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As Palavras e As Pessoas

Eu nunca me dediquei a esses estudos sobre a relação entre as palavras e as coisas. Tema de especialistas, filósofos, linguistas, complexo demais para a minha discreta capacidade intelectual. Mas gosto de observar os humanos e vislumbrar as vinculações que eles estabelecem com as palavras.

A linguagem é condicionada pelo status social. Isso é do conhecimento de qualquer um que já tenha lido alguma coisa sobre esse tópico. Mas o que me deixa pensativo é perceber que algumas criaturas acham que basta fazer uso de determinado vocábulo para dominar a realidade que ele denomina. Por exemplo, usar um termo do jargão erudito para se ver possuidor de erudição. Ou então, assumir os hábitos de fala dos ricos para se sentir titular de polpudas contas bancárias. Existe também o linguajar dos vanguardistas. Não quer se sentir um conservador antiquado que perdeu o bonde da história e não tem meios suficientes para correr atrás? Muito simples: basta observar o palavreado que os moderninhos usam e repetir igualzinho, que nem papagaio, e, pronto, tudo resolvido. Não importa que defenda ideias retrógradas, que se deixe levar por devaneios saudosistas, com saudade dos velhos tempos.

O importante é expressar tudo isso com um vocabulário renovado. Por exemplo, nos dias atuais, acabar com as leis que garantem os direitos sociais não é retroceder ao tempo dos escravos, quando uma multidão era excluída dos recursos básicos de sobrevivência. Isso é visão de gente sem horizonte, que não mira o futuro. A dicção correta, usada por profissionais que entendem do assunto e estão em sintonia com os novos tempos, é flexibilizar. O processo, assim como o resultado, é o mesmo, mas a maneira de dizer é mais bonita e não causa tantos danos. Então, não vamos atacar os necessitados e expropriá-los de seus benefícios mínimos, vamos livrá-los da dependência do estado e torná-los cidadãos autônomos e livres para gerirem a própria vida. Em qualquer das alternativas, as vítimas vão morrer de fome da mesma maneira, mas o novo estilo expressa uma ideia mais nobre.

Essas divagações se enfiaram minha cabeça adentro durante um trajeto dentro de um ônibus, em que o tédio da paisagem já muitas vezes vista despertou em mim um desejo de viajar por outras dimensões diferentes, sem os solavancos causados por uma rua esburacada. Num ato de quase rebeldia, meus olhos saíram pela janela do coletivo e se espalharam pelos letreiros das casas de comércio, na esperança de encontrar alguma coisa nova. Tão curiosos estavam que pousaram em cima de uma placa onde se lia bike store, em letras coloridas e bem grandes. Lá eles se detiveram pelo tempo em que novos passageiros embarcaram, ao fim do que o ônibus seguiu viagem. De volta, comunicaram ao cérebro o que viram, e este, na ânsia de se ocupar com algo diferente, se pôs a matutar. Por que bike store e não loja de bicicleta, se as duas dizem a mesma coisa, e além do mais, em português, o anúncio seria entendido por todo mundo. Sim, há de se levar em conta que alguns brasileiros, os desvalidos da sorte, não sabem o que é bike nem store.  Pois aí é que está o busílis, pensei eu de imediato. A loja não é para compradores humildes, aqueles que andam de bicicleta, e sim para quem sabe o que é bike store.

Aí ocorreu-me uma explicação para o fenômeno. Antigamente, a bicicleta era um meio de transporte utilizado por operários para se deslocarem para o trabalho. Andar de bicicleta era atestado de pobreza e demonstração de que o condutor trabalhava num emprego modesto, normalmente serviço pesado, como pedreiro, ou algo assim. Mas aí, veio a moda do esporte, vida saudável, coisa e tal. E aqueles viventes mais antenados, que gostam de andar sempre à frente do seu tempo, (quando eu era criança, dizia-se prafrentex) resolveram que era melhor perder peso do que perder a onda do momento e se atracaram a fazer exercícios. Um dia, começaram a viajar para o mundo civilizado e descobriram uma coisa fantástica. Lá, os habitantes de todas as condições sociais andavam de bicicleta, tanto o cavalheiro de terno e gravata, com sua pasta de executivo amarrada ao bagageiro, quanto a secretária, que desfilava sua elegância muito bem equilibrada em duas rodas. E também o velho aposentado e o adolescente colegial. A bicicleta era mais usada do que o carro, que alimenta os sonhos de consumo daqueles consumidores que podem viajar porque trabalham em empregos bem melhores que o dos ciclistas conterrâneos. Um dia, no meio da horda de turistas que invadem anualmente o continente europeu, alguém teve um lampejo de criatividade e sugeriu: e se, lá no Brasil, a gente passasse a pedalar como forma de exercício, para passear aos domingos no parque, uma distração bem chic, igual a essa que o povo tem aqui? A outra viajante respondeu: uma bicicleta? Vão pensar que a gente é operário de obra. Instalou-se o impasse e a expectativa de contemplar o mundo do alto de duas rodas já ia quase derrapando, quando uma integrante do grupo, uma moça que frequentava um cursinho intensivo de inglês para ir a Miami comprar os presentes de natal, apontou uma saída. Ia pesquisar como se diz bicicleta em inglês. Empenhou-se numa busca no Google translator e a solução veio como uma simples pedalada. E foi assim que gente elegante e de boa família, cidadão de bem, passou a andar de bike e deixou a bicicleta para aqueles trabalhadores de baixa extração social. É bom lembrar que, para esses, não importa muito o léxico que dá nome à coisa. Isso só interessa para quem quer subir na vida sem muito esforço e descobre que aquilo que poderia conduzir a esferas mais altas está associado à ideia de desprestígio. Então, é necessário criar uma nova nomenclatura para afastar a coisa do meio que a contamina com pobreza e falta de requinte social.

Foi isso que aconteceu para que uma simples bicicleta se transformasse em bike. Pode-se dizer, então, que os novos ciclistas viajam na palavra, que é um veículo de transporte bem mais seletivo e muito mais seguro.

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