexual se confundem numa naturalidade espantosa para os padrões moralistas. O exemplo mais enfático desse recurso está na visita do pai da filha dela, um empresário bem sucedido, que mora na cidade, e é poupado da exposição no diário: “ele deu-me 120 cruzeiros e 20 para cada filho. Ele mandou os filhos comprar doce para nós ficarmos sozinhos. Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher. Dei graças a Deus quando ele despediu-se”.

Pelo que se vê nos dias de hoje, a literatura não mudou a vida das periferias, apesar do livro de Carolina ter chamado a atenção do mundo inteiro sobre a condição dos indigentes despejados nas margens da sociedade. Mas com certeza, a literatura foi um alimento bem nutritivo para Carolina na sua ânsia de entender um pouco do mundo em que vivia. E depois, felizmente, com o sucesso que alcançou, libertou-se da fome propriamente dita, aquela que ainda atormenta e aprisiona as almas e os corpos de milhões de brasileiros.

[foto: site Geledés]

Ademir - Diretas Já_era - Cara pintada

Diretas Já… era!

O ano de 1984, no calendário brasileiro, é daqueles que sintetizam uma era. Posso mencionar, pelo lado pessoal, algumas peripécias que definiram o meu futuro. Eram os meus primeiros passos vivendo sozinho, longe da família, tomando minhas próprias decisões, administrando um salário modesto de profissional iniciante na área técnica. Acrescente-se que foi também meu ingresso na faculdade, como discente nas Ciências Sociais, um curso que se destacava, sobretudo, pelos níveis de politização dos alunos e professores. Entre as imagens daquele período, que ainda hoje me trazem saudade da vida estudantil, a mais forte é a dos estudantes circulando pelos corredores do campus com o livro O Capital, de Karl Marx, embaixo do braço. Como se houvesse um acordo tácito para que todos utilizassem a mesma edição, uma que estampava na capa o título da obra e o nome do autor, em letras bem grandes e vermelhas. E, o mais importante, jamais deixar aquele tesouro escondido dentro da pasta, onde não seria visto. A regra era expor a erudição esquerdista bem à vista do público, como um atestado de filiação e preferência políticas.

Mas o mais importante daqueles tempos de inocência juvenil não se reduziu à minha experiência pessoal. O que incitou os brasileiros a uma união jamais vista sob a bandeira auriverde foi a campanha pelas Diretas Já, um dos momentos mais sublimes da história do país, pelo menos dos que eu guardo na lembrança. Por todos os lugares, não só entre os jovens marxistas de vitrine do campus universitário, mas nos bares, no trabalho, em casa, na rua, qualquer assunto sempre recaía na escolha direta e democrática do presidente da República.

A principal característica daquele movimento era a certeza de que lutávamos por uma coisa justa e necessária. Também era notória a unanimidade dos corações que pulsavam na mesma sintonia. Com exceção de alguns membros do poder arcaico dos generais que assaltaram o país duas décadas antes, que partilhavam, por interesses escusos, da cegueira dos militares, a população brasileira cantava em uníssono o refrão das Diretas Já. Lembro do famoso comício em frente à prefeitura, que reuniu as eminências políticas da época, Tancredo, Montoro, Covas, e as presenças inesquecíveis de Brizola e Lula, que, com discursos contundentes, expunham toda a podridão do regime militar, já nos seus últimos estertores.

Aquela refrega, para mim, era como uma formatura no colégio primário: nunca mais se repetiria. O Brasil encerrava uma aventura irresponsável que tinha jogado o povo na maior tragédia social da história recente, cavando um abismo entre as camadas da sociedade, e transformado as estruturas de poder num verdadeiro feudalismo em pleno século XX. Isso seria o suficiente para que uma mentalidade de valores democráticos se formasse e vivíamos na convicção de iniciar uma longa trajetória de reconstrução de uma sociedade justa, civilizada e democrática. Quanta ilusão! As Diretas não vieram quando pedíamos e ainda precisamos esperar mais cinco anos apenas para amargar a grande frustração de ver subir ao poder um aventureiro, que poderia ser colocado lá pelos próprios militares. Era a ressaca da festa.

Pois hoje, mais de três decênios depois, ouve-se algumas vozes chamando para reviver aquele mesmo episódio que, apesar de frustrado, provocou incrível arrebatamento coletivo. Essas gargantas meio estranguladas, que chamam o público para formar um novo coro e entoar o mesmo hino do passado, insistem em fingir que se trata de uma nova montagem daquela saudosa comunhão no êxtase da democracia, a orgia carnavalesca dos bons tempos, para repor o país no caminho da legalidade. Está certo que somos o paraíso do carnaval, mas quem já viveu várias mágoas por festas que deram bem menos do que prometeram anda meio ressabiado com impulsos repentinos, cantorias improvisadas e prefere esperar um pouco mais para seguir o desfile do primeiro bloco que se joga na avenida.

Não que a conjuntura de hoje não justifique o frenesi e a determinação de reivindicar uma saída constitucional para a crise. Temos um presidente ilegítimo, que usurpou o poder através de um golpe de estado, valendo-se da mais covarde das artimanhas: a traição. Só isso já seria suficiente para mobilizar um país inteiro. Mas a questão é que existem, entre os dois ciclos históricos, algumas diferenças que não devem ser ignoradas. No evento original, havia uma clareza de propósitos que era derrubar o regime militar e recuperar a dignidade da vida nacional. O inimigo era declarado e as estratégias conhecidas de todos. Na versão atual, a maior característica do movimento é uma nebulosidade que atrapalha qualquer tentativa de enxergar alguma coisa por trás das aparências dos fatos. Não há nenhum cidadão, fora das esferas do poder, que consiga afirmar com muita certeza quais os interesses que estão em jogo atualmente nesse processo. Outra diferença importante é que, no passado, não havia a previsão de uma eleição direta para breve, tratava-se, antes de tudo, de corrigir um erro constitucional. Hoje, temos a garantia, pela Constituição de 1988, de um novo pleito para daqui a alguns meses.

Mas, é justamente nesse ponto que reside todo o pessimismo. Poucos eleitores acreditam na possibilidade de escolher o novo presidente por voto direto em 2018. É difícil acreditar que, depois de tanta munição gasta para dar um golpe de estado, os coronéis suseranos de um regime tão retrógrado como o que se instalou no Brasil vão permitir a entrega do país de novo nas mãos do Lula. Pois é certo que, dada a total inexistência de provas até agora, uma condenação de Lula só será feita com o recurso de um novo golpe. E esse consistirá em transformar as Diretas Já em Diretas Já… era!

karnal

Venial Karnalidade

Vivemos a época da diversidade. E isso é ótimo como reconhecimento do valor de novas propostas, outras predileções no estilo de se conduzir a própria vida, novas maneiras de viver os afetos, enfim, um sem-número de escolhas a contradizer as teses retrógradas da monotonia existencial.

Mas há o outro lado. O senso comum, com a costumeira obsessão de rebaixar tudo ao nível simplório das inteligências medianas, criou uma grande confusão entre variações nos modos de vida e intercâmbio dos posicionamentos ideológicos. Resulta daí a crença de que qualquer tagarelice deve ser levada na conta de legítima manifestação. A justificativa para tais superstições é que o diálogo entre pessoas civilizadas deve se dar em tom de conversa de salão, sempre no limite requerido pelas almas mais sensíveis, aquelas que se ofendem até com brincadeiras inocentes.

Essa semente da concórdia brotou em solo fértil entre os adeptos da polidez social, e a nova árvore do conhecimento cresceu com tanto vigor que as ramagens atingiram os meios acadêmicos brasileiros, onde sempre há um sofomaníaco disposto a atender as demandas do grande público. Conectados aos tempos modernos, em que tudo o que é venal passa pela mídia, esses doutrinários das boas maneiras vendem uma imagem de estoicismo e superioridade de espírito, e arrebanham uma multidão de fieis dispostos a sacrificarem até mesmo a capacidade de reflexão intelectual para consumir o último produto mental em oferta. Bem treinados numa retórica carregada do jargão das ciências sociais, eles engendram uma logorreia saturada das mais comezinhas generalizações do prosaísmo cotidiano, articulam um palavrório sem profundidade intelectual, um fast food do festim filosófico, pronto a ser engolido por paladares rústicos e apressados em sentir o gosto purificador da boa informação e do equilíbrio emocional, imune aos dissabores do extremismo.

Leandro Karnal é hoje o maior representante dessa tendência. Dotado de certo carisma, uma figura elegante, performance realçada com algumas doses de bom humor, ele arranca fervorosos aplausos de uma plateia que parece pronta a aplaudir qualquer tolice que lhe sirva de alimento espiritual, sem maior exigência quanto ao valor nutritivo, desde que o tempero tenha um gosto aprazível. Basta assistir a alguns dos inúmeros vídeos disponíveis na internet, nos quais o famoso professor exibe erudição e charme na sua parolagem, onde propaga uma ladainha boba e singela, que não rompe as camadas mais externas dos problemas que se propõe a discutir. Uma arenga composta de frases feitas e alogias correntes, salpicadas aqui e ali por uma passagem literária, ilustrada com o nome de um personagem da literatura clássica, um escritor ou filósofo do cânone cultural, mas cujo cerne, para quem quiser procurar, revela-se completamente vazio, desprovido de qualquer consistência, seja filosófica, seja sociológica.

Num dos vídeos assistidos, ele lança invectivas contra a intolerância, a falta de recíproca, a dificuldade dos brasileiros de conviverem com quem expressa pensamento diferente dos seus. Seja no futebol, em religião ou política, lamenta ele, não há mais a boa troca pacífica de críticas.

A primeira coisa que surpreende um ouvinte mais atento a esse discurso é o fato de um acadêmico misturar três instâncias tão distintas umas das outras. As preferências no futebol são movidas por uma paixão. Não há o que explicar quanto aos motivos que levam um indivíduo a se bater pelo time A ou B, e creio que ninguém se preocupa muito com isso. A religião é a necessidade de uma pessoa de se agarrar a algo que ela acredita ser superior e que vai dar sustentação a sua existência. Discutir religião é pôr em risco toda a estrutura de conceitos sobre os quais a pessoa organiza sua vida. É por isso que muitos crentes não aceitam o menor vestígio de dúvida sobre suas quimeras. Se essa resposta tem muito de condicionamento emocional, também é certo que se origina de um instinto de sobrevivência, e assemelha-se à busca de um anteparo diante de um perigo ancestral: o medo provocado pela consciência do abandono num universo que não se consegue conhecer integralmente.

Já a política não é uma simples aventura inspirada no alvitre pessoal. Trata-se aqui de um caminho escolhido em função de um processo de aprendizado cultural no que concerne aos assuntos que condicionam a vida em sociedade. Diferente do futebol, onde as escolhas são emocionais, e da religião, onde os motivos são místicos e de natureza espiritual, na política, as opções são baseadas nas afinidades com os projetos políticos que os partidos representam.

Essa postura do professor traz implícito aquele estereótipo de que política não se discute. É uma sentença criada para que as tramas políticas sejam dadas como naturais, coisas de esferas inatingíveis para o cidadão comum, Trata-se, evidentemente, de retirar os temas políticos do debate em lugares públicos, e condicioná-los aos espaços previamente consagrados a esse fim, como as instituições e a academia, pois como se sabe, nesses ambientes só entram os juízos permitidos por quem está no comando.

O segredo do sucesso do Karnal é a habilidade de traduzir os aforismos mais corriqueiros para o jargão acadêmico. Seus ouvintes são aqueles indivíduos que não querem ir além da casca mais exterior dos fatos e buscam uma justificativa para as suas fraquezas intelectuais. Quando uma pessoa não encontra energia para apreender a complexidade da vida, sai à procura de alguém que legitime e valorize a superficialidade e os preconceitos das ideias prontas. Só assim é possível entreter-se em bate-papos descontraídos com os amigos, pois se sabe que todos os provérbios são válidos e merecem ser respeitados. E mais ainda, fica-se com aquela agradável sensação de estar contribuindo para a paz e a harmonia dos costumes.

Naturalmente que não há o que se preocupar com o fenômeno atual das celebridades acadêmicas. A Karnalidade é venial; não passa de uma pregação para convertidos, seres ingênuos que confundem pabulagem com sabedoria, impressão pessoal com raciocínio, e encaram a busca do conhecimento como uma reunião de camaradagem, onde as nuances subjetivas da fala já são suficientes para atrair ouvintes predispostos ao êxtase da cumplicidade.

No entanto, sempre é bom acrescentar que as inferências da razão não se prestam só para entretenimento no happy hour. Elas são a causa do arrebatamento das atitudes e a justificativa das posições que o sujeito vai assumir na vida, assim como o fundamento dos interesses a serem defendidos. Até aí, nada demais. O problema é que entre esses encargos que as pessoas assumem na vida está a função de governar as outras pessoas e reger os destinos de todo mundo. E mesmo no caso de quem se abstém de pleitear altos postos nas instâncias administrativa e legislativa, suas assertivas podem servir de apoio para aqueles que assumem o controle do poder e determinam os rumos de uma sociedade. Conclui-se daí que o busílis não é a diferença das ideias, e sim os interesses que elas legitimam.

Demonstrar apreço por uma pessoa é um ato de civilidade elogiável em qualquer circunstância, mas não se pode cometer mais um equívoco, muito comum nos dias de hoje: considerar uma pessoa não é a mesma coisa que acatar como válido qualquer disparate que ela proferir. Respeita-se a integridade moral e física da pessoa discordante, mas sem a necessidade de levar a sério uma baboseira descabida só para manter a pose de cortesia.

A tolerância é antes de tudo uma estratégia de preservação mútua, mas é bom ter sempre em mente que as interações humanas vão muito além do papo furado de uma mesa de bar.

Sem Título-1

A classe do ódio

O brasileiro é um sujeito que ama o verbo odiar. Apesar de todos os clichês com pretensões antropológicas do país da alegria, do êxtase carnavalesco, do reino do improviso, do hedonismo praieiro, mesmo com todos essas abstrações para afirmar o contrário, o povo brasileiro sofre de uma necessidade congênita de detestar alguém, ou alguma coisa.

Quais as causas disso? Ressentimento? Alguma experiência atávica de maus tratos? Não sei. Mas posso afirmar que a malevolência exacerbada sempre busca um alvo no qual se projetar e realizar uma catarse paliativa. Uma curiosidade encontrada no dicionário Houaiss aponta para uma linha interessante de análise: o ódio é geralmente provocado por uma sensação de medo. Qual o monstro que polui as paisagens verde-amarelas com as manchas negras do pavor?

Percebe-se, também, que algumas circunstâncias ou pessoas, por vezes, canalizam esse mal estar da falta de civilização tupiniquim de maneira mais intensa do que o normal. Quais as variáveis que desencadeiam esse paroxismo das hostilidades? Isso só psiquiatras e os psicólogos poderiam responder. A sugestão que trago neste texto é a de que, no momento atual aqui no Brasil, o alvo preferido da perversidade brasileira é o Lula.

Certo! Alguém vai argumentar que as denúncias envolvendo o ex-presidente em esquemas de corrupção seriam suficientes para desejar seu fim político e até sua execução sumária se no Brasil houvesse a pena capital. A isso eu responderia que sim, as acusações são graves e, se acompanhadas de provas irrefutáveis, devem conduzi-lo também ao fundo de uma cadeia para pagar, junto com os outros, pelos crimes que tenha cometido.

Mas, uma avaliação que leve em conta o desenvolvimento histórico desse fenômeno vai constatar que essa raiva do Lula, que hoje atinge níveis patológicos, já existia antes mesmo de ele ser presidente. Além do mais, forçoso é anotar que essa repulsão expressa em consequência das supostas falcatruas não tem a mesma intensidade quando se volta para outros políticos, cujas delações são até mais graves.

Um aspecto interessante de investigar é que essa rejeição é detectada em todos os meios sociais com a mesma virulência. Só como exercício de reflexão eu arriscaria algumas hipóteses. E começo por afirmar que em cada degrau da escada social brasileira, essa cólera contra o Lula é gerada por um vírus diferente.

Comecemos pelas tradicionais oligarquias, que é mais fácil. Um grupo de pessoas que se acostumou a mandar, sem nenhuma contestação, por muitos anos, não imaginava que um dia fosse enfrentar o revés de compartilhar o poder. Quando as urnas anunciaram a vitória de um intruso, fugitivo da indigência do Sertão nordestino, os déspotas embrutecidos não se incomodaram muito, pois acreditavam que aquele ex-operário, que nem sabia falar o português correto, que nunca tinha exercido nenhum cargo importante, iria tropeçar nos próprios pés e cair antes do final do primeiro ano de governo. Mas o ex-analfabeto foi para o segundo mandato, e ainda elegeu uma sucessora, tornou-se um líder nacional e uma referência internacional de governo progressista voltado para questões sociais. A elite enlouqueceu e como não tolera que um forasteiro qualquer, estranho ao seu seleto grupo de comparsas, tente chegar ao comando da nação, está disposta a qualquer coisa para evitar novas ousadias. Nada mais compreensível. O medo, aqui, é o de perder o comando que sempre exerceu da situação.

Depois temos as invectivas que explodem na goela daquela gente que vive espremida entre o andar de cima e o de baixo, numa oscilação histérica entre o desejo de subir e a ansiedade pelo perigo de cair. Aqui começam os problemas, pois esse segmento social que chamamos de classe média é uma abstração sociológica, uma vez que abrange um número muito grande de extratos e não tem uma identidade bem definida. Por outro lado, não é todo cidadão mediano que sofre irritações da bílis. Existe apenas uma parcela desse povo intermediário cuja capacidade de entender o processo de formação da sociedade é totalmente suplantada por um ressentimento incontido, disfarçado de indignação política. É aquela parte que presta serviços mais diretos para o patronato e, por causa dessa proximidade, e também por juntar as migalhas que os endinheirados deixam cair, acredita ser contemplada com as benesses que caracterizam a riqueza. Como se sabe, qualquer criatura acostumada à submissão, e sem identidade forte, gosta de se sentir uma espécie de extensão do ser a quem obedece, assim como um bebê se considera o prolongamento da mãe que o alimenta. É exatamente por não saber o lugar que ocupa na escala social que esse contingente subalterno adotou o discurso dos ricos e se bate com unhas e dentes a defender valores que não possui, mas acredita possuir. Em consequência, não aceita, de maneira nenhuma, ser governada por um presidente estranho às esferas superiores.

Resta ainda meditar sobre o rancor daquelas pessoas que habitam nas camadas financeiramente mais baixas da sociedade, e que popularmente chamamos de pobre. Esse é um pouco ainda mais complicado, por isso concentro o foco sobre um dos aspectos: o fato deles odiarem um homem que construiu toda uma trajetória pessoal a trabalhar para que eles, os pobres, melhorem de vida. Parece um paradoxo que tais pessoas espanquem com tanto ardor alguém que tenta ajudá-las e, ainda por cima, lancem contra a vítima tantos insultos baseados em incriminações carentes de provas, que mais parecem fofoca do que uma etapa de uma ação criminal. Arrisco mais um palpite. O problema é a naturalização da miséria. Muitas pessoas que levam a vida nos limites da sobrevivência acostumaram a acreditar que a vida é assim mesmo, quem nasceu na penúria vai morrer na pindaíba, deus quis assim etc e tal. Aí aparece um homem que saiu de um ambiente tão miserável quanto aquele em que o sujeito está vivendo e diz a ele, olha, o pauperismo em que você vive não é natural, ele foi construído ao longo dos séculos, juntamente com uma série de mentiras sobre a santificação da vida simples, e você deve tomar uma atitude para se livrar dessa condição sub-humana, lutar por seus direitos. Aliás, você sabia que tem vários direitos que lhes são negados? Não? Pois é. Os mesmos homens que te mantêm nessa mendicância te enchem a cabeça de caraminholas, e te negam benefícios garantidos por lei. Vamos lá, levanta a cabeça, vamos lutar!

Pronto, foi o que bastou para aquele pobre coitado se ver enredado em muitos conflitos de ordem moral. Desobedecer ao meu chefe? Eu tenho de lutar? Mas a gente não ganha tudo de graça? E eis que sua resposta é o punho cerrado, a mão cheia de pedras para escorraçar aquele que evidenciou que a pobreza não é uma condição natural, que a gente pode sair dela se quiser. É só se unir a outros indivíduos da mesma situação e juntos formar uma barreira de resistência contra a exploração e os desmandos dos tiranos. Aí o pânico se instalou de vez. Muito pior do que as torturas da inópia são os limites impostos pela falta de coragem.

Com essas interpretações, conclui-se que, dos três segmentos citados, apenas o primeiro, a classe dominante, nutre uma aversão a um alvo externo, a um alienígena que ameaça seus interesses diretos. Nos outros dois casos, o ódio é consequência de uma visão deturpada do mundo em que vivem e desconhecimento das variáveis que condicionam uma existência humana. Em resumo, um ódio a si próprio.

lula novo Dudu

Um Sonho de Natal

Um Sonho de Natal

Acho que foi efeito da bebida que tomei naquele clima de calor infernal. Noite de Natal, a gente se empolga na euforia de comemorar o aniversário do Salvador, bebe um pouco mais, e aí já viu. E era vinho branco, geladinho. Vinho tinto é na Páscoa, aquela história de isto é o meu sangue, coisa e tal. No Natal pode ser branco. Ou não pode? Vai ver que foi por isso. Foi um castigo. Eu tive um pesadelo. Tá, nem foi um pesadelo, só um sonho ruim que me fez acordar suando. É que fazia um calor dos diabos.

Mas foi assim: eu ia caminhando numa trilha, dessas de caminhadas ecológicas que os grupos de turistas fazem. Só que eu ia sozinho. Era tipo uma peregrinação no dia de Natal, e o sol queimava a cabeça da gente cá em baixo. O caminho passava por um vale no meio de umas montanhas, quando me dei conta, não sabia mais onde eu andava. Quer dizer, totalmente perdido. Aí, olhei prum lado, olhei pro outro, só montanha, e lá em cima, o céu. Segui andando, eu acreditava que naquele rumo eu chegava a algum lugar. Quando de repente, olhei pra frente, em cima de uma pedra, um velhinho de barba branca, e uma roupa esquisita, que visto de longe se assemelhava a um vestido longo, marrom ou vermelho, nem sei direito, amarrado na cintura com um laço branco. E o mais estranho é que de imediato eu sabia quem era, assim, na base da intuição, ou da fé. De início, até tive umas dúvidas, mas assim que cheguei mais perto, confirmei. O velhinho era deus. Isso porque ele disse que não podia chegar muito perto, que a luz dele podia me cegar, e aquelas coisas que nem do filme do Charlton Heston. Mas aí eu perguntei

- O que o senhor anda fazendo por aqui?

- Descansando um pouco. Nessa época, lá em cima, chegam muitos pedidos dos humanos. É um saco, não consigo atender todo mundo nem na eternidade. Não aguento mais o período de Natal.

- E como chegou até aqui? É que eu estou perdido.

- Basta eu dizer que quero estar em algum lugar, e pronto, já estou. Na verdade, faz alguns dias que cheguei. Assumi uma identidade falsa de humano e fui dar um passeio na cidade, ver de perto como anda meu povo, mas desisti, vim procurar um refúgio calmo pra relaxar.

- E o que achou desse nosso mundo? Pra mim é tudo muito confuso.

- Confuso e decadente. Bem como disse o Caetano, aqui tudo parece construção e já é ruina. Até as pessoas são muito mais velhas do que eu imaginava lá de cima. Todo mundo sofrendo por besteira, envelhecendo antes do tempo. Vão morrer cedo. O Adão, que não tinha vaidade nenhuma, viveu novecentos e sessenta e cinco anos.

- Até as mulheres? O que o senhor achou delas?

- Essas fazem todo o tipo de maluquice pra esconder a decadência. Eu fico até com pena, mas não vou me meter mais. Os conselhos que eu dei pra Eva não adiantaram de nada, então, larguei de mão.

- Ah, ainda mais o senhor que gosta das novinhas.

Deus me lançou um olhar ameaçador, mas disfarçou em seguida e fez que não tinha entendido. Nem esperei ele falar e acrescentei.

- Aquela história de emprenhar virgens. Eu leio a Bíblia.

Ele trocou de posição em cima da pedra, se acomodou melhor, e falou, como se desculpando.

- Pois é. Eu precisava de um filho pra organizar a bagunça que estava isso aqui em baixo. Querias que eu fizesse o quê? Esperasse a menina crescer, estudar, arrumar um emprego? Aí ela virava feminista.

- Ué, mas não foi o senhor quem criou tudo, inclusive o feminismo?

- Não. Eu não criei tudo o que existe. Se tu leste a Bíblia, sabes que houve um dos meus súditos que se rebelou, queria fundar um partido de esquerda no céu. Dei-lhe um chute na bunda e mandei pros quintos dos infernos. Então ele veio aqui pra terra azucrinar os fracos com tentações. No começo, ele só oferecia maçãs, e conhecimento, mas aí as pessoas foram ficando gananciosas, o olho cresceu, queriam roupas de grife, carros de luxo, e aí ele inventou a propina, a corrupção, o socialismo, o partido de esquerda. E também o feminismo.

O criador parecia muito triste, e embora eu não pudesse ver totalmente seu rosto por causa da barba grande e da distância mantida entre nós, tive a impressão de que havia uma grande frustração com a humanidade. Tentei retomar a conversa

- Mas deus, me diga uma coisa, que eu sempre tive curiosidade. Por que o senhor não destruiu o dito cujo, o coisa ruim, e todo esse pandemônio que ele espalhou na terra? Não podia simplesmente enquadrar numa única lei toda essa pestilência que o chifrudo lançou no mundo e revogar tudo, assim como o Temer tá fazendo hoje?

- Não é tão fácil assim. Criar é barbada, mas descriar é outra coisa. Preciso ter uma justificativa.

- Mas e essa súcia que inferniza a vida da gente, o Sartori, o Temer, Bolsonaro, Crivella, o Trump, não é um motivo suficiente?

- Eu não me meto em política.

- Ah, o senhor não, mas a sua Igreja, os padres. Sem falar naqueles que se metem na política em seu nome. O Crivella, por exemplo, fala muito no senhor.

- Não sei quem é, não conheço.

Dava pra ver que ele se irritou quando eu falei na promiscuidade dos padres e a política, mas eu estava tomado de uma sensação tão extraordinária, me sentia muito corajoso e resolvi espichar um pouco mais o assunto. Mas me ocorreu testar se ele sofria daquela vaidade masculina tão comum aqui na terra.

- Mas voltando à mocinha de que falei antes. Aquela história de engravidar só com o espírito é só pra enganar os trouxas, né?  Os deuses gregos viviam copulando com as humanas, mas eles assumiam a culpa.

- As histórias dos gregos eram tudo invencionice, superstição. Não mistura as coisas.

Ele, visivelmente irritado, mas eu, possuído pelo espírito maligno da provocação, continuei:

- O senhor pegou a menina, levou pra estrebaria e mandou brasa.

- Não era estrebaria, seu burro, era uma manjedoura. E essa só apareceu depois, quando o guri nasceu.

- Manjedoura é o cocho que fica na estrebaria, portanto é a mesma coisa. É onde os animais vão comer, sem duplo sentido. Então, seu filho nasceu numa estrebaria. A propósito, pelo que eu li na Bíblia, o pirralho quase se ferrou. O senhor deixou o filho assim abandonado numa manjedoura ou estrebaria, só com a menina adolescente e um carpinteiro que quase nunca se manifesta. Depois o outro rei lá queria matar o guri e matou um monte por engano. O senhor não deu a atenção que devia. Se fosse hoje o senhor seria processado por abandono de incapaz.

- É que a coisa tinha que ter um apelo dramático pra render uma boa história. Naquele tempo o povo já gostava muito de melodrama. E ainda não existia uma maternidade, obstetra, essas bobagens de hoje. Além do mais, naquela época, era natural uma menina parir cedo, ninguém se incomodava, e não existia uma Maria do Rosário pra encher o saco.

- Ué, pensei que o senhor não gostasse de política.

E foi aí que ele deu um pulo de onde estava e se veio em direção a mim, os olhos dele começaram a soltar fogo e eu vi que ele tinha o propósito bem claro de revogar a minha existência. Saí correndo e gritando e acordei todo suado.