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A leitura do prazer, o prazer da leitura.

O ano de 2015 já se despedia quando peguei o último livro para me entreter durante o recesso de fim de ano. Era um que descansava há muito numa pilha em cima da mesa, e de vez em quando se atravessava na minha frente, com trejeitos sedutores e promessas de gozo. E eu sempre postergava o momento do deleite, assim como quem prolonga o estágio da sedução para que o ato de entrega seja mais intenso e prazeroso.  Até que finalmente pensei numa leitura leve e deliciosa para compensar o tédio natalino. Já de início, ainda nas preliminares, vislumbrei uma relação muito mais intensa do que um simples caso passageiro de férias de verão. E então me envolvi profundamente com o melhor livro que li, não só em 2015, mas também nos últimos anos. Trata-se de A mulher do Próximo, de Gay Talese, editado no Brasil pela Companhia das Letras.

Não é uma obra de ficção. Na verdade é um projeto jornalístico que consumiu vários anos de pesquisa, depoimentos dos participantes, e até uma imersão do repórter no universo estudado. Basta lembrar que Gay Talese é um dos nomes mais importantes do movimento conhecido como Jornalismo literário. Isso explica o tratamento do material em estilo romanceado, onde os indivíduos abordados são tratados como personagens fictícias, com a vida vasculhada e exposta sem discrição nem piedade, embora estejam identificados com os nomes verdadeiros. Talese descreve inclusive a si próprio em terceira pessoa, numa narrativa sem pudores de suas aventuras com as pessoas com quem conversou durante a execução de seu plano.

Até aí, nada demais, reportagem séria não omite nem distorce dados. Mas quando a gente apreende a dimensão do tema com que o autor se ocupou, novas e fascinantes expectativas tornam a leitura ainda mais excitante. O subtítulo do livro antecipa o que o leitor vai encontrar: “uma crônica da permissividade americana antes da era da AIDS”. Na verdade, é um retrato ampliado dos movimentos que pregavam e praticavam a liberdade sexual sem restrições, desde as comunidades que surgiram no Sec. XIX, até os anos 80 do Sec. XX, quando o vírus HIV apareceu como um forte argumento no discurso e na prática dos puritanos.

O primeiro personagem a desfilar pelas páginas do livro é talvez o mais interessante da obra, e é dele que se ocupa a maior parte do texto. Trata-se de Hugh Hefner, o visionário fundador da revista Playboy, em 1953, que em menos de um ano de venda de sua publicação tornou-se um milionário egocêntrico, cujo perfil é delineado com fortes traços de imaturidade emocional, e que, sem nenhum constrangimento referente à ética profissional, levou pra cama quase todas as mulheres que posaram para a revista. Era um homem de quem se poderia dizer que trabalhava por prazer.

Um dos temas que aparecem já no começo do livro é o papel das revistas masculinas. Quase sempre atacadas como produto do machismo, para o qual o corpo feminino não passa de objeto transformado em mercadoria de consumo, elas representaram uma reação ao puritanismo que amordaçava a sociedade americana nos anos de 1950. Elas mostravam aquilo que a sociedade insistia em negar: o prazer sexual dissociado de qualquer outra atividade que não a satisfação dos sentidos. Elas significaram um indiscutível ponto de fuga para relaxar as tensões reprimidas dos rapazes solteiros, homens tímidos ou solitários, que não se conformavam mais em pensar no sexo apenas como uma obrigação do casamento, para fins de procriação. Nesse sentido, as revistas de nu feminino são um ato de irreverencia e contestação para fugir de uma mentalidade opressora. O sexo, diziam os defensores da liberdade plena, é uma atividade física como outra qualquer, como nadar numa piscina ou fazer ginástica, que libera energia bioquímica e provoca relaxamento do corpo e da mente, e não precisa estar atrelado a nenhum outro princípio ou propósito que não o próprio prazer. Portanto, não depende de ser praticado sempre com a mesma pessoa, como propõe o casamento monogâmico burguês.

E nesse ponto aparece outro dos aspectos mais interessantes do livro. Um painel histórico das comunidades de amor livre, troca de casais e sexo em grupo, encontradas em solo americano desde o Sec. XIX. Talese apresenta uma visão extremamente densa dessas vivências, pois no seu sistema de investigação, a pesquisa envolve um conhecimento genuíno do objeto de estudo. E mesmo sendo um homem casado, num matrimônio mantido sob os padrões burgueses da classe média americana, ele não se furtou de ter uma experiência viva para relatar, quando uma das mulheres entrevistadas pegou o entrevistador pela mão e o conduziu a um quarto, sob o olhar complacente do marido.

O livro não ignora também as campanhas moralistas para conter a onda de permissividade. Entidades religiosas, grupos de militantes da moral, quase sempre com a colaboração de um poder judiciário que deixa de lado a imparcialidade e a objetividade das leis quando a questão envolve valores morais. Mas é claro que a trajetória dos indivíduos que lutaram pela propagação do prazer sem culpa é muito mais interessante. E a leitura muito mais prazerosa

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