menino-birrento

Ingenuidade abusiva

Há uma expressão latina que traduz um princípio bem sábio: Abusus non tollit usum, que em linguagem vernácula significa O ABUSO NÃO IMPEDE O USO. Para ilustrar esse pensamento, pode-se trazer à baila a demonização que se faz, já há um bom tempo, da televisão e, mais recentemente, da internet. Ora, todos os avanços da tecnologia devem ser aplaudidos, e as novas invenções são maravilhosas por si mesmas. Se alguém fez uso inadequado delas, a culpa está no usuário, não na técnica. É mais inteligente corrigir os desvios do hábito do que jogar fora um monte de possibilidades positivas por causa de um erro de execução. Sem falar no retrocesso que isso pode acarretar.

Mas o assunto aqui é política, e não tecnologia. Nosso atual presidente se elegeu graças a um equívoco desse tipo. O discurso mais incisivo na campanha foi o ataque ao que ele chama de velha política, que consiste segundo ele, de conchavos entre o Executivo e o Legislativo para manter a governabilidade. Esse sistema seria responsável por todo o caudal de corrupção que corrói as bases da sociedade brasileira. E prometia: “vamos acabar com isso daí, tá ok?”. Tal era a entonação da promessa que o candidato conquistou uma legião de apoiadores que lhe garantiram a vitória no segundo turno.

Não custa nada investigar um pouco a índole do atual eleitorado brasileiro. Há uma parcela bem expressiva da população brasileira tomada de ódio pela classe política e pelas ancestrais falcatruas daqueles que deveriam estar zelando pelas riquezas públicas do país e em vez de as aplicarem para o bem comum tratam apenas de encher os próprios bolsos e atender aos interesses privados. Indignação muito legítima, por sinal. Mas há outro aspecto significativo na caracterização desse votante que é a simplicidade de raciocínio. Seja por falta de conhecimento objetivo sobre a matéria, seja pela dificuldade de uma abordagem mais racional para ver o fenômeno nas dimensões que ele tem, histórica, sociológica, política, certo é que o cidadão médio se deixa atingir pelos fatos de uma maneira puramente emocional, no ângulo limitado pela sua própria experiência individual. Como o alcance da maioria das pessoas leigas não vai além das atribulações do cotidiano, é comum que se encare a administração de um país como se fosse o provimento de uma família, onde o chefe, com cara de homem sério e pose de mau, chega no momento oportuno para acabar com as desavenças entre os fâmulos e restabelecer a ordem e a paz. Nesse sistema o presidente da república assume facilmente o papel de um pai protetor. E foi nesse contexto que o ex-capitão apareceu extravasando bravatas, ameaçando prender e matar qualquer um que saísse da linha traçada pelo catecismo do bom comportamento. O povo aplaudiu desvairado na crença de que a balbúrdia ia acabar.

O problema, que parece ter sido ignorado tanto pelo postulante quanto por seus eleitores, é que os governos se formam apoiados em princípios de natureza filosófica, política, etc. e o caso é que o Brasil, ainda que muito mais nos documentos oficiais do que na prática, é uma República Democrática, cuja base de apoio é a harmonia dos três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário. Ou seja, para que as coisas funcionem de uma maneira minimamente aceitável, essas três instâncias de poder devem permanecer em constante diálogo, o que significa acordos, negociações, trocas de vários tipos. É muito ingênuo alimentar a ilusão de que o presidente possa governar sozinho e impor um projeto unilateralmente, sem discutir com o Congresso. Pelo menos numa Democracia. E aí é que está o busílis. A singeleza intelectual e a inaptidão do seguidor de Bolsonaro para entender as questões mais complexas levam-no a aplanar tudo ao nível da vontade pessoal, uma concepção infantilizada e muito moralista na qual, se a opinião é boa deve ser aceita por todos, assim como as crianças acreditam que todo mundo gosta do que elas mesmas gostam. Por outro lado, essa mentalidade implica uma predisposição ao fascismo, ao autoritarismo, aquela ditadura que os infantes exercem sobre os adultos porque não aprenderam ainda o poder da reciprocidade.

Agora estamos vivendo o momento de encarar a realidade: o presidente está reconhecendo publicamente os contratempos de governar sem negociar com o Congresso. É claro que esse negociar, além das conotações éticas louváveis, vem também conspurcado por significados espúrios e muito pouco recomendados para uma verdadeira República democrática. Mas, seguindo o ensinamento dos antigos romanos, traduzido na frase lá do começo, é necessário aprimorar a técnica da oratória em vez de regredir ao estágio primitivo da força bruta.

Resta esperar pra ver se os bolsonaristas vão aprender a lição e procurar, no próximo pleito, alguém com propostas mais honestas e mais realistas ou vão sair à procura de outro salvador que prometa novos milagres, tão maravilhosos quanto impossíveis de realizar. Espera-se que optem pelo primeiro caminho, pois o segundo seria abuso de ingenuidade.

Anatomista

Outra América, pouco descoberta

A leitura é uma tentativa de estabelecer laços afetivos com o autor por meio de sua obra. O livro é o corpo físico onde a gente procura a alma de quem o escreveu, ou o universo que inspirou aquela criação. O sujeito se prepara como quem vai a um encontro amoroso, o coração pleno de bons sentimentos, com a esperança de uma nova e fascinante experiência.

O problema é que, às vezes, o leitor é um apaixonado ingênuo e idealista, que se entrega a essa aventura esperando muito mais do que o ser desejado pode oferecer. Assim aconteceu comigo ao ler O Anatomista, do argentino Federico Andahazi. Logo nas primeiras páginas já se percebe que, do ponto de vista literário, o livro não corresponde à expectativa criada pela importância do tema; a descrição das personagens não tem muita inspiração, e a tessitura dos fatos deixa muito a desejar em termos de criatividade. Está claro que o autor não se preocupou nem um pouco com aquilo que os estudiosos chamam de literalidade. Não bastasse isso, ainda nos brinda com episódios de conotação grotesca, em que uma menina, ainda de fraldas, brinca e se deleita de maneira nada infantil num excitante felatio, e depois, enfurecida por ter sido submetida à força a esse ato, arranca de uma dentada o membro flácido do velho que a explorava. Essa mesma criança, em cenas anteriores, protagoniza uma peripécia muito pouco convincente, ao desafiar sua cafetina ao dar-lhe o quinhão merecido.

Trata-se de um romance que aborda uma passagem na vida de Mateo Colombo, anatomista italiano que viveu em meados do século XVI, um homem em sintonia com a mentalidade do Renascimento; exercia a atividade médica, mas também se ocupava da pintura, e gostava de escrever. O próprio tema já remete à ideia de prazer. O foco da narrativa é a descoberta do órgão responsável pelo prazer sexual das mulheres, e só por isso já cria a esperança de conhecer um pouco mais sobre o instigante universo da anatomia. No lado científico, o personagem investigava as qualidades medicinais das ervas, que usava nas curas de pacientes. As pesquisas sobre essas poções também eram incentivadas pelo desejo de possuir uma chave que abrisse as portas e mostrasse o caminho mais procurado pelos homens renascentistas: o do coração das mulheres. Mas justamente como anatomista que ele iria descobrir algo mais importante do que a América de Cristóvão, o outro Colombo que entrou para a história dos descobrimentos, quando atravessou o Atlântico e se deparou com um novo continente. Em vez de se arriscar nos oceanos e enfrentar todos os perigos das águas, tanto os reais quanto os que a superstição produzia, Mateo Colombo preferiu o corpo feminino para lançar âncoras e explorar suas riquezas naturais. Pois foi lá, nas partes mais íntimas de uma dama desfalecida que ele desvendou uma protuberância anatômica que, de início, julgou que fosse um pequeno membro masculino. Estaria ele à frente de um ser hermafrodita? Começou então a manuseá-lo e constatou que a doente reagia positivamente com contorções pelo corpo, os músculos retesados e, ao final, uma explosão de prazer que nem ele tinha visto, nem ela havia desfrutado. Mais ainda, ao notar que a paciente recuperava as forças, prescreveu sessões diárias de carícias, até que a enferma se apresentou completamente restabelecida. Mateo Colombo entendeu nesse momento que não se tratava de nenhuma deformação, nenhuma manifestação demoníaca, como poderiam acusar os crentes quinhentistas. Era tão somente um detalhe da anatomia feminina, até então desconhecido, que, ao ser devidamente manipulado, leva a mulher ao paroxismo do gozo. Ainda não tinha um nome a dar a tão valioso tesouro, então, chamou de Amor Veneris, pois acreditou que ali se concentrava toda a capacidade de amor feminino. Agora ele tinha, como o outro Colombo, a sua América, que o tornaria imortal. E aqui o autor faz uma boa aproximação entre as duas descobertas, pois ambas significavam grandes possibilidades para quem se propusesse a conhecer novos mundos.

Mas antes de ganhar a imortalidade, Mateo Colombo ganhou uma cela, uma espécie de prisão domiciliar na universidade de Pádua onde lecionava, enquanto aguardava o julgamento de uma comissão da Santa Inquisição. As práticas de dissecação de cadáveres e ensaios com mulheres vivas já haviam despertado a suspeita dos doutores da Igreja, antes mesmo de anunciar essa proeminência por onde, segundo os nobres prelados, o demônio se apossaria do corpo da mulher.

É nessa perspectiva que aparece um dos aspectos mais interessantes do livro: a confusão que se fazia, nessa época, entre ciência e religião, com a total submissão da primeira às superstições da segunda. E é ainda nesse quesito que o livro é bem atual, apesar de ter sido publicado há mais de vinte anos, pois reflete bem esse estágio mental de hoje, que trouxe de volta algumas crenças há muito superadas, onde a ciência e a lógica têm sido relegadas a planos secundários, abaixo dos mais bizarros delírios, e o conhecimento é colocado na condição de mera opinião pessoal. Dá para imaginar a resistência que o anatomista enfrentou ao afirmar a naturalidade do prazer sexual feminino num tempo em que um simples olhar menos submisso já jogava uma mulher na fogueira, sob a acusação de bruxaria. No romance de Andahazi, Mateo Colombo padece por vários dias a angústia da certeza de ser jogado nas chamas do fanatismo religioso por ter proclamado a descoberta de sua América, muito mais rica. Escapou por pouco.

Não sei quando essa maravilhosa saliência recebeu o atual nome de clitóris, o que sei é que ainda hoje as mulheres se queixam que muitos homens, seja por falta de habilidade anatômica, seja por medo de arder em algum incêndio imaginário, mesmo sabendo de sua existência, nunca conseguem encontrá-lo.

romero brito

Sem Deus e sem Musa

Eu queria escrever alguma coisa grandiosa neste começo de ano, tecer algum encômio a essas extraordinárias realizações que ocupam os cidadãos de bem do nosso país. É sabido que quando troca um dígito no calendário anual, as pessoas se nutrem daqueles sentimentos mais nobres e pensam em passar todo o ano novo dedicadas a tarefas importantes para o bom andamento da raça humana, e seria bem gratificante poder retomar minha produção de textos em sintonia com essas sumidades mais destacadas da nossa civilização

Mas acho que não fui tocado por esse espírito numinoso que orienta a vida dos meus contemporâneos e conterrâneos, e as musas, por mais que eu rogasse, não atenderam as minhas súplicas, nem me guiaram no caminho necessário para fazer tanto. Me sinto abandonado pelas divindades neste nosso mundo, tão pródigo de talentos para uns e com tanta parcimônia para outros.

Por vezes me sinto injustiçado. Mesmo tendo nascido numa família católica e sido amamentado sob os ensinamentos da mais autêntica doutrina cristã, e nunca ter me afastado um único centímetro da retidão que nos leva à presença dos Bem-aventurados; e ainda por cima, ter passado os primeiros anos da minha infância num sítio sortido de árvores frutíferas, nunca vivi um único momento de epifania, desses que acontecem às almas escolhidas pela Potestade. Já nem digo que Jesus me aparecesse no pé de alguma das árvores que nos fornecia alimentos para o organismo em épocas de penúria. Nosso Senhor certamente teria gente mais importante para visitar. Mas um simples sinal, como aquela imagem da cruz em chamas que apareceu ao imperador Constantino e o inspirou a abraçar o Cristianismo e impor a fé cristã a todo o império romano, ainda que ele próprio continuasse a cultuar os antigos mitos e deuses pagãos.

Nada disso me foi concedido, e por isso eu vivo preso na jaula desta insignificância, sem aptidão nenhuma que me eleve um pouco acima do comum das criaturas de Deus. É de se pensar que o Todo Poderoso criou os seres todos iguais e mandou que eles conquistassem as alturas espirituais e em seguida também atingissem os picos mais altos da escala social, mas, não sei se por descuido ou por algum desígnio mais misterioso, não forneceu escada nem elevador pra todo mundo, por isso alguns seres de índole mais lenta, no caso eu, foram deixados para trás, e os primeiros postos na pirâmide foram ocupados por grandes homens que, uma vez acomodados nas alturas, não descem nem para fazer suas necessidades mais básicas, o que acaba sendo bom para os aqui de baixo, que muitas vezes, só o que encontram para tocar a vida em frente são as sobras  que despencam, ou são expelidas, lá de cima.

Além dos parcos recursos naturais, a natureza ainda me impôs algumas limitações psicológicas, como as fobias. Com exceção do banho diário no verão, e um ou dois por semana no inverno, eu faço tudo o que posso para evitar a água. Água pura, nem beber eu consigo, o que me impõe a ingestão de outras beberagens mais palatáveis, como a cerveja e vinho, para suprir a necessidade de líquido no organismo. Não fosse isso, poderia me lançar em algumas aventuras dignas de uma narrativa épica para compensar minha falta de habilidade para frequentar os círculos mais altos da sociedade. Por exemplo, estive a ponto de tomar uma grande decisão e embarcar no cruzeiro dos terraplanistas, esses geniais discípulos do grande filósofo Olavo de Carvalho, um exemplar patriota que mora há anos dos Estados Unidos pra enriquecer seus conhecimentos sobre o torrão natal. Pois essas mentes inquietas vão se dedicar a uma das tarefas mais importantes dos últimos milênios para a ciência da navegação, da aviação, da física, da geografia, da astronomia, da filosofia, e com certeza, da psiquiatria: eles vão provar de uma vez por todas que a terra é plana e que o sol é que gira em torno dela. Calem-se Galileu, Copérnico, Newton, Arquimedes, iluministas, escolásticos, metafísicos, homúnculos insignificantes, todos influenciados pelos delírios das superstições marxistas, agora é a vez do sistema solar ser administrado e iluminado pelas luzes superiores de Olavo de Carvalho.

Seria essa uma grande chance para eu galgar alguns degraus nessa escada invisível que nos alça aos píncaros da glória, ao participar desse momento histórico, que derrubará todas as crenças e superstições dos ingênuos cientistas. Já imagino quantas curtidas nas fotos do Facebook, uma selfie mostrando os limites da barreira do plano, que antes se acreditava um globo, de onde não se pode mais avançar, sob o risco de cair no mais profundo dos abismos e no ridículo. Os registros fotográficos, claro, teriam a legenda EU ESTIVE LÁ. Além disso, imagino, que texto maravilhoso eu escreveria, uma autêntica narrativa de viagem desbravadora, que desbancaria Saint-Hilaire, Barlaeus, Nieuhoff, Lindley, Taunay, Staden, só para mencionar apenas os que estiveram nestas plagas abençoadas do Brasil. Então eu poderia dizer a esses escrevinhadores do passado, recolham suas engenhosas marandubas que agora eu trago a única, a maior, a verdadeira descoberta.

Mas não. Eu não nasci para brilhar no palco, meu lugar é a plateia. O que me resta é permanecer na arquibancada do circo e esperar para bater palma e gargalhar quando as performances começarem. Mesmo assim, ainda alimento uma esperança, porque, como todo mundo sabe, o Brasil é um país de muitas possibilidades.

foto: https://www.conversaafiada.com.br

fascismo

A VISITA DA VELHA SENHORA

Os generais já tinham ido embora mas havia ainda o medo que que voltassem. A gente até cantava uma canção que dizia assim: O fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante, fascinada. Nessa época, o único sonho de todo o brasileiro era a volta da normalidade, da democracia. Era tão intenso o nosso sonho que, aos primeiros sinais de chegada de uma visitante tão ilustre, começamos a festejar, e nem percebemos que a velha senhora estava doente, enfraquecida e precisou ser conduzida por uma guarda de honra, da qual nem suspeitamos. Quando nos damos conta de que esses agentes eram, na verdade, vigias, o sonho virou um pesadelo. Como naquelas histórias macabras em que uma aldeia se enfeita toda para receber a visita de uma figura muito importante, e depois tudo vira tensão e terror.

Ela chegou, devagar, oscilante. Ou melhor, os anfitriões a receberam assim, um pouco por falta de prática de convívio, outro pelo temor de ofendê-la ou machucá-la. Mas os receios se dissiparam, ela se instalou na vida de todos e a audácia substituiu o medo, a empatia tomou o lugar da desconfiança, pois descobriu-se que se tratava de uma senhora muito amorosa, compreensiva e tolerante, recebia de braços abertos a todas as pessoas que a procuravam, os que esperavam por ela, os que queriam conhecê-la e até os simples curiosos sem muita convicção. Ela tinha sempre uma palavra carinhosa para recebê-los. Instalou-se um clima de harmonia tão intenso que logo a cidade estava toda em festa, na celebração da diversidade e do gozo da existência.

Mas alguns daqueles convivas que se juntaram aos festejos se mantiveram sentados, meio escondidos num canto, observando com um olhar muito desconfiado aquela apoteose da vida que fluía nos sorrisos, nos abraços. De início, deram para se queixar do barulho, depois começaram a emitir comentários maldosos sobre as maneiras e os comportamentos que achavam inadequados. Sem que ninguém desconfiasse, aproximaram-se daqueles agentes que conduziram a visitante, em colóquios ao pé do ouvido, inaudíveis no meio da algazarra comemorativa. E quando consideraram que as comemorações se estenderiam por tempo superior ao que lhes parecia adequado, se levantaram em protestos. Eles queriam acabar com a nossa folia, sob o argumento de que aquele rebuliço denegria a imagem da comunidade, que até então se tinha por muito séria e respeitosa. Foi aí que nós prestamos maior atenção naqueles indivíduos macambúzios, que não se divertiam, apraziam-se numa abstinência de qualquer bebida que pudesse tirá-los da pose austera. E notamos também que aquele conluio com os supostos guias já vinha de longe, de antes da chegada deles.  A lição que aprendemos, com dor e decepção: a alegria contagiosa, a espontaneidade, a fluidez da existência livre, sem pejos, assusta muito os espíritos presos, aqueles que vivem submetidos aos limites precários das convenções e da moral. E, hoje, esses espectros sonâmbulos tomaram conta da casa e querem suprimir qualquer explosão de divertimento que não esteja de acordo com algumas regras pré-estabelecidas. Pois para esses deserdados da vitalidade essencial, há uma divisão bem clara entre o certo e o errado, o bem e o mal, o bom e o ruim. E a nação que os adeptos dessa ordem planejam é um agrupamento uniformizado, unívoco, defendendo as mesmas ideias e repetindo os mesmos discursos, assim como os fiéis numa igreja, na hora da missa, que balbuciam em coro apenas as réplicas de uma ladainha ritualística. Os espíritos rasos não gostam de nada diferente, seja nas ideias, nas falas, nas maneiras. Seus consortes partilham o ideal de uma população bem-comportada, bem-educada, bem vestida, mas essa noção de bem é apenas a projeção de suas próprias preferências. Eles ignoram a ética e se agarram à moral para planejar uma sociedade supostamente perfeita, que não seria nada mais do que um espelho multiplicado de suas próprias personalidades.

Umas das características mais marcantes dessas mentes atrasadas, fanáticas pelos bons comportamentos, é tachar de radical e deselegante qualquer expressão verbal que coloque em xeque aquela harmonia elegante estabelecida como o jeito correto de viver. Por isso, uma das primeiras atitudes tomadas ao se apossarem da brincadeira foi estabelecer os assuntos que se podia discutir em público. Sob o pretexto de manter a paz e harmonia entre os cidadãos, foi estabelecido que não se falaria mais de alguns assuntos, como política, por exemplo, porque esse é um tema que sempre traz discórdia e provoca tumulto entre os indivíduos. E os novos tempos clamam por uma nova ordem em que todos comunguem das mesmas crenças. O que se tem hoje, sempre que surge um movimento de tensão em que as tendências políticas afloram, é um desses defensores da harmonia saltar com um acervo completo de respostas previamente estabelecidas pela maioria das pessoas de bem, pronto a afastar qualquer possibilidade de conflito. Sentenças consideradas cheias de sabedoria, tais como: “política e religião não se discute”; “respeito sua opinião, gosto que respeitem a minha”, estão sempre na ponta da língua para evitar qualquer dissabor na hora de uma provocação imprevista.

Hoje, aquela senhora que veio nos visitar continua na sala, entronada num lugar de destaque, mas é tudo meio de faz de conta, porque, como ela está meio velhinha e debilitada, ninguém dá muita importância ao que ela diz. Como ela era muito valorizada no passado, finge-se que tudo leva o consentimento dela. E quando algum inoportuno argumenta que esse aval é apenas fictício, um exercício de prestidigitação para enganar a plateia, imediatamente salta um fiscal da ordem para apaziguar os ânimos. O importante é que agora temos uma orientação segura, um jeito correto de viver, baseado em princípios que servem pra todo mundo e não apenas para alguns.

lula x bolsonaro

Parusia à brasileira

Preferência política não é uma questão de mera opinião pessoal. Quando alguém dá um voto para eleger uma proposta de governo está avalizando algo que vai atingir todo mundo, não apenas o próprio eleitor, porque uma eleição não é um conflito pelo controle de patrimônios pessoais, e sim uma disputa pela administração de interesses da nação. Pendor político, portanto, depende de uma visão de mundo que prioriza o bem-estar da sociedade sobre as opções individuais. Entenda-se a cosmovisão como o corolário de uma práxis que subentende as vivências, os aprendizados, e a perspicácia na compreensão dos fenômenos sociais. É o ápice de uma formação intelectual consistente, do exercício do intelecto, mas também uma mentalidade humanista que desenvolve um potencial de empatia e busca no convívio social a interação entre os sujeitos e não entre objetos de consumo. Para uma mente polida pelas conquistas da civilização, sob os pontos de vista filosófico, histórico e antropológico, o humano sempre terá a primazia, um triunfo sobre a reificação dos indivíduos. Após essas meditações, pode-se até dizer que escolha política é uma questão de caráter, não no sentido moral, mas na acepção de uma estrutura psíquica, intelectual e afetiva.

É claro que essas divagações só valem para um sistema completamente idealizado, a ser praticado numa democracia onde os valores republicanos estejam em primeiro lugar nas intenções dos dirigentes, embora não sejam só os governantes que devam arcar com toda a responsabilidade. É necessário também que o eleitorado tenha incorporado o entendimento de que os cidadãos de uma comunidade vivem na maior parte de suas vidas compartilhando bens e espaços públicos, que, portanto, o usufruto dos bens é um direito coletivo, e os propósitos são comuns.

Não é esse o caso dos regimes atuais, sobretudo do Brasil, que, em verdade, nunca se constituiu como uma verdadeira República. No que diz respeito aos políticos, eles se apropriaram dos numerários públicos para benefícios de seus grupos privados. Fato deplorável, sem dúvida, mas o que interessa aqui é a reação do eleitor, cujo comportamento, na hora de votar, segue uma orientação personalista, em geral paternalista, que lembra as relações entre súditos e soberanos dos regimes monocráticos, onde a identidade do Senhor paira como uma divindade acima das consciências individuais

Nas eleições brasileiras deste ano de 2018, para presidente da república, esse fenômeno se mostrou com toda a clareza. Bolsonaro, o candidato vencedor, não apresentou, a rigor, nenhum projeto de governo que demonstrasse algum desvelo com os rumos do país. Concentrou a campanha numa promessa vazia de combate à corrupção no mesmo estilo de uma pregação religiosa, apregoada à exaustão para ser repetida infinitamente pelos fiéis e seguidores. O clima era de revanche, a sanha na punição dos pecados daqueles a quem considera os representantes do mal supremo: os políticos. Atualização evidente do mito do Anjo Vingador. Saliente-se que esse é um tema que tem hoje, no Brasil, um forte apelo emocional, muito mais forte que qualquer compreensão racional do problema. A roubalheira se transformou em alvo de uma cruzada moralista e a ideia de condenação das falcatruas exerce o fascínio de uma força mística sobre a multidão. Em resumo, é um tema que manipula ressentimentos e ódios recalcados de uma população que vê o país abandonado em seus serviços básicos, enquanto os políticos abastecem polpudas contas clandestinas em paraísos fiscais.

Mas o pior de tudo é a constatação de que essa falta de visão política não afeta só o lado direito do espectro social. Na esquerda também encontramos a manada entorpecida, adestrada por uma voz de comando, longe da qual se sente perdida e desesperada. Lula venceria facilmente a eleição, mas o candidato escolhido para seguir os projetos lulistas não ganhou. Esse é um detalhe importantíssimo para as estratégias de futuras campanhas, porque está claro que parte do eleitorado de Lula não tem a menor preocupação com proposições políticas, nem mesmo uma pequena noção de desígnios coletivos. Entre esse contingente, o voto em Lula é a manifestação de uma alma messiânica, a crença no salvador, no grande pai protetor que vai conduzir o povo a uma terra de bem-aventurança. Não há como se iludir com a presunção de que todo o voto em Lula é fruto de um processo de conscientização das camadas eternamente desvalidas da sociedade brasileira. Há ainda uma boa parte dessa gente que não adquiriu a capacidade de construir a sua própria vida e está de cabeça baixa, em pose de oração, à espera da Parusia, a segunda vinda do salvador à terra, para levar consigo os inocentes e punir os culpados. Mesmo que o pretenso salvador não passe de um ex-operário, cujo milagre mais extraordinário foi escapar de uma trajetória previsível por ter nascido em condições precárias, e cuja maior mensagem é de que não há um destino traçado por forças divinas inelutáveis, e que o primeiro passo para a salvação é livrar-se da ideia de um salvador. A verdadeira redenção é a resistência do povo lutando contra as forças opressoras e construindo seu próprio paraíso

foto: arquivo de internet