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As Palavras e As Pessoas

Eu nunca me dediquei a esses estudos sobre a relação entre as palavras e as coisas. Tema de especialistas, filósofos, linguistas, complexo demais para a minha discreta capacidade intelectual. Mas gosto de observar os humanos e vislumbrar as vinculações que eles estabelecem com as palavras.

A linguagem é condicionada pelo status social. Isso é do conhecimento de qualquer um que já tenha lido alguma coisa sobre esse tópico. Mas o que me deixa pensativo é perceber que algumas criaturas acham que basta fazer uso de determinado vocábulo para dominar a realidade que ele denomina. Por exemplo, usar um termo do jargão erudito para se ver possuidor de erudição. Ou então, assumir os hábitos de fala dos ricos para se sentir titular de polpudas contas bancárias. Existe também o linguajar dos vanguardistas. Não quer se sentir um conservador antiquado que perdeu o bonde da história e não tem meios suficientes para correr atrás? Muito simples: basta observar o palavreado que os moderninhos usam e repetir igualzinho, que nem papagaio, e, pronto, tudo resolvido. Não importa que defenda ideias retrógradas, que se deixe levar por devaneios saudosistas, com saudade dos velhos tempos.

O importante é expressar tudo isso com um vocabulário renovado. Por exemplo, nos dias atuais, acabar com as leis que garantem os direitos sociais não é retroceder ao tempo dos escravos, quando uma multidão era excluída dos recursos básicos de sobrevivência. Isso é visão de gente sem horizonte, que não mira o futuro. A dicção correta, usada por profissionais que entendem do assunto e estão em sintonia com os novos tempos, é flexibilizar. O processo, assim como o resultado, é o mesmo, mas a maneira de dizer é mais bonita e não causa tantos danos. Então, não vamos atacar os necessitados e expropriá-los de seus benefícios mínimos, vamos livrá-los da dependência do estado e torná-los cidadãos autônomos e livres para gerirem a própria vida. Em qualquer das alternativas, as vítimas vão morrer de fome da mesma maneira, mas o novo estilo expressa uma ideia mais nobre.

Essas divagações se enfiaram minha cabeça adentro durante um trajeto dentro de um ônibus, em que o tédio da paisagem já muitas vezes vista despertou em mim um desejo de viajar por outras dimensões diferentes, sem os solavancos causados por uma rua esburacada. Num ato de quase rebeldia, meus olhos saíram pela janela do coletivo e se espalharam pelos letreiros das casas de comércio, na esperança de encontrar alguma coisa nova. Tão curiosos estavam que pousaram em cima de uma placa onde se lia bike store, em letras coloridas e bem grandes. Lá eles se detiveram pelo tempo em que novos passageiros embarcaram, ao fim do que o ônibus seguiu viagem. De volta, comunicaram ao cérebro o que viram, e este, na ânsia de se ocupar com algo diferente, se pôs a matutar. Por que bike store e não loja de bicicleta, se as duas dizem a mesma coisa, e além do mais, em português, o anúncio seria entendido por todo mundo. Sim, há de se levar em conta que alguns brasileiros, os desvalidos da sorte, não sabem o que é bike nem store.  Pois aí é que está o busílis, pensei eu de imediato. A loja não é para compradores humildes, aqueles que andam de bicicleta, e sim para quem sabe o que é bike store.

Aí ocorreu-me uma explicação para o fenômeno. Antigamente, a bicicleta era um meio de transporte utilizado por operários para se deslocarem para o trabalho. Andar de bicicleta era atestado de pobreza e demonstração de que o condutor trabalhava num emprego modesto, normalmente serviço pesado, como pedreiro, ou algo assim. Mas aí, veio a moda do esporte, vida saudável, coisa e tal. E aqueles viventes mais antenados, que gostam de andar sempre à frente do seu tempo, (quando eu era criança, dizia-se prafrentex) resolveram que era melhor perder peso do que perder a onda do momento e se atracaram a fazer exercícios. Um dia, começaram a viajar para o mundo civilizado e descobriram uma coisa fantástica. Lá, os habitantes de todas as condições sociais andavam de bicicleta, tanto o cavalheiro de terno e gravata, com sua pasta de executivo amarrada ao bagageiro, quanto a secretária, que desfilava sua elegância muito bem equilibrada em duas rodas. E também o velho aposentado e o adolescente colegial. A bicicleta era mais usada do que o carro, que alimenta os sonhos de consumo daqueles consumidores que podem viajar porque trabalham em empregos bem melhores que o dos ciclistas conterrâneos. Um dia, no meio da horda de turistas que invadem anualmente o continente europeu, alguém teve um lampejo de criatividade e sugeriu: e se, lá no Brasil, a gente passasse a pedalar como forma de exercício, para passear aos domingos no parque, uma distração bem chic, igual a essa que o povo tem aqui? A outra viajante respondeu: uma bicicleta? Vão pensar que a gente é operário de obra. Instalou-se o impasse e a expectativa de contemplar o mundo do alto de duas rodas já ia quase derrapando, quando uma integrante do grupo, uma moça que frequentava um cursinho intensivo de inglês para ir a Miami comprar os presentes de natal, apontou uma saída. Ia pesquisar como se diz bicicleta em inglês. Empenhou-se numa busca no Google translator e a solução veio como uma simples pedalada. E foi assim que gente elegante e de boa família, cidadão de bem, passou a andar de bike e deixou a bicicleta para aqueles trabalhadores de baixa extração social. É bom lembrar que, para esses, não importa muito o léxico que dá nome à coisa. Isso só interessa para quem quer subir na vida sem muito esforço e descobre que aquilo que poderia conduzir a esferas mais altas está associado à ideia de desprestígio. Então, é necessário criar uma nova nomenclatura para afastar a coisa do meio que a contamina com pobreza e falta de requinte social.

Foi isso que aconteceu para que uma simples bicicleta se transformasse em bike. Pode-se dizer, então, que os novos ciclistas viajam na palavra, que é um veículo de transporte bem mais seletivo e muito mais seguro.

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Terra de Gigante

Era uma vez um pais muito distante, chamado Bananópolis. Tinha esse nome porque era muito rico na produção de bananas, uma verdadeira república das bananas. Lá vivia uma população muito pacata, ordeira e pacífica. Dizia-se que esse país era abençoado porque possuía muitas praias, um clima tropical e recebia todos os anos muitos habitantes de outros reinos que viajavam para conhecer essa maravilha de cenário, e todo mundo fazia festa. As mulheres do país nativo dormiam com os visitantes que vinham se refrescar no litoral paradisíaco, para que eles se sentissem o mais bem atendidos possível e esses visitantes ficavam tão felizes e agradecidos que deixavam a essas belas recepcionistas lindos presentes, tais como dólares e euros. O país também possuía muitas florestas, muitos rios e pássaros com plumagens de todas as cores. Mas nessas florestas também havia muitos tesouros escondidos, muita riqueza guardada e que só poderia ser usada pelos bananopolisenses. Para guardar essa riqueza, havia um gigante que morava num castelo muito grande na entrada da floresta e ninguém podia entrar lá sozinho.   Era um Bicho Visagento chamado Magog, que vestia sempre uma camisa verde e uma calça amarela, que simbolizavam as riquezas que ele guardava, a floresta e o ouro. Mas acontece que o gigante estava adormecido, deitado eternamente em berço esplêndido e ninguém podia fazer barulho perto do castelo para ele não acordar, porque se o sono dele fosse interrompido bruscamente ele levantava furioso e batia em quem fizesse barulho.

Porém, num reino vizinho, chamado Yankland, tinha um rei muito malvado, chamado Trompete, que queria se apoderar do tesouro de Bananópolis, mas não queria fazer uma guerra de invasão porque os bananopolisenses eram muito úteis a ele.

O povo desse país das bananas vivia na pobreza esperando que o gigante acordasse para poder usar o tesouro, pois só Magog sabia distribuir a riqueza em partes iguais para todo mundo.

No país do gigante também tinha uns homens muito sem-vergonha, os corupiras, assim chamados porque eram de estatura menor, tanto física quanto de caráter. Eles também queriam roubar o tesouro, só que eles também eram pobres e não tinham onde guardar tanta riqueza. Além disso, costumavam pescar peixe nos rios e apanhar frutas escondidos nas árvores da floresta e levar de presente para o rei Trompete, que recebia todos e comia os peixes e as frutas, por isso os corupiras achavam que eram amigos do rei, e cada vez que iam visitá-lo levavam mais peixes e mais frutas que pegavam escondidos e se sentiam muito importantes, porque o rei comia as frutas e os peixes. Antes de irem embora, os corupiras passavam no mercado que tinha na cidade e compravam as cascas das frutas e as espinhas dos peixes que o rei jogava no lixo e os negociantes juntavam e vendiam como relíquias porque eram cascas das frutas e espinhas dos peixes que o rei tinha comido, por isso tinham muito valor.

Aí o rei teve a ideia de convencer os corupiras a carregarem o tesouro para Yankland, que ele guardava e devolvia quando os habitantes de Bananópolis quisessem. Os corupiras ficaram pensando e esperando uma oportunidade para entrarem na floresta e transportarem o tesouro.

Um dia, o gigante teve um ataque de sonambulismo, saiu sem rumo, quebrando tudo que via pela frente, móveis, cristais, louças, arrombando portas e janelas. Os bananopolisenses viram aquilo e, por não entender da natureza do sono dos gigantes, pensaram que Magog tinha acordado, e concluíram que estava na hora de ser feliz. Então, começaram a comemorar. Vestiram camiseta verde e amarela, as mesmas cores da roupa de Magog, saíram para rua gritando, rindo e atirando foguetes.  À noite, eles iam para as sacadas e janelas de suas casas e batiam panelas porque achavam que com esse ritual iam chamar bastante comida para suas mesas.

Acontece que quando foram derrubadas as portas do castelo, os corupiras entraram e começaram a pilhar tudo o que viram. Para não dar muito na vista, disseram que iam fazer uma festa para comemorar o despertar de Magog. O povo acreditou e ficou muito feliz pensando que todo mundo ia ser convidado pra festa. Os corupiras também arrombaram os portões da floresta com a chave que Magog guardava embaixo da cama e começaram a se apoderar do tesouro e levar tudo para o rei Trompete. Quando alguém reclamava, eles diziam que o rei ia devolver tudo depois com juros e que em breve o povo ia usufruir dos bens e ser muito mais rico e feliz.

Mas o tempo ia passando e o retorno financeiro não vinha e o povo começou a desconfiar. Acontece que as pessoas comuns não sabiam onde o tesouro estava escondido e tinham muito medo de entrar na floresta para procurar, e deixavam tudo por conta dos corupiras, que eram homens mais acostumados a andarem na floresta. Então, depois que tiraram todo o tesouro e levaram para o rei Trompete, e receberam muitas cascas de fruta e espinha de peixe de presente, os corupiras revelaram ao povo de Bananópolis que o gigante estava apenas sonâmbulo e precisavam o fazer dormir de novo senão ele ia destruir tudo. Então, deram uma poção mágica e entorpecente e Magog voltou a dormir. No dia seguinte, eles disseram que a festa tinha acabado e que agora todo mundo devia voltar à sua vidinha normal e trabalhar sem fazer muito barulho porque o gigante podia acordar e ficar muito furioso ao saber o que aconteceu.

E, assim, o gigante voltou a dormir novamente em berço esplêndido e os bananopolisenses continuam quietinhos e pacatos, trabalhando sem fazer barulho, esperando que o gigante acorde de verdade por conta própria e aí sim todo mundo vai ser feliz para sempre.

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Feriado Nacional

O ano de 2018 será pródigo em feriados prolongados, aqueles que caem numa segunda ou terça; numa quinta ou sexta, e são emendados com o fim de semana mais próximo. Isso é ótimo para quem depende de emprego para ganhar a vida e precisa acordar às seis da manhã e sacolejar por duas horas dentro de um ônibus abarrotado de gente sonolenta. Esse infeliz vivente vai poder dormir até mais tarde, ou até mesmo o dia todo se quiser. Por outro lado, essas regalias do calendário estão tirando o sono da equipe econômica do governo brasileiro, essa turma tão preocupada com o futuro da nação, e que gostaria até de cortar os dias de descanso dos trabalhadores para que o Brasil não pare de produzir, e siga sua missão inevitável de atingir o progresso e o desenvolvimento.

Eu acho que a supressão de alguns períodos de lazer seria uma ótima ideia, afinal essa plebe brasileira já tem uma tendência natural à ociosidade, e um número excessivo de folgas só contribui para incentivar a preguiça. Por isso, venho a público sugerir a eliminação de algumas licenças remuneradas. Para não me acusarem de leviandade justifico minhas escolhas.

REPÚBLICA. Não vejo motivo nenhum para o feriado de 15 de novembro, o Brasil nunca foi uma república. O próprio ato que derrubou a Monarquia e implantou o novo sistema político não passou de uma quartelada. Os oficiais militares, que protagonizaram a aventura, entregaram o poder a uma das facções que já mandavam antes do golpe, e que não fez outra coisa além de cuidar dos próprios interesses em primeiro lugar, e a coisa pública foi simplesmente ignorada. E hoje o poder executivo não passa de uma cleptocracia exercida por uma quadrilha de mercenários e saqueadores que se refugiou no Planalto Central e está vendendo o país no varejo internacional, e embolsando os lucros do negócio. Então, no 15 de novembro vamos todos ao trabalho.

INDEPENDÊNCIA. Esse festejo é um contrassenso. Que eu saiba, o Brasil nunca foi independente. Um país onde o Banco Mundial determina quais as leis devem ser votadas e aprovadas, quem pode ser presidente e quem deve ficar de fora do comando, um país assim pode até se vangloriar de algumas conquistas, mas nunca de soberania. Atualmente, o partido que toma as decisões na Capital Federal não passa de um bando de lacaios a serviço do capital estrangeiro, recebendo polpudas comissões e depósitos em paraísos fiscais. Minha sugestão, corta-se o 7 de setembro.

DIA DO TRABALHO. Comemoração inútil e sem fundamento. Depois da flexibilização da Lei Áurea, que acabou com as garantias sociais do trabalho, nosso contingente produtivo está submetido a um regime escravista, sem a esperança de surgimento de uma nova Princesa Isabel. Então, primeiro de maio, todo mundo no batente.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA. Até agora falei dos dias de repouso no âmbito nacional. Mas aqui no Rio Grande do Sul ainda temos o vinte de setembro, que exalta a capacidade que a gauchada tem de ignorar a história. Trata-se de um episódio bizarro em que um grupo de estancieiros fez cara feia para a Coroa, levou uma surra e até hoje o estado soleniza a data, como se tivesse obtido uma grande vitória. E para completar o quadro de desatinos ainda chamam isso de revolução, e a consequência é mais um dia de trabalho perdido.

TIRADENTES. Talvez o único feriado nacional com algum vestígio de razoabilidade seja o de Tiradentes. Mas não por ele ter dado a vida pela independência do Brasil, porque, como já disse, nesse aspecto foi tudo em vão. A gente poderia ver o famoso dentista por outro ângulo e elegê-lo como um símbolo do povo brasileiro. Ele se meteu a defender a causa de uma elite endinheirada que não queria mais pagar tantos impostos à metrópole, e por desinformação ou ingenuidade, o simples alferes acreditou que a proposta tinha grandes motivos patrióticos, mas na hora de enfrentar o leão, foi jogado na arena sozinho e pagou a conta com a própria vida, pois era o único miserável entre os insurgentes. Como se vê, não é de hoje que os pobres defendem as causas dos ricos e depois arcam com as consequências.

NATAL E SEMANA SANTA. Mas os dias-santos mais ridículos de todos, e também os mais longos, são os religiosos. Nos períodos de Natal e de Semana Santa, além de vários dias sem trabalhar, a cristandade ainda é jogada num clima esquizofrênico de consumo e excessos de comida e bebida, ou seja, mais dívida e aumento de peso, talvez até com diabetes e pressão alta. Sem falar no absurdo de festejar o nascimento, depois a morte, de um personagem fictício, criado pela crendice popular há mais de dois mil anos, e que nunca teve a existência histórica confirmada por uma pesquisa séria. Portanto, nada de dingoubel e nem coelhinho da Páscoa.

Mas eu decretaria o primeiro de abril como feriado nacional, pois a mentira hoje é a principal característica da camarilha que se instalou no Palácio do Planalto. Basta ligar a televisão nos noticiários para constatar a habilidade que essa trupe tem de inventar histórias mirabolantes. Seria um ótimo dia para ficar em casa sem fazer nada, só assistindo televisão e lendo os jornais de maior circulação do pais, uma verdadeira celebração da mentira e da manipulação. Afinal, papel de bobo o brasileiro sabe fazer direitinho. E o ápice da festa solene seria o final do dia, quando as pessoas chegam em casa e se dirigem às suas sacadas ou janelas e marcam a data com uma barulhenta bateção de panelas.

bem blogado

O golpe dos privilégios

Todo governo espúrio precisa construir um discurso de legitimação. A história é prodigiosa em exemplos desse fenômeno. No Brasil, pode-se mencionar o Regime Militar, que encontrou na retórica anticomunista um aval para todo o tipo de arbitrariedades, por mais que a tal ameaça comunista não passasse de uma alucinação gerada no âmbito da caserna, onde o nível de reflexão intelectual só se comparava ao das beatas da TFP.
O presidente Collor de Mello também precisou recorrer à invenção de um bode expiatório. Como a arenga anticomunista já não mais assustava tanto, a maldição recaiu sobre os detentores de altos salários nos cargos públicos, responsáveis, segundo ele, pelas dificuldades financeiras que o pais enfrentava. Collor contava com a legitimidade das urnas, mas não tinha nenhuma credibilidade fora das camadas da população que o elegeram, pessoas facilmente manipuladas pela desinformação, e ansiosas pela volta de um salvador da pátria. Além disso, mais tarde vieram a público as trapaças feitas por parte da mídia para influenciar os resultados e impedir que o pais fosse governado por um presidente de tendências mais populares. O monstro do comunismo ainda não estava completamente morto. O fato é que o até então mais jovem presidente da história do Brasil, que desfilava ostensivamente, cheio de vigor e energia, se autoproclamou o caçador de marajás. O resultado dessa aventura é do conhecimento de todos.
Agora temos mais um governo ilegítimo e, por conseguinte, mais um bicho-papão, um verdugo da sociedade brasileira. A quadrilha de corruptos que se instalou no poder com o golpe de 2016 nem nisso conseguiu ser original e apelou para o ressentimento popular para atacar supostas regalias de um pequeno grupo de pessoas contempladas, segundo os cleptocratas, com incríveis benesses econômicas. E o alvo do ataque são as remunerações mais elevadas que, segundo a narrativa golpista, significam altos rendimentos, em contraste com a maioria da população que mal consegue lograr um mísero soldo para matar a fome. Uma injustiça, proclamam eles.
Mas, quem são os novos marajás dos atuais impostores? As altas fortunas, que vivem de rendimentos e dividendos isentos de tributos? Os grandes sonegadores, que devem milhões para a Receita Federal? De maneira nenhuma. Com todo o retrocesso patrocinado pela camarilha temerista, seria incoerente que nesse quesito houvesse algo novo, e os grandes vilões da sociedade brasileira, aqueles que só se beneficiam de uma estrutura social anacrônica, continuam sendo os servidores públicos que, na opinião dos usurpadores, usufruem de inaceitáveis vantagens em comparação com os trabalhadores da iniciativa privada. E quais seriam esses proveitos injustos? A mídia nacional, aliada e parceira da fraude, apresenta diariamente inúmeros gráficos e estatísticas para provar a enorme discrepância entre os estipêndios na iniciativa privada e no setor público. E como prova de tão grande desequilíbrio, buscam comparações com os países de primeiro mundo, onde existe quase uma equiparação entre as duas instâncias.
Naturalmente que, devido a tanta responsabilidade e excesso de trabalho, tanto da equipe econômica quanto dos seus súditos na imprensa, os técnicos às vezes se atrapalham e cometem alguns equívocos nas interpretações dos gráficos e das estatísticas. Coisa compreensível para homens que se dedicam com tanta intensidade a resolver problemas de alcance coletivo das finanças públicas. No entanto, seria interessante que, antes de acabarem com as desproporções remuneratórias que corroem as entranhas da nossa pobre sociedade, os novos arautos da justiça social observassem alguns detalhes dignos de nota. Primeiro, nos países civilizados e desenvolvidos, aqueles em que os partidos políticos derrotados esperam as novas eleições para tentarem de novo a conquista do poder, a pequena diferença entre os emolumentos públicos e privados não se dá em consequência de uma desvalorização do serviço público, e sim porque os trabalhadores das empresas privadas recebem um pagamento digno. Se no Brasil essa disparidade é gritante, não é por causa de supostas prerrogativas dos funcionários públicos, e sim porque os trabalhadores da iniciativa privada vivem num regime de quase escravidão, recebendo um ordenado que mal garante a sobrevivência material.
Mesmo caso a questão da estabilidade, tão atacada há muito tempo. Não se trata de um tratamento especial para quem passou num concurso numa empresa do governo. Trata-se apenas de uma compensação por uma dedicação exclusiva, exigida por lei, pois se sabe que, a partir do momento em que assume um cargo no governo, o indivíduo não pode exercer nenhuma atividade paralela, salvo raríssimas exceções, normalmente para cargos do alto escalão.
Então, uma medida que poderia favorecer todo mundo, ricos e pobres, público e privado, seria, em primeiro lugar, um governo legítimo, que tivesse um projeto para o país, e não um plano promocional de vendas das instituições governamentais. Por enquanto, os únicos que desfrutam de concessões especiais em solo brasileiro é a corja de saqueadores que invadiu o governo e expulsou uma presidente honesta e legítima. Essas aves de rapina não fazem outra coisa além de improvisar medidas de última hora para salvarem a própria pele e se safarem das ameaças constantes da justiça. O maior presente que o povo poderia esperar neste momento é ver toda a súcia do Planalto ser escorraçada de Brasília. Ou pelo menos ganhar o privilégio de um alojamento na Papuda.

foto por @bemblogado

heraclito

A musa melancólica

A urgência do homem primitivo em superar suas limitações levou ao surgimento da arte e da ciência. É possível entender a fricção de dois pauzinhos, ou lascas de pedra, que gerou o fogo, como um evento científico. E as pinturas nas cavernas, ainda que revestidas de motivos ritualísticos, adquiriram importância na história da Estética. O medo de viver abandonado num universo desconhecido criou a religião. Veio daí a ideia de uma dimensão superior no além, a qual seria alcançada através da aceitação de algumas regras de comportamento aqui na vida terrena. Arte e religião tornaram-se, então, dois caminhos possíveis para se chegar a tais plenitudes, ressaltando-se que não é raro que elas se confundam, pois que para muitos adeptos, a arte adquire status de rito religioso, em que uma musa, em constante estado de graça, conduz o seu protegido às regiões mitológicas, ao encontro dos soberanos olímpicos.
Tudo ia às mil maravilhas, e qualquer mancebo que se dispusesse a versificar suas mágoas amorosas já se sentia nas alturas, pronto para alçar-se aos píncaros da glória. Porém, lá pelas tantas, o poeta Victor Hugo veio alertar para o surgimento de outra musa, conspurcada pela moral cristã, que sofria da principal característica do cristianismo: a melancolia. Tratava-se de uma fadinha sacana, cansada daquela estopada retórica, e queria algo mais funambulesco. Logo que assumiu suas funções, essa madrinha da inspiração se encarregou de turvar a vista dos poetas, apresentá-los às coisas menos dignas de admiração, em vez da face imponente do herói, introduz uma caricatura de fisionomia deformada. Essa musa, sempre atenta às nuances e detalhes de cada objeto, não se cansa de perturbar a paz espiritual dos seus pobres devotos, provocando uma inversão nas expectativas ao alertar que a vida, ainda que momentos nobres, também comporta um lado meio risível. É ela que atrai os sátiros que espalham a desordem no reino da poesia.
O problema é que o ser humano é fraco demais e não consegue suportar qualquer vacilação nas suas certezas. Na utopia engendrada para suportar uma longa trajetória, tudo passa por uma elaboração bem organizada e coerente, onde tudo combina, numa sublimidade digna das obras supremas. Eis porquê é natural encontrar-se alguns indivíduos que, tomados por crises de devaneios, acreditam que passam pela vida a pensar e fazer apenas coisas de extraordinária importância; são amigos das pessoas mais maravilhosas do mundo; só se dedicam a atividades que deixam transparecer sua grandeza espiritual e a pureza de sua alma. A maioria das criaturas deste planeta ainda está agarrada às musas antigas, aquelas dos tempos clássicos, que só enxergavam o mundo reduzido dos círculos divinos. Por isso a sobrevivência de crenças primitivas como deuses e outros personagens celestes, sempre prontos a acudirem os pobres mortais em momentos de sofrimento ou prolongada dificuldade. Muito digno de zombaria é a constatação de que os viventes do século 21 ainda se deixam levar pela crendice de que, ao entrar num prédio de estilo arquitetônico rebuscado, se ajoelhar e repetir gestos e palavras decoradas vão merecer as graças de uma existência mais elevada, mais perto das divindades que eles mesmos criaram, e que só se manifestam na imaginação prodigiosa dos crentes.
Outra cilada em que as pessoas fazem questão de cair, na crença simplória de estarem mais seguras, é o amor romântico. Na ânsia de gozar logo os estágios mais inebriantes da alma, a burguesia cristã do século XII transformou o instinto de acasalamento, a simples satisfação de um desejo físico, em algo transcendente, uma união coroada com os louros dos mais nobres sentimentos, regida e abençoada por espíritos iluminados protetores do bem.
Nesses casos, a elaboração fantasiosa é tão eficaz que não deixa uma mínima brecha para a entrada da musa melancólica de Victor Hugo. Nada do gênio galhofeiro de Demócrito; nada do demônio da crítica; fora qualquer tentativa de teste do ridículo do conde de Shaftsbury. Para essas pessoas, tudo precisa estar no seu devido lugar, numa harmonia perfeita, criada no céu e tutelada pelos anjos. Só assim eles acreditam estar numa fase avançada do sublime, atingida apenas por alguns privilegiados.
A necessidade de se sentir acolhido em algum espaço mítico é uma das bizarrices mais esdrúxulas dos filhos de Adão e Eva. Como viver no tédio da perfeição, sem essa índole trocista que desarmoniza tudo a todo instante? Como abrir mão da diversidade, dos detalhes que o disforme nos oferece? E a surpresa do inusitado que a visão humorística nos apresenta, como enfrentar a realidade sem ela? Há por acaso coisa mais deliciosa do que um despropósito dito em momento inopinado? Pois uma tolice serve para evidenciar contrastes e denunciar as incongruências da razão nefelibata, e o ridículo das pretensões de uma vida orientada somente por conceitos abstratos. É sinal de uma mente expansiva conseguir aceitar e usufruir o prazer do imprevisto, do inesperado e fazer a aproximação entre fatos distintos e distantes para ver o mundo sobre outro ponto de vista, e sentir prazer com isso.
Em vez de uma entidade efêmera que habita nas alturas inatingíveis e nos mostra sempre a mesma visão clara e transparente banhada pela luz do sol, melhor seguir os vira-latas dos cínicos gregos, revirar os lixos das praças públicas, vasculhar os recantos dos becos mais sórdidos, as paisagens noturnas das vias urbanas, onde os seres se confundem na indefinição das sombras. Pois é também nos grotescos da realidade que encontramos os mais sublimes sopros de vida.