tv

O BRASIL QUE EU NÃO QUERO

Ano de eleição a gente sempre se põe a pensar no que deveria mudar no país, e a conjeturar quais políticos poderiam promover essas mudanças. Tanto que até a tv Globo se empenhou numa campanha para vislumbrar as expectativas dos brasileiros para o próximo pleito. Durante vários dias, no noticiário do horário nobre, lá está o William Bonner a explicar aos telespectadores as condições de participação. O participante deve mandar um vídeo de quinze segundos, gravado no celular, com o título “o Brasil que eu quero”, falando sobre suas esperanças para o país. E não esquecer que o aparelho deve estar deitado, para que a imagem saia com melhor qualidade.

Parece, no entanto, que a tentativa não deu muito certo. É que o brasileiro é um povo muito mal-agradecido, vive reclamando que se sente excluído das decisões, mas quando é chamado a participar de alguma coisa que pode trazer benefícios a ele próprio, chega fazendo piadas, dizendo desaforos, ou simplesmente ignorando a boa vontade dos outros. Andam dizendo por aí que os poucos que aceitaram o convite mandaram vídeo falando mal da emissora; que ela apoiou o golpe que derrubou a Dilma; que quer a todo custo acabar com a Previdência Social, e depois vem fazendo campanhas bobas. Gente ingrata, essa! Conclusão, a ideia global fracassou.

Mas a intenção era boa. É bem verdade que eu não entendo o que se poderia dizer em quinze segundos que valesse a pena de ser transmitido em horário de maior audiência televisiva. Mas mesmo assim, resolvi apoiar a nobre iniciativa. Só que eu não sei filmar com celular e muito menos ainda postar vídeo num site, então vou recorrer ao único meio de expressão que sei usar, a escrita. Não tenho grandes esperanças de que o Bonner vá ler esta humilde colaboração no Jornal Nacional, mas não custa nada tentar. Então, comecemos pela questão crucial: como é o Brasil que eu quero? Só como especulação inicial, num país digno de se viver, os habitantes não seriam tão teleguiados, como robôs, a ponto de o tempo ser cronometrado pela programação transmitida. Conheço gente que fala assim: no horário da novela eu estou em casa; durante o noticiário eu faço uma comida; e na hora do Corujão eu vou dormir. Também seria interessante que as pessoas não naturalizassem tudo o que ouvem e assistem na tela, pois por trás da matéria supostamente neutra tem um editor que a transforma em fato noticioso ou propaganda ideológica. Veja-se a insistência da própria Globo em realçar o famigerado déficit da previdência e a necessidade da reforma. E a descarada só chama para entrevistar os palpiteiros que dizem o que ela quer que seja dito, ou seja, é necessário fazer a reforma da previdência, o que, na prática, significa acabar com ela. O que os jornalistas sempre esquecem de dizer é que as organizações Globo, que atuam em vários setores do mercado, também administram negócios na área de previdência privada. Então, não é de se duvidar que no Brasil do futuro, a família Marinho receba de presente o monopólio da previdência privada, que hoje é exercido em carácter de benefício social pelo governo federal. Tudo isso como boa recompensa pelos trabalhos prestados de apresentar um discurso político como se fosse uma verdade palpável e comprovável. Por isso, no Brasil que eu quero, haveria um compromisso ético com a notícia por parte das empresas jornalísticas, e uma clara distinção entre informação útil e propaganda ideológica.

Outra característica muito importante de um país ideal seria a humildade dos políticos, para que um candidato que perdesse uma eleição para presidente esperasse civilizadamente o próximo pleito para tentar a sorte novamente. É sabido que em alguns lugares do mundo, o candidato derrotado não aceita esperar e se une em conluio com algum traidor do governo eleito e derrubam aquele que o povo escolheu para governar o país, inclusive com o apoio escancarado de algum grupo detentor de concessões televisivas, que venha a se beneficiar da situação.

Seria importante ainda observar que nesse país de perfeições idealizadas a que me refiro não haveria nenhuma emissora de televisão que ditasse regras de comportamento, hábitos de falar, impusesse decisões políticas e nem os tais políticos trogloditas habituados desde sempre a mandar sem dividir o poder. Mas, isso não passa de fantasia, que não merece atenção de quem vive preocupado com coisas tão sérias, tais como decidir quem vai ser o novo presidente do Brasil.

Então, para responder à questão inicial, cheguei à conclusão de que o Brasil que eu quero não está no Brasil. Quer dizer, é tanta coisa para mudar, que o melhor mesmo é eu me mudar para outro país, já que aceitar tudo calado é impossível. E certamente o meu Brasil desejado não é o mesmo que o Bonner quer. E ele tem mais poder do que eu.

Dos crimes e dos castigos

Dos Crimes e Dos Castigos: Previsões para 2018

2018 é daqueles anos que acontecem a cada quatriênio, quando dois acontecimentos incendeiam os ânimos dos brasileiros: a Copa do Mundo e a escolha do novo Presidente da República. Quanto ao primeiro, o detalhe mais digno de registro é que acontecerá na pátria de Dostoiévski, aquele autor de Crime e Castigo, e do compositor Tchaikovsky, gênios da humanidade que instigaram a formação cultural do golpista Temer, conforme o próprio declarou em visita a Putin.

Tenho impressão que, este ano, o interesse pelo campeonato está meio enfraquecido, não sei se pela distância do país sede, se pela estranheza do idioma russo, ou se porque a lembrança do fiasco do 7×1 ainda provoca algum constrangimento. Sem falar na hipótese de que o sufrágio de outubro já está canalizando todas as energias dos brasileiros para disputa pelo cargo de presidente do Brasil. Tanto é assim que, até agora, ninguém emitiu nenhum palpite sobre o novo campeão mundial. Lembro que no último torneio aqui no Brasil, por essa época, a grande dúvida era: vai ter copa? E os otimistas não só respondiam positivamente como ainda vaticinavam que a Seleção brasileira finalmente conquistaria o tão sonhado hexa. Hoje não tem nada disso. Mas em compensação, na política, quantas previsões…

É bem verdade que não é muito difícil antecipar os resultados. Desde o golpe de 2016 que os fatos vêm se sucedendo numa ordem muito lógica para que o governo brasileiro seja entregue para a Direita, aquela que há muito tempo não ganha uma eleição, e perdeu a paciência para competições eleitorais. O primeiro passo era derrubar a Dilma, isso foi feito, até com certa facilidade. O próximo seria prender o Lula, para impedi-lo de concorrer. Esse ponto apresentava um grau mais elevado de dificuldade, mas nada que um juiz adestrado em escolas superiores do primeiro mundo não conseguisse superar.  Tanto que a condenação já está pronta, só falta a execução. Mas tudo tem seu tempo certo. Até na Bíblia Sagrada diz que há o tempo de plantar e o de colher. E a classe que dominou o país por 500 anos finalmente vai colher os frutos do plantio que vem fazendo desde 2014: a retomada do poder no Brasil.

Também não é muito difícil prever o titular que vai vestir a faixa presidencial em 2019. Eu aposto em Geraldo Alckmin, por um motivo muito simples: o conservadorismo político não tem outro representante para sentar na cadeira presidencial, visto que a carreira do Aécio virou pó, o Serra caducou desde que levou uma taça de champanhe na cara, e o Dória…. Bem, o Dória precisa aceitar que os mais velhos têm prioridade de atendimento e aprender a esperar na fila até ser chamado. Em resumo, o atual governador de São Paulo é o menos enlameado até agora nesse poço de lama que se tornou a política brasileira. Uma manchinha aqui outra ali, que a mídia, sempre solícita, saberá encobrir durante o pleito.

De todos os presidenciáveis atuais, o mais improvável é o Bolsonaro. Não consigo entender o medo que esse aprendiz de Hitler desperta em certas pessoas; muito menos a esperança de uma parcela da população em relação a ele. Ingenuidade? Falta de visão política? Não sei. Sei é que a mim ele não causa o menor receio. E não por eu nutrir qualquer simpatia, afinal, eu tenho alguns neurônios que ainda funcionam. É por ter a convicção de que não há a menor chance de termos de novo um troglodita à frente da nação. É bem verdade que há uma multidão de anencéfalos loucos para digitar o número dele na urna. Mas é certo também que ninguém chega à presidência se não tiver o apoio de setores importantes da sociedade civil, como os empresários, a mídia, e esse indivíduo não tem unanimidade nem na caserna de onde saiu. Ele só anda espanejando imbecilidades pelo país porque a campanha ainda não começou pra valer. Assim que for dada a largada para a corrida ele não dura uma semana como preferido do eleitorado. Se por acaso ele estiver apresentando algum risco para o candidato dos poderosos de sempre, no caso o Alckmin, basta uma única edição do Jornal Nacional para ele recolher os coturnos e retornar à insignificância que sempre foi sua principal marca. Há algo tão evidente que chega a ser desnecessário falar, mas tem gente que não vê: não faz o menor sentido investir tanto em um golpe para derrubar a presidente eleita, prender o principal concorrente, e depois entregar tudo nas mãos de um debiloide que só sabe esbravejar ofensas e ameaças para todos os lados.

Já com o Lula, que apresenta um perigo real para a ganância da elite econômica, o noticiário global não surtiu o efeito esperado de tirá-lo fora do páreo e os suseranos deste feudo tupiniquim precisaram recorrer a um aparato jurídico inaugurado na época da pós-verdade, onde o que importa é a versão que mais satisfaz as necessidades de quem determina as regras do jogo. Enfim, vivemos no país do castigo sem crime, onde os verdadeiros crimes permanecem sem castigo.

Com essas expectativas para a política, a solução é abrir um livro de Dostoiévski, ouvir um CD de Tchaikovsky, e já que o Neymar é 100% Jesus, rezar para que a equipe verde-amarela pelo menos nos poupe de mais um vexame mundial.

família_bicicleta

As Palavras e As Pessoas

Eu nunca me dediquei a esses estudos sobre a relação entre as palavras e as coisas. Tema de especialistas, filósofos, linguistas, complexo demais para a minha discreta capacidade intelectual. Mas gosto de observar os humanos e vislumbrar as vinculações que eles estabelecem com as palavras.

A linguagem é condicionada pelo status social. Isso é do conhecimento de qualquer um que já tenha lido alguma coisa sobre esse tópico. Mas o que me deixa pensativo é perceber que algumas criaturas acham que basta fazer uso de determinado vocábulo para dominar a realidade que ele denomina. Por exemplo, usar um termo do jargão erudito para se ver possuidor de erudição. Ou então, assumir os hábitos de fala dos ricos para se sentir titular de polpudas contas bancárias. Existe também o linguajar dos vanguardistas. Não quer se sentir um conservador antiquado que perdeu o bonde da história e não tem meios suficientes para correr atrás? Muito simples: basta observar o palavreado que os moderninhos usam e repetir igualzinho, que nem papagaio, e, pronto, tudo resolvido. Não importa que defenda ideias retrógradas, que se deixe levar por devaneios saudosistas, com saudade dos velhos tempos.

O importante é expressar tudo isso com um vocabulário renovado. Por exemplo, nos dias atuais, acabar com as leis que garantem os direitos sociais não é retroceder ao tempo dos escravos, quando uma multidão era excluída dos recursos básicos de sobrevivência. Isso é visão de gente sem horizonte, que não mira o futuro. A dicção correta, usada por profissionais que entendem do assunto e estão em sintonia com os novos tempos, é flexibilizar. O processo, assim como o resultado, é o mesmo, mas a maneira de dizer é mais bonita e não causa tantos danos. Então, não vamos atacar os necessitados e expropriá-los de seus benefícios mínimos, vamos livrá-los da dependência do estado e torná-los cidadãos autônomos e livres para gerirem a própria vida. Em qualquer das alternativas, as vítimas vão morrer de fome da mesma maneira, mas o novo estilo expressa uma ideia mais nobre.

Essas divagações se enfiaram minha cabeça adentro durante um trajeto dentro de um ônibus, em que o tédio da paisagem já muitas vezes vista despertou em mim um desejo de viajar por outras dimensões diferentes, sem os solavancos causados por uma rua esburacada. Num ato de quase rebeldia, meus olhos saíram pela janela do coletivo e se espalharam pelos letreiros das casas de comércio, na esperança de encontrar alguma coisa nova. Tão curiosos estavam que pousaram em cima de uma placa onde se lia bike store, em letras coloridas e bem grandes. Lá eles se detiveram pelo tempo em que novos passageiros embarcaram, ao fim do que o ônibus seguiu viagem. De volta, comunicaram ao cérebro o que viram, e este, na ânsia de se ocupar com algo diferente, se pôs a matutar. Por que bike store e não loja de bicicleta, se as duas dizem a mesma coisa, e além do mais, em português, o anúncio seria entendido por todo mundo. Sim, há de se levar em conta que alguns brasileiros, os desvalidos da sorte, não sabem o que é bike nem store.  Pois aí é que está o busílis, pensei eu de imediato. A loja não é para compradores humildes, aqueles que andam de bicicleta, e sim para quem sabe o que é bike store.

Aí ocorreu-me uma explicação para o fenômeno. Antigamente, a bicicleta era um meio de transporte utilizado por operários para se deslocarem para o trabalho. Andar de bicicleta era atestado de pobreza e demonstração de que o condutor trabalhava num emprego modesto, normalmente serviço pesado, como pedreiro, ou algo assim. Mas aí, veio a moda do esporte, vida saudável, coisa e tal. E aqueles viventes mais antenados, que gostam de andar sempre à frente do seu tempo, (quando eu era criança, dizia-se prafrentex) resolveram que era melhor perder peso do que perder a onda do momento e se atracaram a fazer exercícios. Um dia, começaram a viajar para o mundo civilizado e descobriram uma coisa fantástica. Lá, os habitantes de todas as condições sociais andavam de bicicleta, tanto o cavalheiro de terno e gravata, com sua pasta de executivo amarrada ao bagageiro, quanto a secretária, que desfilava sua elegância muito bem equilibrada em duas rodas. E também o velho aposentado e o adolescente colegial. A bicicleta era mais usada do que o carro, que alimenta os sonhos de consumo daqueles consumidores que podem viajar porque trabalham em empregos bem melhores que o dos ciclistas conterrâneos. Um dia, no meio da horda de turistas que invadem anualmente o continente europeu, alguém teve um lampejo de criatividade e sugeriu: e se, lá no Brasil, a gente passasse a pedalar como forma de exercício, para passear aos domingos no parque, uma distração bem chic, igual a essa que o povo tem aqui? A outra viajante respondeu: uma bicicleta? Vão pensar que a gente é operário de obra. Instalou-se o impasse e a expectativa de contemplar o mundo do alto de duas rodas já ia quase derrapando, quando uma integrante do grupo, uma moça que frequentava um cursinho intensivo de inglês para ir a Miami comprar os presentes de natal, apontou uma saída. Ia pesquisar como se diz bicicleta em inglês. Empenhou-se numa busca no Google translator e a solução veio como uma simples pedalada. E foi assim que gente elegante e de boa família, cidadão de bem, passou a andar de bike e deixou a bicicleta para aqueles trabalhadores de baixa extração social. É bom lembrar que, para esses, não importa muito o léxico que dá nome à coisa. Isso só interessa para quem quer subir na vida sem muito esforço e descobre que aquilo que poderia conduzir a esferas mais altas está associado à ideia de desprestígio. Então, é necessário criar uma nova nomenclatura para afastar a coisa do meio que a contamina com pobreza e falta de requinte social.

Foi isso que aconteceu para que uma simples bicicleta se transformasse em bike. Pode-se dizer, então, que os novos ciclistas viajam na palavra, que é um veículo de transporte bem mais seletivo e muito mais seguro.

Terra_de_Gigante_imagem

Terra de Gigante

Era uma vez um pais muito distante, chamado Bananópolis. Tinha esse nome porque era muito rico na produção de bananas, uma verdadeira república das bananas. Lá vivia uma população muito pacata, ordeira e pacífica. Dizia-se que esse país era abençoado porque possuía muitas praias, um clima tropical e recebia todos os anos muitos habitantes de outros reinos que viajavam para conhecer essa maravilha de cenário, e todo mundo fazia festa. As mulheres do país nativo dormiam com os visitantes que vinham se refrescar no litoral paradisíaco, para que eles se sentissem o mais bem atendidos possível e esses visitantes ficavam tão felizes e agradecidos que deixavam a essas belas recepcionistas lindos presentes, tais como dólares e euros. O país também possuía muitas florestas, muitos rios e pássaros com plumagens de todas as cores. Mas nessas florestas também havia muitos tesouros escondidos, muita riqueza guardada e que só poderia ser usada pelos bananopolisenses. Para guardar essa riqueza, havia um gigante que morava num castelo muito grande na entrada da floresta e ninguém podia entrar lá sozinho.   Era um Bicho Visagento chamado Magog, que vestia sempre uma camisa verde e uma calça amarela, que simbolizavam as riquezas que ele guardava, a floresta e o ouro. Mas acontece que o gigante estava adormecido, deitado eternamente em berço esplêndido e ninguém podia fazer barulho perto do castelo para ele não acordar, porque se o sono dele fosse interrompido bruscamente ele levantava furioso e batia em quem fizesse barulho.

Porém, num reino vizinho, chamado Yankland, tinha um rei muito malvado, chamado Trompete, que queria se apoderar do tesouro de Bananópolis, mas não queria fazer uma guerra de invasão porque os bananopolisenses eram muito úteis a ele.

O povo desse país das bananas vivia na pobreza esperando que o gigante acordasse para poder usar o tesouro, pois só Magog sabia distribuir a riqueza em partes iguais para todo mundo.

No país do gigante também tinha uns homens muito sem-vergonha, os corupiras, assim chamados porque eram de estatura menor, tanto física quanto de caráter. Eles também queriam roubar o tesouro, só que eles também eram pobres e não tinham onde guardar tanta riqueza. Além disso, costumavam pescar peixe nos rios e apanhar frutas escondidos nas árvores da floresta e levar de presente para o rei Trompete, que recebia todos e comia os peixes e as frutas, por isso os corupiras achavam que eram amigos do rei, e cada vez que iam visitá-lo levavam mais peixes e mais frutas que pegavam escondidos e se sentiam muito importantes, porque o rei comia as frutas e os peixes. Antes de irem embora, os corupiras passavam no mercado que tinha na cidade e compravam as cascas das frutas e as espinhas dos peixes que o rei jogava no lixo e os negociantes juntavam e vendiam como relíquias porque eram cascas das frutas e espinhas dos peixes que o rei tinha comido, por isso tinham muito valor.

Aí o rei teve a ideia de convencer os corupiras a carregarem o tesouro para Yankland, que ele guardava e devolvia quando os habitantes de Bananópolis quisessem. Os corupiras ficaram pensando e esperando uma oportunidade para entrarem na floresta e transportarem o tesouro.

Um dia, o gigante teve um ataque de sonambulismo, saiu sem rumo, quebrando tudo que via pela frente, móveis, cristais, louças, arrombando portas e janelas. Os bananopolisenses viram aquilo e, por não entender da natureza do sono dos gigantes, pensaram que Magog tinha acordado, e concluíram que estava na hora de ser feliz. Então, começaram a comemorar. Vestiram camiseta verde e amarela, as mesmas cores da roupa de Magog, saíram para rua gritando, rindo e atirando foguetes.  À noite, eles iam para as sacadas e janelas de suas casas e batiam panelas porque achavam que com esse ritual iam chamar bastante comida para suas mesas.

Acontece que quando foram derrubadas as portas do castelo, os corupiras entraram e começaram a pilhar tudo o que viram. Para não dar muito na vista, disseram que iam fazer uma festa para comemorar o despertar de Magog. O povo acreditou e ficou muito feliz pensando que todo mundo ia ser convidado pra festa. Os corupiras também arrombaram os portões da floresta com a chave que Magog guardava embaixo da cama e começaram a se apoderar do tesouro e levar tudo para o rei Trompete. Quando alguém reclamava, eles diziam que o rei ia devolver tudo depois com juros e que em breve o povo ia usufruir dos bens e ser muito mais rico e feliz.

Mas o tempo ia passando e o retorno financeiro não vinha e o povo começou a desconfiar. Acontece que as pessoas comuns não sabiam onde o tesouro estava escondido e tinham muito medo de entrar na floresta para procurar, e deixavam tudo por conta dos corupiras, que eram homens mais acostumados a andarem na floresta. Então, depois que tiraram todo o tesouro e levaram para o rei Trompete, e receberam muitas cascas de fruta e espinha de peixe de presente, os corupiras revelaram ao povo de Bananópolis que o gigante estava apenas sonâmbulo e precisavam o fazer dormir de novo senão ele ia destruir tudo. Então, deram uma poção mágica e entorpecente e Magog voltou a dormir. No dia seguinte, eles disseram que a festa tinha acabado e que agora todo mundo devia voltar à sua vidinha normal e trabalhar sem fazer muito barulho porque o gigante podia acordar e ficar muito furioso ao saber o que aconteceu.

E, assim, o gigante voltou a dormir novamente em berço esplêndido e os bananopolisenses continuam quietinhos e pacatos, trabalhando sem fazer barulho, esperando que o gigante acorde de verdade por conta própria e aí sim todo mundo vai ser feliz para sempre.

Feriados_imagem

Feriado Nacional

O ano de 2018 será pródigo em feriados prolongados, aqueles que caem numa segunda ou terça; numa quinta ou sexta, e são emendados com o fim de semana mais próximo. Isso é ótimo para quem depende de emprego para ganhar a vida e precisa acordar às seis da manhã e sacolejar por duas horas dentro de um ônibus abarrotado de gente sonolenta. Esse infeliz vivente vai poder dormir até mais tarde, ou até mesmo o dia todo se quiser. Por outro lado, essas regalias do calendário estão tirando o sono da equipe econômica do governo brasileiro, essa turma tão preocupada com o futuro da nação, e que gostaria até de cortar os dias de descanso dos trabalhadores para que o Brasil não pare de produzir, e siga sua missão inevitável de atingir o progresso e o desenvolvimento.

Eu acho que a supressão de alguns períodos de lazer seria uma ótima ideia, afinal essa plebe brasileira já tem uma tendência natural à ociosidade, e um número excessivo de folgas só contribui para incentivar a preguiça. Por isso, venho a público sugerir a eliminação de algumas licenças remuneradas. Para não me acusarem de leviandade justifico minhas escolhas.

REPÚBLICA. Não vejo motivo nenhum para o feriado de 15 de novembro, o Brasil nunca foi uma república. O próprio ato que derrubou a Monarquia e implantou o novo sistema político não passou de uma quartelada. Os oficiais militares, que protagonizaram a aventura, entregaram o poder a uma das facções que já mandavam antes do golpe, e que não fez outra coisa além de cuidar dos próprios interesses em primeiro lugar, e a coisa pública foi simplesmente ignorada. E hoje o poder executivo não passa de uma cleptocracia exercida por uma quadrilha de mercenários e saqueadores que se refugiou no Planalto Central e está vendendo o país no varejo internacional, e embolsando os lucros do negócio. Então, no 15 de novembro vamos todos ao trabalho.

INDEPENDÊNCIA. Esse festejo é um contrassenso. Que eu saiba, o Brasil nunca foi independente. Um país onde o Banco Mundial determina quais as leis devem ser votadas e aprovadas, quem pode ser presidente e quem deve ficar de fora do comando, um país assim pode até se vangloriar de algumas conquistas, mas nunca de soberania. Atualmente, o partido que toma as decisões na Capital Federal não passa de um bando de lacaios a serviço do capital estrangeiro, recebendo polpudas comissões e depósitos em paraísos fiscais. Minha sugestão, corta-se o 7 de setembro.

DIA DO TRABALHO. Comemoração inútil e sem fundamento. Depois da flexibilização da Lei Áurea, que acabou com as garantias sociais do trabalho, nosso contingente produtivo está submetido a um regime escravista, sem a esperança de surgimento de uma nova Princesa Isabel. Então, primeiro de maio, todo mundo no batente.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA. Até agora falei dos dias de repouso no âmbito nacional. Mas aqui no Rio Grande do Sul ainda temos o vinte de setembro, que exalta a capacidade que a gauchada tem de ignorar a história. Trata-se de um episódio bizarro em que um grupo de estancieiros fez cara feia para a Coroa, levou uma surra e até hoje o estado soleniza a data, como se tivesse obtido uma grande vitória. E para completar o quadro de desatinos ainda chamam isso de revolução, e a consequência é mais um dia de trabalho perdido.

TIRADENTES. Talvez o único feriado nacional com algum vestígio de razoabilidade seja o de Tiradentes. Mas não por ele ter dado a vida pela independência do Brasil, porque, como já disse, nesse aspecto foi tudo em vão. A gente poderia ver o famoso dentista por outro ângulo e elegê-lo como um símbolo do povo brasileiro. Ele se meteu a defender a causa de uma elite endinheirada que não queria mais pagar tantos impostos à metrópole, e por desinformação ou ingenuidade, o simples alferes acreditou que a proposta tinha grandes motivos patrióticos, mas na hora de enfrentar o leão, foi jogado na arena sozinho e pagou a conta com a própria vida, pois era o único miserável entre os insurgentes. Como se vê, não é de hoje que os pobres defendem as causas dos ricos e depois arcam com as consequências.

NATAL E SEMANA SANTA. Mas os dias-santos mais ridículos de todos, e também os mais longos, são os religiosos. Nos períodos de Natal e de Semana Santa, além de vários dias sem trabalhar, a cristandade ainda é jogada num clima esquizofrênico de consumo e excessos de comida e bebida, ou seja, mais dívida e aumento de peso, talvez até com diabetes e pressão alta. Sem falar no absurdo de festejar o nascimento, depois a morte, de um personagem fictício, criado pela crendice popular há mais de dois mil anos, e que nunca teve a existência histórica confirmada por uma pesquisa séria. Portanto, nada de dingoubel e nem coelhinho da Páscoa.

Mas eu decretaria o primeiro de abril como feriado nacional, pois a mentira hoje é a principal característica da camarilha que se instalou no Palácio do Planalto. Basta ligar a televisão nos noticiários para constatar a habilidade que essa trupe tem de inventar histórias mirabolantes. Seria um ótimo dia para ficar em casa sem fazer nada, só assistindo televisão e lendo os jornais de maior circulação do pais, uma verdadeira celebração da mentira e da manipulação. Afinal, papel de bobo o brasileiro sabe fazer direitinho. E o ápice da festa solene seria o final do dia, quando as pessoas chegam em casa e se dirigem às suas sacadas ou janelas e marcam a data com uma barulhenta bateção de panelas.