karnal

Venial Karnalidade

Vivemos a época da diversidade. E isso é ótimo como reconhecimento do valor de novas propostas, outras predileções no estilo de se conduzir a própria vida, novas maneiras de viver os afetos, enfim, um sem-número de escolhas a contradizer as teses retrógradas da monotonia existencial.

Mas há o outro lado. O senso comum, com a costumeira obsessão de rebaixar tudo ao nível simplório das inteligências medianas, criou uma grande confusão entre variações nos modos de vida e intercâmbio dos posicionamentos ideológicos. Resulta daí a crença de que qualquer tagarelice deve ser levada na conta de legítima manifestação. A justificativa para tais superstições é que o diálogo entre pessoas civilizadas deve se dar em tom de conversa de salão, sempre no limite requerido pelas almas mais sensíveis, aquelas que se ofendem até com brincadeiras inocentes.

Essa semente da concórdia brotou em solo fértil entre os adeptos da polidez social, e a nova árvore do conhecimento cresceu com tanto vigor que as ramagens atingiram os meios acadêmicos brasileiros, onde sempre há um sofomaníaco disposto a atender as demandas do grande público. Conectados aos tempos modernos, em que tudo o que é venal passa pela mídia, esses doutrinários das boas maneiras vendem uma imagem de estoicismo e superioridade de espírito, e arrebanham uma multidão de fieis dispostos a sacrificarem até mesmo a capacidade de reflexão intelectual para consumir o último produto mental em oferta. Bem treinados numa retórica carregada do jargão das ciências sociais, eles engendram uma logorreia saturada das mais comezinhas generalizações do prosaísmo cotidiano, articulam um palavrório sem profundidade intelectual, um fast food do festim filosófico, pronto a ser engolido por paladares rústicos e apressados em sentir o gosto purificador da boa informação e do equilíbrio emocional, imune aos dissabores do extremismo.

Leandro Karnal é hoje o maior representante dessa tendência. Dotado de certo carisma, uma figura elegante, performance realçada com algumas doses de bom humor, ele arranca fervorosos aplausos de uma plateia que parece pronta a aplaudir qualquer tolice que lhe sirva de alimento espiritual, sem maior exigência quanto ao valor nutritivo, desde que o tempero tenha um gosto aprazível. Basta assistir a alguns dos inúmeros vídeos disponíveis na internet, nos quais o famoso professor exibe erudição e charme na sua parolagem, onde propaga uma ladainha boba e singela, que não rompe as camadas mais externas dos problemas que se propõe a discutir. Uma arenga composta de frases feitas e alogias correntes, salpicadas aqui e ali por uma passagem literária, ilustrada com o nome de um personagem da literatura clássica, um escritor ou filósofo do cânone cultural, mas cujo cerne, para quem quiser procurar, revela-se completamente vazio, desprovido de qualquer consistência, seja filosófica, seja sociológica.

Num dos vídeos assistidos, ele lança invectivas contra a intolerância, a falta de recíproca, a dificuldade dos brasileiros de conviverem com quem expressa pensamento diferente dos seus. Seja no futebol, em religião ou política, lamenta ele, não há mais a boa troca pacífica de críticas.

A primeira coisa que surpreende um ouvinte mais atento a esse discurso é o fato de um acadêmico misturar três instâncias tão distintas umas das outras. As preferências no futebol são movidas por uma paixão. Não há o que explicar quanto aos motivos que levam um indivíduo a se bater pelo time A ou B, e creio que ninguém se preocupa muito com isso. A religião é a necessidade de uma pessoa de se agarrar a algo que ela acredita ser superior e que vai dar sustentação a sua existência. Discutir religião é pôr em risco toda a estrutura de conceitos sobre os quais a pessoa organiza sua vida. É por isso que muitos crentes não aceitam o menor vestígio de dúvida sobre suas quimeras. Se essa resposta tem muito de condicionamento emocional, também é certo que se origina de um instinto de sobrevivência, e assemelha-se à busca de um anteparo diante de um perigo ancestral: o medo provocado pela consciência do abandono num universo que não se consegue conhecer integralmente.

Já a política não é uma simples aventura inspirada no alvitre pessoal. Trata-se aqui de um caminho escolhido em função de um processo de aprendizado cultural no que concerne aos assuntos que condicionam a vida em sociedade. Diferente do futebol, onde as escolhas são emocionais, e da religião, onde os motivos são místicos e de natureza espiritual, na política, as opções são baseadas nas afinidades com os projetos políticos que os partidos representam.

Essa postura do professor traz implícito aquele estereótipo de que política não se discute. É uma sentença criada para que as tramas políticas sejam dadas como naturais, coisas de esferas inatingíveis para o cidadão comum, Trata-se, evidentemente, de retirar os temas políticos do debate em lugares públicos, e condicioná-los aos espaços previamente consagrados a esse fim, como as instituições e a academia, pois como se sabe, nesses ambientes só entram os juízos permitidos por quem está no comando.

O segredo do sucesso do Karnal é a habilidade de traduzir os aforismos mais corriqueiros para o jargão acadêmico. Seus ouvintes são aqueles indivíduos que não querem ir além da casca mais exterior dos fatos e buscam uma justificativa para as suas fraquezas intelectuais. Quando uma pessoa não encontra energia para apreender a complexidade da vida, sai à procura de alguém que legitime e valorize a superficialidade e os preconceitos das ideias prontas. Só assim é possível entreter-se em bate-papos descontraídos com os amigos, pois se sabe que todos os provérbios são válidos e merecem ser respeitados. E mais ainda, fica-se com aquela agradável sensação de estar contribuindo para a paz e a harmonia dos costumes.

Naturalmente que não há o que se preocupar com o fenômeno atual das celebridades acadêmicas. A Karnalidade é venial; não passa de uma pregação para convertidos, seres ingênuos que confundem pabulagem com sabedoria, impressão pessoal com raciocínio, e encaram a busca do conhecimento como uma reunião de camaradagem, onde as nuances subjetivas da fala já são suficientes para atrair ouvintes predispostos ao êxtase da cumplicidade.

No entanto, sempre é bom acrescentar que as inferências da razão não se prestam só para entretenimento no happy hour. Elas são a causa do arrebatamento das atitudes e a justificativa das posições que o sujeito vai assumir na vida, assim como o fundamento dos interesses a serem defendidos. Até aí, nada demais. O problema é que entre esses encargos que as pessoas assumem na vida está a função de governar as outras pessoas e reger os destinos de todo mundo. E mesmo no caso de quem se abstém de pleitear altos postos nas instâncias administrativa e legislativa, suas assertivas podem servir de apoio para aqueles que assumem o controle do poder e determinam os rumos de uma sociedade. Conclui-se daí que o busílis não é a diferença das ideias, e sim os interesses que elas legitimam.

Demonstrar apreço por uma pessoa é um ato de civilidade elogiável em qualquer circunstância, mas não se pode cometer mais um equívoco, muito comum nos dias de hoje: considerar uma pessoa não é a mesma coisa que acatar como válido qualquer disparate que ela proferir. Respeita-se a integridade moral e física da pessoa discordante, mas sem a necessidade de levar a sério uma baboseira descabida só para manter a pose de cortesia.

A tolerância é antes de tudo uma estratégia de preservação mútua, mas é bom ter sempre em mente que as interações humanas vão muito além do papo furado de uma mesa de bar.

Sem Título-1

A classe do ódio

O brasileiro é um sujeito que ama o verbo odiar. Apesar de todos os clichês com pretensões antropológicas do país da alegria, do êxtase carnavalesco, do reino do improviso, do hedonismo praieiro, mesmo com todos essas abstrações para afirmar o contrário, o povo brasileiro sofre de uma necessidade congênita de detestar alguém, ou alguma coisa.

Quais as causas disso? Ressentimento? Alguma experiência atávica de maus tratos? Não sei. Mas posso afirmar que a malevolência exacerbada sempre busca um alvo no qual se projetar e realizar uma catarse paliativa. Uma curiosidade encontrada no dicionário Houaiss aponta para uma linha interessante de análise: o ódio é geralmente provocado por uma sensação de medo. Qual o monstro que polui as paisagens verde-amarelas com as manchas negras do pavor?

Percebe-se, também, que algumas circunstâncias ou pessoas, por vezes, canalizam esse mal estar da falta de civilização tupiniquim de maneira mais intensa do que o normal. Quais as variáveis que desencadeiam esse paroxismo das hostilidades? Isso só psiquiatras e os psicólogos poderiam responder. A sugestão que trago neste texto é a de que, no momento atual aqui no Brasil, o alvo preferido da perversidade brasileira é o Lula.

Certo! Alguém vai argumentar que as denúncias envolvendo o ex-presidente em esquemas de corrupção seriam suficientes para desejar seu fim político e até sua execução sumária se no Brasil houvesse a pena capital. A isso eu responderia que sim, as acusações são graves e, se acompanhadas de provas irrefutáveis, devem conduzi-lo também ao fundo de uma cadeia para pagar, junto com os outros, pelos crimes que tenha cometido.

Mas, uma avaliação que leve em conta o desenvolvimento histórico desse fenômeno vai constatar que essa raiva do Lula, que hoje atinge níveis patológicos, já existia antes mesmo de ele ser presidente. Além do mais, forçoso é anotar que essa repulsão expressa em consequência das supostas falcatruas não tem a mesma intensidade quando se volta para outros políticos, cujas delações são até mais graves.

Um aspecto interessante de investigar é que essa rejeição é detectada em todos os meios sociais com a mesma virulência. Só como exercício de reflexão eu arriscaria algumas hipóteses. E começo por afirmar que em cada degrau da escada social brasileira, essa cólera contra o Lula é gerada por um vírus diferente.

Comecemos pelas tradicionais oligarquias, que é mais fácil. Um grupo de pessoas que se acostumou a mandar, sem nenhuma contestação, por muitos anos, não imaginava que um dia fosse enfrentar o revés de compartilhar o poder. Quando as urnas anunciaram a vitória de um intruso, fugitivo da indigência do Sertão nordestino, os déspotas embrutecidos não se incomodaram muito, pois acreditavam que aquele ex-operário, que nem sabia falar o português correto, que nunca tinha exercido nenhum cargo importante, iria tropeçar nos próprios pés e cair antes do final do primeiro ano de governo. Mas o ex-analfabeto foi para o segundo mandato, e ainda elegeu uma sucessora, tornou-se um líder nacional e uma referência internacional de governo progressista voltado para questões sociais. A elite enlouqueceu e como não tolera que um forasteiro qualquer, estranho ao seu seleto grupo de comparsas, tente chegar ao comando da nação, está disposta a qualquer coisa para evitar novas ousadias. Nada mais compreensível. O medo, aqui, é o de perder o comando que sempre exerceu da situação.

Depois temos as invectivas que explodem na goela daquela gente que vive espremida entre o andar de cima e o de baixo, numa oscilação histérica entre o desejo de subir e a ansiedade pelo perigo de cair. Aqui começam os problemas, pois esse segmento social que chamamos de classe média é uma abstração sociológica, uma vez que abrange um número muito grande de extratos e não tem uma identidade bem definida. Por outro lado, não é todo cidadão mediano que sofre irritações da bílis. Existe apenas uma parcela desse povo intermediário cuja capacidade de entender o processo de formação da sociedade é totalmente suplantada por um ressentimento incontido, disfarçado de indignação política. É aquela parte que presta serviços mais diretos para o patronato e, por causa dessa proximidade, e também por juntar as migalhas que os endinheirados deixam cair, acredita ser contemplada com as benesses que caracterizam a riqueza. Como se sabe, qualquer criatura acostumada à submissão, e sem identidade forte, gosta de se sentir uma espécie de extensão do ser a quem obedece, assim como um bebê se considera o prolongamento da mãe que o alimenta. É exatamente por não saber o lugar que ocupa na escala social que esse contingente subalterno adotou o discurso dos ricos e se bate com unhas e dentes a defender valores que não possui, mas acredita possuir. Em consequência, não aceita, de maneira nenhuma, ser governada por um presidente estranho às esferas superiores.

Resta ainda meditar sobre o rancor daquelas pessoas que habitam nas camadas financeiramente mais baixas da sociedade, e que popularmente chamamos de pobre. Esse é um pouco ainda mais complicado, por isso concentro o foco sobre um dos aspectos: o fato deles odiarem um homem que construiu toda uma trajetória pessoal a trabalhar para que eles, os pobres, melhorem de vida. Parece um paradoxo que tais pessoas espanquem com tanto ardor alguém que tenta ajudá-las e, ainda por cima, lancem contra a vítima tantos insultos baseados em incriminações carentes de provas, que mais parecem fofoca do que uma etapa de uma ação criminal. Arrisco mais um palpite. O problema é a naturalização da miséria. Muitas pessoas que levam a vida nos limites da sobrevivência acostumaram a acreditar que a vida é assim mesmo, quem nasceu na penúria vai morrer na pindaíba, deus quis assim etc e tal. Aí aparece um homem que saiu de um ambiente tão miserável quanto aquele em que o sujeito está vivendo e diz a ele, olha, o pauperismo em que você vive não é natural, ele foi construído ao longo dos séculos, juntamente com uma série de mentiras sobre a santificação da vida simples, e você deve tomar uma atitude para se livrar dessa condição sub-humana, lutar por seus direitos. Aliás, você sabia que tem vários direitos que lhes são negados? Não? Pois é. Os mesmos homens que te mantêm nessa mendicância te enchem a cabeça de caraminholas, e te negam benefícios garantidos por lei. Vamos lá, levanta a cabeça, vamos lutar!

Pronto, foi o que bastou para aquele pobre coitado se ver enredado em muitos conflitos de ordem moral. Desobedecer ao meu chefe? Eu tenho de lutar? Mas a gente não ganha tudo de graça? E eis que sua resposta é o punho cerrado, a mão cheia de pedras para escorraçar aquele que evidenciou que a pobreza não é uma condição natural, que a gente pode sair dela se quiser. É só se unir a outros indivíduos da mesma situação e juntos formar uma barreira de resistência contra a exploração e os desmandos dos tiranos. Aí o pânico se instalou de vez. Muito pior do que as torturas da inópia são os limites impostos pela falta de coragem.

Com essas interpretações, conclui-se que, dos três segmentos citados, apenas o primeiro, a classe dominante, nutre uma aversão a um alvo externo, a um alienígena que ameaça seus interesses diretos. Nos outros dois casos, o ódio é consequência de uma visão deturpada do mundo em que vivem e desconhecimento das variáveis que condicionam uma existência humana. Em resumo, um ódio a si próprio.

lula novo Dudu

Um Sonho de Natal

Um Sonho de Natal

Acho que foi efeito da bebida que tomei naquele clima de calor infernal. Noite de Natal, a gente se empolga na euforia de comemorar o aniversário do Salvador, bebe um pouco mais, e aí já viu. E era vinho branco, geladinho. Vinho tinto é na Páscoa, aquela história de isto é o meu sangue, coisa e tal. No Natal pode ser branco. Ou não pode? Vai ver que foi por isso. Foi um castigo. Eu tive um pesadelo. Tá, nem foi um pesadelo, só um sonho ruim que me fez acordar suando. É que fazia um calor dos diabos.

Mas foi assim: eu ia caminhando numa trilha, dessas de caminhadas ecológicas que os grupos de turistas fazem. Só que eu ia sozinho. Era tipo uma peregrinação no dia de Natal, e o sol queimava a cabeça da gente cá em baixo. O caminho passava por um vale no meio de umas montanhas, quando me dei conta, não sabia mais onde eu andava. Quer dizer, totalmente perdido. Aí, olhei prum lado, olhei pro outro, só montanha, e lá em cima, o céu. Segui andando, eu acreditava que naquele rumo eu chegava a algum lugar. Quando de repente, olhei pra frente, em cima de uma pedra, um velhinho de barba branca, e uma roupa esquisita, que visto de longe se assemelhava a um vestido longo, marrom ou vermelho, nem sei direito, amarrado na cintura com um laço branco. E o mais estranho é que de imediato eu sabia quem era, assim, na base da intuição, ou da fé. De início, até tive umas dúvidas, mas assim que cheguei mais perto, confirmei. O velhinho era deus. Isso porque ele disse que não podia chegar muito perto, que a luz dele podia me cegar, e aquelas coisas que nem do filme do Charlton Heston. Mas aí eu perguntei

- O que o senhor anda fazendo por aqui?

- Descansando um pouco. Nessa época, lá em cima, chegam muitos pedidos dos humanos. É um saco, não consigo atender todo mundo nem na eternidade. Não aguento mais o período de Natal.

- E como chegou até aqui? É que eu estou perdido.

- Basta eu dizer que quero estar em algum lugar, e pronto, já estou. Na verdade, faz alguns dias que cheguei. Assumi uma identidade falsa de humano e fui dar um passeio na cidade, ver de perto como anda meu povo, mas desisti, vim procurar um refúgio calmo pra relaxar.

- E o que achou desse nosso mundo? Pra mim é tudo muito confuso.

- Confuso e decadente. Bem como disse o Caetano, aqui tudo parece construção e já é ruina. Até as pessoas são muito mais velhas do que eu imaginava lá de cima. Todo mundo sofrendo por besteira, envelhecendo antes do tempo. Vão morrer cedo. O Adão, que não tinha vaidade nenhuma, viveu novecentos e sessenta e cinco anos.

- Até as mulheres? O que o senhor achou delas?

- Essas fazem todo o tipo de maluquice pra esconder a decadência. Eu fico até com pena, mas não vou me meter mais. Os conselhos que eu dei pra Eva não adiantaram de nada, então, larguei de mão.

- Ah, ainda mais o senhor que gosta das novinhas.

Deus me lançou um olhar ameaçador, mas disfarçou em seguida e fez que não tinha entendido. Nem esperei ele falar e acrescentei.

- Aquela história de emprenhar virgens. Eu leio a Bíblia.

Ele trocou de posição em cima da pedra, se acomodou melhor, e falou, como se desculpando.

- Pois é. Eu precisava de um filho pra organizar a bagunça que estava isso aqui em baixo. Querias que eu fizesse o quê? Esperasse a menina crescer, estudar, arrumar um emprego? Aí ela virava feminista.

- Ué, mas não foi o senhor quem criou tudo, inclusive o feminismo?

- Não. Eu não criei tudo o que existe. Se tu leste a Bíblia, sabes que houve um dos meus súditos que se rebelou, queria fundar um partido de esquerda no céu. Dei-lhe um chute na bunda e mandei pros quintos dos infernos. Então ele veio aqui pra terra azucrinar os fracos com tentações. No começo, ele só oferecia maçãs, e conhecimento, mas aí as pessoas foram ficando gananciosas, o olho cresceu, queriam roupas de grife, carros de luxo, e aí ele inventou a propina, a corrupção, o socialismo, o partido de esquerda. E também o feminismo.

O criador parecia muito triste, e embora eu não pudesse ver totalmente seu rosto por causa da barba grande e da distância mantida entre nós, tive a impressão de que havia uma grande frustração com a humanidade. Tentei retomar a conversa

- Mas deus, me diga uma coisa, que eu sempre tive curiosidade. Por que o senhor não destruiu o dito cujo, o coisa ruim, e todo esse pandemônio que ele espalhou na terra? Não podia simplesmente enquadrar numa única lei toda essa pestilência que o chifrudo lançou no mundo e revogar tudo, assim como o Temer tá fazendo hoje?

- Não é tão fácil assim. Criar é barbada, mas descriar é outra coisa. Preciso ter uma justificativa.

- Mas e essa súcia que inferniza a vida da gente, o Sartori, o Temer, Bolsonaro, Crivella, o Trump, não é um motivo suficiente?

- Eu não me meto em política.

- Ah, o senhor não, mas a sua Igreja, os padres. Sem falar naqueles que se metem na política em seu nome. O Crivella, por exemplo, fala muito no senhor.

- Não sei quem é, não conheço.

Dava pra ver que ele se irritou quando eu falei na promiscuidade dos padres e a política, mas eu estava tomado de uma sensação tão extraordinária, me sentia muito corajoso e resolvi espichar um pouco mais o assunto. Mas me ocorreu testar se ele sofria daquela vaidade masculina tão comum aqui na terra.

- Mas voltando à mocinha de que falei antes. Aquela história de engravidar só com o espírito é só pra enganar os trouxas, né?  Os deuses gregos viviam copulando com as humanas, mas eles assumiam a culpa.

- As histórias dos gregos eram tudo invencionice, superstição. Não mistura as coisas.

Ele, visivelmente irritado, mas eu, possuído pelo espírito maligno da provocação, continuei:

- O senhor pegou a menina, levou pra estrebaria e mandou brasa.

- Não era estrebaria, seu burro, era uma manjedoura. E essa só apareceu depois, quando o guri nasceu.

- Manjedoura é o cocho que fica na estrebaria, portanto é a mesma coisa. É onde os animais vão comer, sem duplo sentido. Então, seu filho nasceu numa estrebaria. A propósito, pelo que eu li na Bíblia, o pirralho quase se ferrou. O senhor deixou o filho assim abandonado numa manjedoura ou estrebaria, só com a menina adolescente e um carpinteiro que quase nunca se manifesta. Depois o outro rei lá queria matar o guri e matou um monte por engano. O senhor não deu a atenção que devia. Se fosse hoje o senhor seria processado por abandono de incapaz.

- É que a coisa tinha que ter um apelo dramático pra render uma boa história. Naquele tempo o povo já gostava muito de melodrama. E ainda não existia uma maternidade, obstetra, essas bobagens de hoje. Além do mais, naquela época, era natural uma menina parir cedo, ninguém se incomodava, e não existia uma Maria do Rosário pra encher o saco.

- Ué, pensei que o senhor não gostasse de política.

E foi aí que ele deu um pulo de onde estava e se veio em direção a mim, os olhos dele começaram a soltar fogo e eu vi que ele tinha o propósito bem claro de revogar a minha existência. Saí correndo e gritando e acordei todo suado.

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Lendo #Bobbio

Lendo Bobbio

Norberto Bobbio morreu em 2004, perto dos cem anos de idade. Atravessou, portanto, todo o século 20, e deixou uma obra extensa de estudos sobre esse período. Além da atividade intelectual, exerceu cargo político no parlamento italiano. E é justamente sobre política um dos últimos textos que publicou. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. Trata-se de uma reflexão para definir os dois polos de uma díade que perpassa as disputas pelos instrumentos de poder, há mais de dois séculos.

Minha intenção com esta resenha é selecionar alguns pontos do trabalho de Bobbio e testar seus reflexos na atual realidade brasileira.

A começar pela alegação do fim das ideologias, e o consequente esvaziamento dos termos Direita e Esquerda, ou de qualquer outra polarização que viesse a demonstrar conflitos extremos na disputa pelo poder. Como resposta a esse disparate, Bobbio afirma, já nas primeiras páginas do livro, que não há nada mais ideológico do que o propagado colapso das ideologias. Trata-se de uma estratégia para convencer os subalternos de que as decisões tomadas pelo grupo que controla o poder têm carácter puramente técnico e administrativo, isentas, portanto, dos interesses próprios desses grupos dominantes, e dos valores que desejam impor como orientadores da vida em sociedade.

Nessa onda da suposta morte das ideologias, surge uma terceira opção, que se apresenta como a superação dos dois extremos e se apropria do que é positivo em ambos. Trata-se mais uma vez, de despolitizar as disputas pelo poder, dando-lhe uma aparência de preocupação com objetivos comuns, ludibriando as suspeitas de ambições particulares.

Esse foi, claramente, o caso da chamada terceira via que se apresentou nas eleições brasileiras em 2014. Uma proposta de superar a já histórica rivalidade entre os dois principais partidos, PT e PSDB, representantes da Esquerda e da Direita, respectivamente, como se a luta não passasse de uma brincadeira inconsequente de crianças birrentas. Nada mais político, diria Bobbio, do que essa tentativa de despolitização. Negar a polarização é escamotear as causas de sua existência. Direita e Esquerda, ensina Bobbio, não são palavras vazias, porque não são apenas palavras. Para além da expressão de um pensamento ideológico, elas indicam o posicionamento dos indivíduos diante de valores essenciais no convívio social. E esse valor por excelência é a igualdade. Citando o mestre: “o critério mais frequentemente adotado para distinguir a Direita da Esquerda é a diversa postura que os homens organizados em sociedade assumem diante do ideal de igualdade”.

Por isso é difícil acreditar na narrativa de ex-esquerdistas arrependidos, fenômeno tão atual no Brasil. Esse suposto abandono do ideal de esquerda é resultado de uma confusão entre os ideais de esquerda e as tentativas históricas de colocar em prática o princípio da igualdade. O comunismo faliu enquanto programa político posto em prática, mas como ideologia continua bem vivo, pois as causas que o geraram, as desigualdades sociais, ainda são a característica mais marcante das sociedades humanas.

A questão da igualdade traz imediatamente o problema da liberdade. E nesse ponto as confusões são muitas, sobretudo na preleção da Direita, que valoriza mais a liberdade do que a igualdade, baseada na crença de que, num regime democrático, todos os indivíduos têm todas as liberdades para conduzirem suas vidas como bem entenderem. Bobbio não se deixa levar por esse palavrório. Ao contrário, ele alerta para a diferença entre liberdade de pensar e de agir. A primeira é um princípio abstrato, mas a segunda implica que o indivíduo tenha acesso a todas as possibilidades de usufruir essa liberdade, o que acaba remetendo à questão da igualdade. Não tem sentido nenhum alardear o valor de um principio abstrato quando nem todos os indivíduos podem vivenciá-lo na prática.

Não sei se algum dia Bobbio se interessou especificamente pelos problemas da sociedade brasileira. Mas, se vivo fosse e andasse por estas terras, provavelmente ele se espantaria muito ao ver os candidatos de Direita vencendo eleições com o ardil da despolitização da política e se apresentarem como não-políticos; ver a classe média, que por não conhecer as próprias necessidades, caiu na conversa da Direita e embarcou no blefe de um país livre do aparato ideológico. Um discurso que preenche os sonhos de consumo da classe média brasileira, que por acreditar que é rica, insiste em negar as causas dos conflitos sociais, e que, por ignorância, não consegue ver que as disputas pelo poder serão sempre ideológicas.

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Conservadorismo sólido

Desconfio muito das desavenças nos relacionamentos afetivos. E mais ainda de quem se propõe a falar sobre elas. E justifico minhas reservas. As pessoas não entram em conflitos por causa de seus afetos, e sim por causa dos desempenhos que são esperados delas numa relação. E qualquer tentativa de análise que ignore essa característica acaba por reduzir o problema, na maioria das vezes, a um ponto de vista moral. Ao iniciar um contato afetivo, especialmente quando se trata de relação homem/mulher, o indivíduo tende a incorporar os valores sociais que regem essa forma de convivência, e se dispõe a corresponder às expectativas que a sociedade cobra dele. O problema é que nem todos conseguem represar seus sentimentos em embalagens fornecidas em série pelas convenções sociais, e o resultado é que os desencontros são inevitáveis.
Abordar esse tema e não levar em conta a origem social de muitas emoções é falar de um problema que de fato não existe. E é isso que faz Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Devo confessar que tenho certas precauções com autores de muito sucesso, sobretudo esses que falam de relacionamentos, pois a experiência me ensinou que as incursões nessa área são, em geral, superficiais, para agradar o grande público, e que, por isso mesmo, não conseguem ir além das generalizações do senso comum, de caráter não raramente moralista. E os laços afetivos entre os sexos, por acionarem valores morais que dão base à formação da família tradicional, célula base da sociedade ocidental, são os preferidos dos moralistas.
E com Bauman não é diferente. Já nas primeiras linhas, ele se põe a lamentar o fim das “relações indissolúveis e definitivas” entre os “homens e mulheres (…) desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos descartáveis …” Só esse trecho já seria o suficiente para saber do que se trata. A calamidade da vida moderna, segundo o autor, é que as pessoas abandonaram as convenções e passaram a compartilhar vivências apenas orientadas pelos sentimentos.
Mais adiante, a lamentação continua com a falta de seriedade na vida contemporânea. Pois é nesse ponto que começam os problemas no discurso de Bauman. Ele confunde profundidade afetiva com submissão às regras de sociabilidade. Existe aí um referente bem claro que orienta essa concepção: as sociedades de castas, onde os indivíduos nascem e atravessam a vida até a morte na mesma posição, em contato com as mesmas pessoas, desempenhando os mesmos papeis, sem nenhuma chance de mobilidade. Nessas sociedades, onde a comunidade era o referente, o que importava era o ritual que mantinha o indivíduo preso ao seu local de origem e às suas obrigações. Porem, na nossa sociedade, o indivíduo é o referencial, e não a comunidade, e as vivências afetivas são resultado da mobilidade da existência de cada um. Pretender que a manutenção de relacionamentos simultâneos, ou de pouca duração, caracteriza superficialidade é confundir afeto com obrigação social. E mais ainda, negar a importância do desejo como um dos fatores que impulsionam na busca por contatos.
O que determina a duração de um comprometimento é apenas uma afinidade que nasce e deve continuar espontaneamente, com toda a liberdade de movimentação, inclusive para o afastamento. Qualquer relação que se mantenha por algo que não seja uma disposição interior e reciproca, não é afetiva, e não passa de ação compulsórias. Tudo menos amor.
Aliás, é na concepção de amor que o famoso sociólogo se perde mais uma vez. A comparação de amor e morte é uma herança do Romantismo, que entende o amor como uma entidade, um ser superior que escolhe um ser humano a quem atacar com sua flecha envenenada e, a partir desse momento, a pobre vítima está infalivelmente afetada pelas agruras dos sentimentos. Está implícito aí uma concepção dos sentimentos com uma dimensão mórbida, uma doença incurável, na qual a vítima sucumbirá, sem chance de cura. Nada mais romântico e anacrônico.
Também é possível vislumbrar na liquidez das ideias de Bauman a noção de “relacionamento sério” como sendo aquilo em que a pessoa investe seus afetos para uma relação definitiva, a relação amorosa como o ápice da realização do espírito humano. Mas, alerta o autor, isso não é para qualquer um, é apenas para aqueles espíritos fortes, dotados de “humildade e coragem”. O amor é uma dimensão aonde se chega com o exercício de algumas qualidades Parece que a maior fonte de pesquisa do autor a esse aspecto da questão são as colunas de conselhos sentimentais, aquelas apoiadas no psicologismo do senso comum, sem nenhuma fundamentação que lembre a seriedade cientifica.
É sintomático que Baumam ignore a “História do Amor no Ocidente”, de Denis Rougemont. Pois nessa obra, constatamos que aquilo que o Ocidente chama de AMOR não é nada mais do que um discurso inventado e articulado historicamente, a partir da Idade Média. O ser humano tem uma necessidade existencial de se elevar um pouco acima das mesquinharias da vida cotidiana, acreditar que, pelo menos em alguns momentos, está vivendo uma experiência sublime, de grandeza espiritual. Daí a noção de amor surgiu exatamente para esse fim: fazer o homem sonhar que é possível atingir as esferas celestiais aqui na terra. E ainda com a vantagem de ser uma experiência ao alcance de qualquer um, independente de classe social ou posse econômica, uma experiência de valor universal, bem ao gosto da burguesia ascendente, que buscava mais espaço na estrutura fechada do mundo medieval.
Em resumo, o livro Amor Líquido não passa de uma ladainha conservadora de alguém que lamenta não viver mais no passado, onde os papeis sociais eram definidos no nascimento. Mais preocupante ainda é o fato de esse autor ser tão badalado, o que demonstra que o conservadorismo calcado nas generalizações do senso comum é muito sólido.