Brazilians Show Their Support For Current President Dilma And Former President Lula

Esperança Cidadã

Venho a público confessar um erro cometido aqui, num outro texto, uma premonição sobre as eleições de 2018. Desde o começo de 2016, quando os ataques contra a Dilma começaram a atingir os mais baixos níveis, eu predizia os próximos acontecimentos: a queda da presidente, a prisão do Lula, com ou sem provas, com a cassação de seus direitos políticos. O resultado parecia óbvio: Geraldo Alckmim, representante político da Direita defensora do livre mercado, seria o próximo mandatário. Esse presságio se baseava numa crença que se revelou equivocada. Mesmo assim acertei dois dos três pontos principais das minhas previsões. Só errei o último porque eu acreditava que, ao investir numa campanha desleal contra uma chefe de governo que não cometeu nenhuma irregularidade administrativa; forçar o judiciário a produzir absurdos jurídicos para prender o principal concorrente ao cargo soberano, era de se esperar que a Direita tivesse um plano de retomada do controle perdido em 2002. Eis a minha falha, humildemente assumida, porque meu intento é apenas entender os fenômenos sociais em vez de fazer os fatos encaixarem em preconceitos e generalizações do senso comum.

A Direita brasileira, desde sempre no comando da Nação, alimenta a fantasia de que o poder lhe pertence por lei natural, e que bastaria tirar o Lula do caminho e já poderia voltar ao trono, sem traçar nenhum esquema para conquistar o apoio de uma população que, aos poucos, vai aprendendo que pode protagonizar sua própria história. Para isso, seria necessário, em primeiro lugar, um político que canalizasse as aspirações populares e conquistasse a confiança do eleitorado. Embora muitos membros da ala direitista não gostem, a única maneira legítima de chegar ao poder numa Democracia, ainda é pelo voto. O problema é que a Direita brasileira não tem mais ninguém com esse perfil. O Aécio Neves, que não aceitou o resultado do pleito de 2014 e desencadeou a crise política vivida até hoje, acabou se afundando na lama que ele próprio criou. Sobrou o Alckmim, que além de estar com o nome enlameado por denúncias de corrupção, não consegue esconder a falta de carisma. Nem mesmo os empurrões indisfarçáveis da velha mídia conseguem fazer o público se empolgar com um discurso visivelmente decorado e sem conteúdo convincente

Então, o que sobrou para compensar a apatia da Direita? Ora, qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de história sabe que, quando não há um programa com metas definidas, surgem os aventureiros, oportunistas cuja maior habilidade é manipular os níveis de frustração das multidões e atiçar o ódio e o desejo de reparação de expectativas malogradas. Foi assim na Alemanha nazista, foi assim na Itália fascista, e há um grande risco de ser assim no Brasil do golpe.

Bolsonaro, líder nas pesquisas de intenção de votos, não era o escolhido da Direita. Ele apenas se tornou o ponto de convergência das quimeras dos órfãos do neoliberalismo brasileiro marcado pelo enterro do PSDB. Parte desse contingente de votantes apostou em Aécio Neves em 2014 para impedir um governo voltado para os programas sociais e Direitos Humanos. Agarrou-se a um discurso moralista anticorrupção reforçado por uma mídia sem escrúpulos que confunde boato com notícia. Mas quando as lideranças peessedebistas caíram na vala comum da ladroeira nos círculos oficiais, esse eleitor não suportou a vergonha e a humilhação de tamanha insanidade. E como não atina desenvolver um raciocínio além das comparações só consegue interagir com os acontecimentos por uma ligação passional. Ora, as paixões mais comuns para a humilhação e a vergonha são o ódio e o desejo de vingança. E no caso concreto dos seguidores de Bolsonaro, esses sentimentos se voltaram para toda a classe política, evidentemente, uma estratégia inconsciente de amenizar o desatino da escolha anterior. Na eterna incapacidade de entender a gênese de qualquer fenômeno social, esse moralista corroído pela mágoa vê na classe política a origem de todos os males da sociedade. Aí surgiu o ex-capitão entoando a ladainha do estranho no ninho congressista, aquele que não faz parte de grupos de interesses escusos nem de negociatas. Além disso tudo, está à frente de uma facção de igrejas evangélicas e, apesar da fachada de cristão, esgoela-se numa zoada violenta, bem ao gosto dos fracassados de toda sorte. Some-se a isso uma postura altamente conservadora dos valores morais, calcados numa noção antiquada de família apoiada na imagem da mulher perfeita que, segundo as regras da extrema direita, é a mulher bem vestida, comportada, educada, condicionada dentro de padrões de beleza e feminilidade criados pelo patriarcalismo e destinados apenas à procriação de rebentos saudáveis. Está implícito nesse perfil o medo da mulher politizada, independente e liberada, que faz o que quer do próprio corpo e realiza seus próprios desígnios. Então, o ex-militar se tornou o enviado dos deuses para salvar essa pobre alma abandonada no deserto das agruras, longe da concretização daqueles princípios que alimentam uma triste fantasia de perfeição humana; um sujeito que só se nutre de um desejo obsessivo de vingança pelo paraíso perdido. Está implícito na fala de qualquer bolsonarista uma ânsia incontrolável de desforra.

Mas, felizmente, há outra coisa que a Direita não previu, nem eu considerei: não adianta prender o Lula, pois o lulismo está solto e impregnado na alma do povo. O que a atual campanha está mostrando é que qualquer candidato que se comprometer com o projeto de Lula para o país tem muito mais chance de ser contemplado com o sufrágio dos brasileiros. Por isso, neste momento alimentamos duas esperanças já quase perdida: reverter os estragos da aventura temerista e barrar o avanço dessa onda de obscurantismo e retrocesso que atormenta as mentes mais esclarecidas.

Razões para acalentar essa expectativa não faltam. Por exemplo, o nível de conscientização produzido pelas políticas de inclusão do governo Lula. Pessoas que antes eram perseguidas, excluídas ou simplesmente ignoradas nas suas necessidades e anseios, a partir de 2003 foram chamadas a participarem do processo democrático, com o ingresso nos programas de distribuição de renda que promoveram uma mobilidade social e níveis de cidadania jamais sonhada; usufruíram de direitos até então desconhecidos, e agora não aceitam voltar a um estado anterior, onde a existência corria num estágio quase animalesco, limitada apenas às manifestações biológicas. Pois é essa gente que hoje está unida para derrotar a traição da turma de Temer e retomar o caminho de um país mais livre, de mente mais progressista, em sintonia com os movimentos humanistas que brotam mundo afora. Uma força extra, inexistente em eleições anteriores, é o movimento de mulheres contra o fascismo, uma onda de revolta incontrolável para destruir aquele perfil feminino de bela recatada e do lar que os eleitores de extrema direita tanto idolatram.

Parece mera coincidência, mas tudo isso acontece justamente no momento em que a Constituição Cidadã, de 1988, que teve alguns avanços no caminho da manutenção de direitos sociais e humanos, completa trinta anos, apesar de maltratada, desrespeitada e até ignorada por quem devia resguardá-la. Então, diante do perigo de uma tragédia iminente, que jogaria o país mais uma vez nas trevas e na barbárie, resta-nos essa esperança, o espírito de resistência nascido de uma experiência de cidadania que, por mais tímida que seja em relação às democracias consolidadas, é a única coisa que pode nos salvar de um grande salto para trás, para um passado que já vivenciamos e não aceitamos mais.

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