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Terra de Gigante

Era uma vez um pais muito distante, chamado Bananópolis. Tinha esse nome porque era muito rico na produção de bananas, uma verdadeira república das bananas. Lá vivia uma população muito pacata, ordeira e pacífica. Dizia-se que esse país era abençoado porque possuía muitas praias, um clima tropical e recebia todos os anos muitos habitantes de outros reinos que viajavam para conhecer essa maravilha de cenário, e todo mundo fazia festa. As mulheres do país nativo dormiam com os visitantes que vinham se refrescar no litoral paradisíaco, para que eles se sentissem o mais bem atendidos possível e esses visitantes ficavam tão felizes e agradecidos que deixavam a essas belas recepcionistas lindos presentes, tais como dólares e euros. O país também possuía muitas florestas, muitos rios e pássaros com plumagens de todas as cores. Mas nessas florestas também havia muitos tesouros escondidos, muita riqueza guardada e que só poderia ser usada pelos bananopolisenses. Para guardar essa riqueza, havia um gigante que morava num castelo muito grande na entrada da floresta e ninguém podia entrar lá sozinho.   Era um Bicho Visagento chamado Magog, que vestia sempre uma camisa verde e uma calça amarela, que simbolizavam as riquezas que ele guardava, a floresta e o ouro. Mas acontece que o gigante estava adormecido, deitado eternamente em berço esplêndido e ninguém podia fazer barulho perto do castelo para ele não acordar, porque se o sono dele fosse interrompido bruscamente ele levantava furioso e batia em quem fizesse barulho.

Porém, num reino vizinho, chamado Yankland, tinha um rei muito malvado, chamado Trompete, que queria se apoderar do tesouro de Bananópolis, mas não queria fazer uma guerra de invasão porque os bananopolisenses eram muito úteis a ele.

O povo desse país das bananas vivia na pobreza esperando que o gigante acordasse para poder usar o tesouro, pois só Magog sabia distribuir a riqueza em partes iguais para todo mundo.

No país do gigante também tinha uns homens muito sem-vergonha, os corupiras, assim chamados porque eram de estatura menor, tanto física quanto de caráter. Eles também queriam roubar o tesouro, só que eles também eram pobres e não tinham onde guardar tanta riqueza. Além disso, costumavam pescar peixe nos rios e apanhar frutas escondidos nas árvores da floresta e levar de presente para o rei Trompete, que recebia todos e comia os peixes e as frutas, por isso os corupiras achavam que eram amigos do rei, e cada vez que iam visitá-lo levavam mais peixes e mais frutas que pegavam escondidos e se sentiam muito importantes, porque o rei comia as frutas e os peixes. Antes de irem embora, os corupiras passavam no mercado que tinha na cidade e compravam as cascas das frutas e as espinhas dos peixes que o rei jogava no lixo e os negociantes juntavam e vendiam como relíquias porque eram cascas das frutas e espinhas dos peixes que o rei tinha comido, por isso tinham muito valor.

Aí o rei teve a ideia de convencer os corupiras a carregarem o tesouro para Yankland, que ele guardava e devolvia quando os habitantes de Bananópolis quisessem. Os corupiras ficaram pensando e esperando uma oportunidade para entrarem na floresta e transportarem o tesouro.

Um dia, o gigante teve um ataque de sonambulismo, saiu sem rumo, quebrando tudo que via pela frente, móveis, cristais, louças, arrombando portas e janelas. Os bananopolisenses viram aquilo e, por não entender da natureza do sono dos gigantes, pensaram que Magog tinha acordado, e concluíram que estava na hora de ser feliz. Então, começaram a comemorar. Vestiram camiseta verde e amarela, as mesmas cores da roupa de Magog, saíram para rua gritando, rindo e atirando foguetes.  À noite, eles iam para as sacadas e janelas de suas casas e batiam panelas porque achavam que com esse ritual iam chamar bastante comida para suas mesas.

Acontece que quando foram derrubadas as portas do castelo, os corupiras entraram e começaram a pilhar tudo o que viram. Para não dar muito na vista, disseram que iam fazer uma festa para comemorar o despertar de Magog. O povo acreditou e ficou muito feliz pensando que todo mundo ia ser convidado pra festa. Os corupiras também arrombaram os portões da floresta com a chave que Magog guardava embaixo da cama e começaram a se apoderar do tesouro e levar tudo para o rei Trompete. Quando alguém reclamava, eles diziam que o rei ia devolver tudo depois com juros e que em breve o povo ia usufruir dos bens e ser muito mais rico e feliz.

Mas o tempo ia passando e o retorno financeiro não vinha e o povo começou a desconfiar. Acontece que as pessoas comuns não sabiam onde o tesouro estava escondido e tinham muito medo de entrar na floresta para procurar, e deixavam tudo por conta dos corupiras, que eram homens mais acostumados a andarem na floresta. Então, depois que tiraram todo o tesouro e levaram para o rei Trompete, e receberam muitas cascas de fruta e espinha de peixe de presente, os corupiras revelaram ao povo de Bananópolis que o gigante estava apenas sonâmbulo e precisavam o fazer dormir de novo senão ele ia destruir tudo. Então, deram uma poção mágica e entorpecente e Magog voltou a dormir. No dia seguinte, eles disseram que a festa tinha acabado e que agora todo mundo devia voltar à sua vidinha normal e trabalhar sem fazer muito barulho porque o gigante podia acordar e ficar muito furioso ao saber o que aconteceu.

E, assim, o gigante voltou a dormir novamente em berço esplêndido e os bananopolisenses continuam quietinhos e pacatos, trabalhando sem fazer barulho, esperando que o gigante acorde de verdade por conta própria e aí sim todo mundo vai ser feliz para sempre.

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Feriado Nacional

O ano de 2018 será pródigo em feriados prolongados, aqueles que caem numa segunda ou terça; numa quinta ou sexta, e são emendados com o fim de semana mais próximo. Isso é ótimo para quem depende de emprego para ganhar a vida e precisa acordar às seis da manhã e sacolejar por duas horas dentro de um ônibus abarrotado de gente sonolenta. Esse infeliz vivente vai poder dormir até mais tarde, ou até mesmo o dia todo se quiser. Por outro lado, essas regalias do calendário estão tirando o sono da equipe econômica do governo brasileiro, essa turma tão preocupada com o futuro da nação, e que gostaria até de cortar os dias de descanso dos trabalhadores para que o Brasil não pare de produzir, e siga sua missão inevitável de atingir o progresso e o desenvolvimento.

Eu acho que a supressão de alguns períodos de lazer seria uma ótima ideia, afinal essa plebe brasileira já tem uma tendência natural à ociosidade, e um número excessivo de folgas só contribui para incentivar a preguiça. Por isso, venho a público sugerir a eliminação de algumas licenças remuneradas. Para não me acusarem de leviandade justifico minhas escolhas.

REPÚBLICA. Não vejo motivo nenhum para o feriado de 15 de novembro, o Brasil nunca foi uma república. O próprio ato que derrubou a Monarquia e implantou o novo sistema político não passou de uma quartelada. Os oficiais militares, que protagonizaram a aventura, entregaram o poder a uma das facções que já mandavam antes do golpe, e que não fez outra coisa além de cuidar dos próprios interesses em primeiro lugar, e a coisa pública foi simplesmente ignorada. E hoje o poder executivo não passa de uma cleptocracia exercida por uma quadrilha de mercenários e saqueadores que se refugiou no Planalto Central e está vendendo o país no varejo internacional, e embolsando os lucros do negócio. Então, no 15 de novembro vamos todos ao trabalho.

INDEPENDÊNCIA. Esse festejo é um contrassenso. Que eu saiba, o Brasil nunca foi independente. Um país onde o Banco Mundial determina quais as leis devem ser votadas e aprovadas, quem pode ser presidente e quem deve ficar de fora do comando, um país assim pode até se vangloriar de algumas conquistas, mas nunca de soberania. Atualmente, o partido que toma as decisões na Capital Federal não passa de um bando de lacaios a serviço do capital estrangeiro, recebendo polpudas comissões e depósitos em paraísos fiscais. Minha sugestão, corta-se o 7 de setembro.

DIA DO TRABALHO. Comemoração inútil e sem fundamento. Depois da flexibilização da Lei Áurea, que acabou com as garantias sociais do trabalho, nosso contingente produtivo está submetido a um regime escravista, sem a esperança de surgimento de uma nova Princesa Isabel. Então, primeiro de maio, todo mundo no batente.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA. Até agora falei dos dias de repouso no âmbito nacional. Mas aqui no Rio Grande do Sul ainda temos o vinte de setembro, que exalta a capacidade que a gauchada tem de ignorar a história. Trata-se de um episódio bizarro em que um grupo de estancieiros fez cara feia para a Coroa, levou uma surra e até hoje o estado soleniza a data, como se tivesse obtido uma grande vitória. E para completar o quadro de desatinos ainda chamam isso de revolução, e a consequência é mais um dia de trabalho perdido.

TIRADENTES. Talvez o único feriado nacional com algum vestígio de razoabilidade seja o de Tiradentes. Mas não por ele ter dado a vida pela independência do Brasil, porque, como já disse, nesse aspecto foi tudo em vão. A gente poderia ver o famoso dentista por outro ângulo e elegê-lo como um símbolo do povo brasileiro. Ele se meteu a defender a causa de uma elite endinheirada que não queria mais pagar tantos impostos à metrópole, e por desinformação ou ingenuidade, o simples alferes acreditou que a proposta tinha grandes motivos patrióticos, mas na hora de enfrentar o leão, foi jogado na arena sozinho e pagou a conta com a própria vida, pois era o único miserável entre os insurgentes. Como se vê, não é de hoje que os pobres defendem as causas dos ricos e depois arcam com as consequências.

NATAL E SEMANA SANTA. Mas os dias-santos mais ridículos de todos, e também os mais longos, são os religiosos. Nos períodos de Natal e de Semana Santa, além de vários dias sem trabalhar, a cristandade ainda é jogada num clima esquizofrênico de consumo e excessos de comida e bebida, ou seja, mais dívida e aumento de peso, talvez até com diabetes e pressão alta. Sem falar no absurdo de festejar o nascimento, depois a morte, de um personagem fictício, criado pela crendice popular há mais de dois mil anos, e que nunca teve a existência histórica confirmada por uma pesquisa séria. Portanto, nada de dingoubel e nem coelhinho da Páscoa.

Mas eu decretaria o primeiro de abril como feriado nacional, pois a mentira hoje é a principal característica da camarilha que se instalou no Palácio do Planalto. Basta ligar a televisão nos noticiários para constatar a habilidade que essa trupe tem de inventar histórias mirabolantes. Seria um ótimo dia para ficar em casa sem fazer nada, só assistindo televisão e lendo os jornais de maior circulação do pais, uma verdadeira celebração da mentira e da manipulação. Afinal, papel de bobo o brasileiro sabe fazer direitinho. E o ápice da festa solene seria o final do dia, quando as pessoas chegam em casa e se dirigem às suas sacadas ou janelas e marcam a data com uma barulhenta bateção de panelas.

bem blogado

O golpe dos privilégios

Todo governo espúrio precisa construir um discurso de legitimação. A história é prodigiosa em exemplos desse fenômeno. No Brasil, pode-se mencionar o Regime Militar, que encontrou na retórica anticomunista um aval para todo o tipo de arbitrariedades, por mais que a tal ameaça comunista não passasse de uma alucinação gerada no âmbito da caserna, onde o nível de reflexão intelectual só se comparava ao das beatas da TFP.
O presidente Collor de Mello também precisou recorrer à invenção de um bode expiatório. Como a arenga anticomunista já não mais assustava tanto, a maldição recaiu sobre os detentores de altos salários nos cargos públicos, responsáveis, segundo ele, pelas dificuldades financeiras que o pais enfrentava. Collor contava com a legitimidade das urnas, mas não tinha nenhuma credibilidade fora das camadas da população que o elegeram, pessoas facilmente manipuladas pela desinformação, e ansiosas pela volta de um salvador da pátria. Além disso, mais tarde vieram a público as trapaças feitas por parte da mídia para influenciar os resultados e impedir que o pais fosse governado por um presidente de tendências mais populares. O monstro do comunismo ainda não estava completamente morto. O fato é que o até então mais jovem presidente da história do Brasil, que desfilava ostensivamente, cheio de vigor e energia, se autoproclamou o caçador de marajás. O resultado dessa aventura é do conhecimento de todos.
Agora temos mais um governo ilegítimo e, por conseguinte, mais um bicho-papão, um verdugo da sociedade brasileira. A quadrilha de corruptos que se instalou no poder com o golpe de 2016 nem nisso conseguiu ser original e apelou para o ressentimento popular para atacar supostas regalias de um pequeno grupo de pessoas contempladas, segundo os cleptocratas, com incríveis benesses econômicas. E o alvo do ataque são as remunerações mais elevadas que, segundo a narrativa golpista, significam altos rendimentos, em contraste com a maioria da população que mal consegue lograr um mísero soldo para matar a fome. Uma injustiça, proclamam eles.
Mas, quem são os novos marajás dos atuais impostores? As altas fortunas, que vivem de rendimentos e dividendos isentos de tributos? Os grandes sonegadores, que devem milhões para a Receita Federal? De maneira nenhuma. Com todo o retrocesso patrocinado pela camarilha temerista, seria incoerente que nesse quesito houvesse algo novo, e os grandes vilões da sociedade brasileira, aqueles que só se beneficiam de uma estrutura social anacrônica, continuam sendo os servidores públicos que, na opinião dos usurpadores, usufruem de inaceitáveis vantagens em comparação com os trabalhadores da iniciativa privada. E quais seriam esses proveitos injustos? A mídia nacional, aliada e parceira da fraude, apresenta diariamente inúmeros gráficos e estatísticas para provar a enorme discrepância entre os estipêndios na iniciativa privada e no setor público. E como prova de tão grande desequilíbrio, buscam comparações com os países de primeiro mundo, onde existe quase uma equiparação entre as duas instâncias.
Naturalmente que, devido a tanta responsabilidade e excesso de trabalho, tanto da equipe econômica quanto dos seus súditos na imprensa, os técnicos às vezes se atrapalham e cometem alguns equívocos nas interpretações dos gráficos e das estatísticas. Coisa compreensível para homens que se dedicam com tanta intensidade a resolver problemas de alcance coletivo das finanças públicas. No entanto, seria interessante que, antes de acabarem com as desproporções remuneratórias que corroem as entranhas da nossa pobre sociedade, os novos arautos da justiça social observassem alguns detalhes dignos de nota. Primeiro, nos países civilizados e desenvolvidos, aqueles em que os partidos políticos derrotados esperam as novas eleições para tentarem de novo a conquista do poder, a pequena diferença entre os emolumentos públicos e privados não se dá em consequência de uma desvalorização do serviço público, e sim porque os trabalhadores das empresas privadas recebem um pagamento digno. Se no Brasil essa disparidade é gritante, não é por causa de supostas prerrogativas dos funcionários públicos, e sim porque os trabalhadores da iniciativa privada vivem num regime de quase escravidão, recebendo um ordenado que mal garante a sobrevivência material.
Mesmo caso a questão da estabilidade, tão atacada há muito tempo. Não se trata de um tratamento especial para quem passou num concurso numa empresa do governo. Trata-se apenas de uma compensação por uma dedicação exclusiva, exigida por lei, pois se sabe que, a partir do momento em que assume um cargo no governo, o indivíduo não pode exercer nenhuma atividade paralela, salvo raríssimas exceções, normalmente para cargos do alto escalão.
Então, uma medida que poderia favorecer todo mundo, ricos e pobres, público e privado, seria, em primeiro lugar, um governo legítimo, que tivesse um projeto para o país, e não um plano promocional de vendas das instituições governamentais. Por enquanto, os únicos que desfrutam de concessões especiais em solo brasileiro é a corja de saqueadores que invadiu o governo e expulsou uma presidente honesta e legítima. Essas aves de rapina não fazem outra coisa além de improvisar medidas de última hora para salvarem a própria pele e se safarem das ameaças constantes da justiça. O maior presente que o povo poderia esperar neste momento é ver toda a súcia do Planalto ser escorraçada de Brasília. Ou pelo menos ganhar o privilégio de um alojamento na Papuda.

foto por @bemblogado

heraclito

A musa melancólica

A urgência do homem primitivo em superar suas limitações levou ao surgimento da arte e da ciência. É possível entender a fricção de dois pauzinhos, ou lascas de pedra, que gerou o fogo, como um evento científico. E as pinturas nas cavernas, ainda que revestidas de motivos ritualísticos, adquiriram importância na história da Estética. O medo de viver abandonado num universo desconhecido criou a religião. Veio daí a ideia de uma dimensão superior no além, a qual seria alcançada através da aceitação de algumas regras de comportamento aqui na vida terrena. Arte e religião tornaram-se, então, dois caminhos possíveis para se chegar a tais plenitudes, ressaltando-se que não é raro que elas se confundam, pois que para muitos adeptos, a arte adquire status de rito religioso, em que uma musa, em constante estado de graça, conduz o seu protegido às regiões mitológicas, ao encontro dos soberanos olímpicos.
Tudo ia às mil maravilhas, e qualquer mancebo que se dispusesse a versificar suas mágoas amorosas já se sentia nas alturas, pronto para alçar-se aos píncaros da glória. Porém, lá pelas tantas, o poeta Victor Hugo veio alertar para o surgimento de outra musa, conspurcada pela moral cristã, que sofria da principal característica do cristianismo: a melancolia. Tratava-se de uma fadinha sacana, cansada daquela estopada retórica, e queria algo mais funambulesco. Logo que assumiu suas funções, essa madrinha da inspiração se encarregou de turvar a vista dos poetas, apresentá-los às coisas menos dignas de admiração, em vez da face imponente do herói, introduz uma caricatura de fisionomia deformada. Essa musa, sempre atenta às nuances e detalhes de cada objeto, não se cansa de perturbar a paz espiritual dos seus pobres devotos, provocando uma inversão nas expectativas ao alertar que a vida, ainda que momentos nobres, também comporta um lado meio risível. É ela que atrai os sátiros que espalham a desordem no reino da poesia.
O problema é que o ser humano é fraco demais e não consegue suportar qualquer vacilação nas suas certezas. Na utopia engendrada para suportar uma longa trajetória, tudo passa por uma elaboração bem organizada e coerente, onde tudo combina, numa sublimidade digna das obras supremas. Eis porquê é natural encontrar-se alguns indivíduos que, tomados por crises de devaneios, acreditam que passam pela vida a pensar e fazer apenas coisas de extraordinária importância; são amigos das pessoas mais maravilhosas do mundo; só se dedicam a atividades que deixam transparecer sua grandeza espiritual e a pureza de sua alma. A maioria das criaturas deste planeta ainda está agarrada às musas antigas, aquelas dos tempos clássicos, que só enxergavam o mundo reduzido dos círculos divinos. Por isso a sobrevivência de crenças primitivas como deuses e outros personagens celestes, sempre prontos a acudirem os pobres mortais em momentos de sofrimento ou prolongada dificuldade. Muito digno de zombaria é a constatação de que os viventes do século 21 ainda se deixam levar pela crendice de que, ao entrar num prédio de estilo arquitetônico rebuscado, se ajoelhar e repetir gestos e palavras decoradas vão merecer as graças de uma existência mais elevada, mais perto das divindades que eles mesmos criaram, e que só se manifestam na imaginação prodigiosa dos crentes.
Outra cilada em que as pessoas fazem questão de cair, na crença simplória de estarem mais seguras, é o amor romântico. Na ânsia de gozar logo os estágios mais inebriantes da alma, a burguesia cristã do século XII transformou o instinto de acasalamento, a simples satisfação de um desejo físico, em algo transcendente, uma união coroada com os louros dos mais nobres sentimentos, regida e abençoada por espíritos iluminados protetores do bem.
Nesses casos, a elaboração fantasiosa é tão eficaz que não deixa uma mínima brecha para a entrada da musa melancólica de Victor Hugo. Nada do gênio galhofeiro de Demócrito; nada do demônio da crítica; fora qualquer tentativa de teste do ridículo do conde de Shaftsbury. Para essas pessoas, tudo precisa estar no seu devido lugar, numa harmonia perfeita, criada no céu e tutelada pelos anjos. Só assim eles acreditam estar numa fase avançada do sublime, atingida apenas por alguns privilegiados.
A necessidade de se sentir acolhido em algum espaço mítico é uma das bizarrices mais esdrúxulas dos filhos de Adão e Eva. Como viver no tédio da perfeição, sem essa índole trocista que desarmoniza tudo a todo instante? Como abrir mão da diversidade, dos detalhes que o disforme nos oferece? E a surpresa do inusitado que a visão humorística nos apresenta, como enfrentar a realidade sem ela? Há por acaso coisa mais deliciosa do que um despropósito dito em momento inopinado? Pois uma tolice serve para evidenciar contrastes e denunciar as incongruências da razão nefelibata, e o ridículo das pretensões de uma vida orientada somente por conceitos abstratos. É sinal de uma mente expansiva conseguir aceitar e usufruir o prazer do imprevisto, do inesperado e fazer a aproximação entre fatos distintos e distantes para ver o mundo sobre outro ponto de vista, e sentir prazer com isso.
Em vez de uma entidade efêmera que habita nas alturas inatingíveis e nos mostra sempre a mesma visão clara e transparente banhada pela luz do sol, melhor seguir os vira-latas dos cínicos gregos, revirar os lixos das praças públicas, vasculhar os recantos dos becos mais sórdidos, as paisagens noturnas das vias urbanas, onde os seres se confundem na indefinição das sombras. Pois é também nos grotescos da realidade que encontramos os mais sublimes sopros de vida.

carolina maria de jesus

A literatura da fome

Não conheço dados concretos para avaliar o poder de efeito da literatura militante, essa feita, em geral, nas periferias das grandes cidades brasileiras. Falta-me o conhecimento específico de características desses ambientes, assim como o impacto que uma obra literária pode causar ao focar o modo de vida singular de determinadas populações. Creio que, em muitos casos, o resultado é muito mais publicitário, ao atender uma demanda de conteúdo social por parte de um público acostumado a tratar o diferente, quando não com desprezo, apenas como uma curiosidade a ser consumida. Esse parece ter sido o fim mais evidente de uma obra como Cidade de Deus, por exemplo, mas não se pode ignorar outros, inclusive o próprio ato de protesto. Creio que, o leitor que lê semelhante relato como a denúncia de uma situação bem próxima a ele, no mínimo passa a entender o seu próprio meio sob uma nova dimensão. É por isso que leio com bastante atenção e igual deleite a prosa de um autor como Ferréz, cujo registro parece estar mais preocupado em fazer o retrato da vida das comunidades marginais do que com o refinamento estético, ou literário, do texto.

Mais prazer ainda me proporcionou a leitura de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, em nova edição da Editora Ática.  Trata-se, como é de conhecimento geral, do diário de uma mulher semialfabetizada, que vivia numa favela de São Paulo, na década de cinquenta. Antes, portanto, do surgimento do crime organizado, que assumiu o controle dos territórios abandonados pelo Estado.

A narrativa é contundente, tanto na forma como no conteúdo. Para se ter a dimensão do drama relatado, basta saber que a autora, muitas vezes, se punha a escrever para disfarçar a fome, em dias em que não havia o que comer. A rotina era miserável e quase automática: acordar de madrugada, ir buscar água numa torneira comunitária, preparar o café, quando havia mantimentos, despachar os filhos para a escola e ir para o lixo catar o que desse para vender e angariar alguns trocados com que pudesse providenciar o almoço; e, sem descansar, voltar ao trabalho em busca de provimentos para a janta. Em dias de chuva não havia o que catar, portanto, quase nunca conseguia com que preparar uma refeição para ela e os três filhos. Então ela escrevia.

Paralelemente, ela se ocupa dos relacionamentos com os outros habitantes da vila: as brigas intermináveis, os escândalos diários, as amizades conquistadas. E no meio de todo esse rebuliço ela encontra tempo e disposição para escrever e ler. Aqui vale uma queixa: a grande lacuna é ela não nos cotar sobre os livros que lê, nem como os adquire, e nem como o hábito da leitura entrou em sua vida. Apenas uma ou outra menção rápida sobre algum poeta, como Castro Alves ou Augusto dos Anjos, mas sem comentar sobre sua relação com a literatura deles. Também há algumas referências à Bíblia, mas nesse caso, apenas sob um ponto de vista religioso.

Quanto à forma, pode-se dizer que é tão seca quanto a vida da autora. Uma linguagem crua, quase primitiva, adornada por uma inegável inspiração poética, com imagens e metáforas retiradas do seu próprio meio para traduzir a miséria de sua existência, não raro se valendo de uma ironia cruel, como no caso da vizinha que morreu e, quando o corpo foi retirado do barraco em direção ao cemitério, a autora comenta “agora finalmente ela terá uma casa própria”.  Miséria, diga-se, puramente material, porque Carolina se mostra uma criatura abonada de grande talento, uma alma sensível, e uma capacidade de compreensão da realidade digna de humilhar muitos escritores autuais formados em academias. A própria atitude de usar a literatura como antídoto da fome já é uma evidência de um prodígio intelectual

Não se trata de santificar uma mulher que teve uma força invejável para superar as restrições impostas por uma condição humilde. Ela própria, certamente, não se candidataria a uma vaga para canonização. Era apenas um ser humano que não aceitava viver como bicho, se revoltou, e lutou contra isso enquanto pode. É nesse contexto que se deve colocar alguns deslizes cometidos e relatados por ela. E não se trata aqui dos erros de gramática e de ortografia, devidamente mantidos assim como grafados no original, como revela a nota dos editores. Esse ponto, aliás, merece até elogios, por demonstrar que uma pessoa com tão poucos benefícios se aventurou e conquistou seu espaço num mundo elitista, onde muitas das figuras já estabelecidas torcem o nariz para ousadias ou deficiências retóricas.  Refiro-me a certos episódios de intolerância e preconceito, aos quais ela se refere de maneira muito natural. Como o da repressão ao filho por ler gibi. Por algum motivo, ela perdeu a paciência com o menino, sacou o livrinho da mão dele, rasgou e jogou no lixo, porque era uma leitura que ela detestava. Outro caso digno de nota é a opinião totalmente estereotipada sobre um acampamento de ciganos que se instalou perto da favela. Um caso típico de oprimido que adere ao discurso do opressor em relação a outra vítima da opressão.

Mas esses aspectos não chegam a comprometer a grandeza do depoimento. Digno de nota é, ainda, um senso de humor surpreendente, considerando-se que a autora vive num estado de mendicidade. Só uma pessoa de rara inteligência e sensibilidade aguçada pode captar um lado cômico em meio a tantas privações. Por vezes ela consegue rir das próprias agruras e anota isso com muita naturalidade. O fato de catar a sobrevivência no lixo serve aqui de metáfora bem expressiva. Do eco dos clamores da penúria ela capta os resquícios de humanidade que lhe dão ânimo para seguir em frente.

Uma das estratégias mais curiosas desses apontamentos, que parece ser usado mais por pudor do que por elaboração de estilo, é a recorrência das elipses. Uma mulher com tanta energia espiritual não poderia deixar de atrair homens carentes de proteção. Embora repita um discurso bem convencional sobre os deveres morais da mulher, ela não se furta aos assédios de dois moradores vizinhos, parece até tirar algum prazer nisso. De um deles, ela menciona, de maneira tímida e cheia de subentendidos, as noites em que dormiram juntos, mas do outro, ela só se refere às investidas, deixando o leitor em suspense quanto ao resultado das tentativas do apaixonado. Isso adquire um grande significado porque, como ela mesma descreve sobre os vizinhos, trata-se de uma convivência em que troca de favores, amizades, e atividade sexual se confundem numa naturalidade espantosa para os padrões moralistas. O exemplo mais enfático desse recurso está na visita do pai da filha dela, um empresário bem sucedido, que mora na cidade, e é poupado da exposição no diário: “ele deu-me 120 cruzeiros e 20 para cada filho. Ele mandou os filhos comprar doce para nós ficarmos sozinhos. Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher. Dei graças a Deus quando ele despediu-se”.

Pelo que se vê nos dias de hoje, a literatura não mudou a vida das periferias, apesar do livro de Carolina ter chamado a atenção do mundo inteiro sobre a condição dos indigentes despejados nas margens da sociedade. Mas com certeza, a literatura foi um alimento bem nutritivo para Carolina na sua ânsia de entender um pouco do mundo em que vivia. E depois, felizmente, com o sucesso que alcançou, libertou-se da fome propriamente dita, aquela que ainda atormenta e aprisiona as almas e os corpos de milhões de brasileiros.

[foto: site Geledés]